sábado, 13 de setembro de 2008

O Aleph

Pintura de Rembrandt.
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Na parte inferior do degrau, à direita, vi uma pequena esfera furta-cores, de brilho quase intolerável. Primeiro, supus que fosse giratória; depois, compreendi que esse movimento era uma ilusão produzida pelos vertiginosos espectáculos que encerrava. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava ali, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (...) era infinitas coisas, porque eu via claramente de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, (...) vi uma prateada teia de aranha no cemtro de uma negra pirâmide, (...) vi todos os espelhos do planeta e nenhum me reflectiu, (...) vi a noite e o dia contemporâneo, (...) vi tigres, êmbolos, (...) vi todas as formigas que existem na terra, vi um astrolábio persa, (...) vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, vi o meu rosto e as minhas vísceras, vi o teu rosto e senti vertigem e chorei, porque os meus olhos tinham visto esse objecto secreto e conjectural cujo nome os homens usurparam, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo.
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Jorge Luis Borges.