quinta-feira, 24 de março de 2011

Anunciação

 Petrus Christus, Annunciation (1452, Groeninge Museum, Bruges).
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Provavelmente, quem segue este blogue sabe que a Anunciação é um dos meus temas preferidos da história da arte. As razões prendem-se não só com a beleza do episódio bíblico, mas também com outros factores: gosto de anjos, gosto das representações de cenas interiores e do quotidiano que geralmente estão associadas a este tema (sobretudo na pintura flamenga e holandesa), gosto dos símbolos mais ou menos escondidos e dos múltiplos detalhes. O meu interesse sobre o tema aumentou quando li o livro de Didi-Hubberman sobre Fra Angelico e quando fui a Florença e vi as Anunciações de Fra Angelico. Também aumentou quando descobri que a Anunciação se festejava no dia 25 de Março, sendo associada à chegada da Primavera, fazendo nove meses de antecedência até ao Natal - quando se festeja o nascimento de Jesus.
Esta Anunciação que escolhi para celebrar o dia 25 de Março de 2011 é de Petrus Christus, um pintor que nasceu em Baarle-Hertog, perto de Antuérpia, activo em meados do século XV. Interessou-me por vários motivos: a delicadeza do anjo Gabriel, anunciando a Maria que iria conceber Jesus, a figura também delicada de Maria, com as mãos em pose de aceitação, tendo sobre a sua cabeça a pomba do Espírito Santo. 
Depois atraem-me os detalhes habituais: a Virgem junto de uma mesa com livros, evocando a Bíblia, estando um fechado e outro aberto - referindo-se talvez ao Velho e ao Novo Testamento. Entre o anjo e a Virgem está uma jarra com lírios, lembrando a pureza de Maria.
A cena passa-se num interior, que parece ser o de uma igreja, com paredes rasgadas por grandes janelas com vitrais que permitem a iluminação do espaço. Entre os vários aspectos interessantes desta pintura, há alguns que vou destacar: a perspectiva centralizada que aponta para o grande vitral ao centro, em cima, onde num círculo está figurada uma imagem de Maria, ladeada por Deus e por Jesus.
Por outro lado, acho muito interessante (e bela) a paisagem que se vê pela porta aberta, do lado de Maria. Importa notar que, segundo Didi-Hubermann, as Anunciações jogam com a ideia de aberto e fechado, ficando a Virgem geralmente do lado da casa / fechado e o anjo do lado do jardim / aberto. No entanto, aqui a Virgem fica do lado do jardim, onde se vêm pavões, que são um símbolo cristão. O jardim simboliza o Paraíso perdido, que será retomado com Maria através de Jesus, a qual é associada à imagem de Hortus conclusus (do Cânticos dos Cânticos).
Creio que há outros detalhes importantes, entre os quais os dois profetas, um de cada lado do arco, que evocam certamente os profetas que anunciaram a vinda de Jesus. Esta pintura é muito rica de leituras e talvez um dia venha a descobrir mais sobre ela.

5 comentários:

Virgínia Jorge disse...

Bom dia!
Gosto muito de visitar este seu espaço onde aprendo muito.
Obrigada por este post - muito interessante descobrir os elementos simbólicos presentes num quadro!
Da Anunciação, gosto muito de uma pintura pré-rafaelita, de Waterhouse(?), não tenho a certeza...

Boa sexta :)

mvs disse...

Muito interessante. Desconhecia todo este simbolismo típico da Anunciação (como a questão da porta aberta, jardim, etc).
Bjs

ana disse...

Margarida,
Partilho do seu gosto pelo tema. É belo não só pela carga simbólica mas também porque como diz, estão patentes: o anjo, a virgem e a doçura da aceitação, os pormenores quotidianos, a pomba/Espírito Santo...

Muito interessante o seu post. Obrigada por esta beleza!

Margarida Elias disse...

Virgínia Jorge: Há muitas Anunciações dos Pré-Rafaelitas. Essa que diz não me lembro, mas vou procurar. Obrigada!

MVS: Há mais símbolos, estes eram aqueles que me lembrava... Bjs

Ana: Obrigada! Ainda bem que gostou. Estas Anunciações flamengas ou holandesas são um manancial de beleza e símbolos.

Presépio no Canal disse...

Que maravilha de post! Aprendi muito!
Bjs!!