domingo, 1 de setembro de 2013

«História Maravilhosa do Príncipe Urso Doce de Laranja»

---
Não irei aqui transcrever a história do Príncipe Urso Doce de Laranja, porque é muito longa. Digitalizei-a e coloquei-a na internet, no site da Academia.edu (Link). Quero apenas recordar os pontos mais interessantes da história, nomeadamente nos aspectos comuns ao mito de Cupido e Psiche e ao conto da Bela e do Monstro.
A história do Príncipe Urso Doce de Laranja começa com um rei que fazia muitas viagens, levando, no regresso a casa, presentes para as suas filhas. A mais nova não queria nada, mas perante a insistência do pai pede-lhe um ramo de flores sem flores. O rei só conseguiu encontrar essa prenda no jardim de um Gigante, que era também o Príncipe Urso Doce de Laranja, e que estava sob o efeito de um encantamento. O Urso deixa o rei levar o ramo de flores sem flores, mas pede-lhe a filha em troca. A filha descobre que o marido durante a noite é afinal um príncipe muito belo e o casal tem três filhas, a que dão o nome de Fé, Esperança e Caridade. Numa visita ao palácio do pai, por ocasião do casamento de uma das irmãs da princesa, a rainha convence a filha a mostrar-lhe o Urso durante a noite. Devido a essa falha, dobra o encanto do Urso e ele abandona a princesa com as filhas. Desgostosa, esta decide ir à procura do seu marido que só poderia encontrar no palácio das Janelas Verdes. Peregrinou nessa demanda durante sete anos, ao longo dos quais perdeu as três filhas, que ficaram cada uma com três velhas pobres, a quem precisara de pedir abrigo. Alcançando o palácio, só à terceira noite é que consegue que o marido a oiça, quebrando-se o encantamento. As três velhas eram afinal as irmãs do Príncipe Urso Doce de Laranja, que voltam a ser princesas e lhes devolvem as três filhas.
Um aspecto curioso desta história é a insistência no número três, o que é bastante comum nas histórias tradicionais e contos de fadas. Como na "Bela e o Monstro" há três filhas e é o pai, quando tenta dar um presente à filha mais nova, que dá início à história. Nas três histórias, a protagonista casa-se com um monstro que era na verdade um príncipe encantado (ou um deus). No caso da Bela e de Psiche são as irmãs da protagonista que causam o desastre, no caso do Príncipe Urso é a mãe. A filha, castigada pela sua curiosidade (bem como a da mãe e a das irmãs), tem de passar por tormentos para recuperar o seu amado. Na história do Príncipe Urso, como no mito de Psiche, é durante a noite, quando o suposto monstro está a dormir, que ela consegue vê-lo na sua verdadeira aparência. É também de notar que a separação em relação à família é essencial para a conclusão da história. Na história do Príncipe Urso é dito à princesa, quando vai para o palácio do Urso: «Oh! não se apoquente, Princesa! Que mais lhe pertencerá esta do que a casa da sua família.»
Por fim, é interessante ver que o erro da princesa é necessário para que ela passe por uma provação, faça provas do seu amor, que proporcionam o final feliz - no caso de Psiche são as tarefas dadas por Vénus, que chegam a levá-la ao Inferno e a deixam à beira da morte; no caso da Bela é a quase morte do Monstro; no caso da Princesa é a perda das filhas e a demanda cheia de dificuldades. Sem essas provas, Psiche não seria imortal; a Bela e a Princesa não quebravam o encantamento dos respectivos maridos. Esta provação, que existe nestas histórias, tem paralelo em outras histórias populares (e infantis), comprovando o ensinamento das três frases de consolo que são ditas pelas velhas na história do Príncipe Urso: «Atrás do tempo, tempo vem»; «Tem esperança, que sempre o sol vem depois da tempestade!» e «Descança, que o bom tempo há-de voltar e então darás por bem empregadas as lágrimas que tens chorado para alcançar a felicidade.» Se a perseverança, a fé e a esperança são três ideais que passam claramente nestas histórias, outro é o da caridade, simbolizado pela filha mais nova da Princesa, que se entrega voluntariamente à velha, dizendo à sua mãe que cada um deve seguir o seu destino.
Nota final: Há agora uma edição desta história, publicada pela Assírio & Alvim com ilustrações de Duarte Belo (Link).
-
Bibl.: Ana de Castro Osório, Histórias Maravilhosas da Tradição Popular Portuguesa, Sociedade de Expansão Cultural.

Sem comentários: