terça-feira, 15 de outubro de 2013

A Natureza Morta - Evolução Histórica

Em 1995, realizei, para a cadeira de Teoria da Arte e Metodologia em História da Arte, da licenciatura em História / Variante de História da Arte, um trabalho intitulado «A Natureza Morta». Desde então que o tema me interessa e, em parte por isso, decidi publicar de forma mais ou menos abreviada (revista e actualizada), por capítulos, esse mesmo trabalho neste blogue. Aqui fica o primeiro "post".
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Uma "natureza morta" é, por definição, uma pintura que representa objectos inanimados. Praticada desde a Antiguidade, a natureza morta não era inicialmente um género autónomo, pois os objectos surgiam sobretudo inseridos em composições com outros temas. 

Mosaico romano com peixes e legumes (séc. II d.C, Museu do Vaticano)

Com a Idade Média o tema tornou-se cada vez mais raro, surgindo apenas como acessório simbólico e decorativo, por exemplo, nas iluminuras. No séc. XV, sobretudo nos Países Baixos, começaram a aparecer naturezas mortas representadas no verso de painéis, mantendo-se o seu significado intrinsecamente ligado ao tema que estava na parte da frente dos mesmos, que era geralmente uma pintura de temática religiosa.
Foi com o Renascimento que a natureza morta, juntamente com a paisagem e o retrato, começou a ganhar maior valorização, o que se deve ao crescente poder da burguesia, ao desenvolvimento do espírito científico e ao recolocar do homem no centro do Universo. Aliás, uma história idêntica à da natureza morta foi "vivida" pelo retrato e pela paisagem, mas poderá afirmar-se, com alguma segurança, que foi o retrato o primeiro a libertar-se dos entraves ideológicos que o secundarizavam relativamente à pintura religiosa e histórica. Apesar de tudo, o retrato figurava seres humanos, contrariamente à natureza morta, que se dedicava a seres inanimados. Mas foi também com o Renascimento e consequente interesse pela arte da Antiguidade greco-romana, que se redescobriram as decorações com "grotescos", que influenciaram, já em meados de quinhentos, os artistas do Maneirismo, e, sobretudo Giovanni da Udine. O movimento maneirista tinha como ideal a reacção ao idealismo clássico, o que se traduziu na escolha dos assuntos e, por exemplo, no colocar a realidade quotidiana em primeiro plano, em detrimento das cenas religiosas.


O séc. XVII trouxe o independência da natureza morta, com o conceber do quadro de cavalete votado ao tema, que foi dividindo em diversas categorias: flores, frutos, caça, etc. Poderá afirmar-se que a pintura a óleo sobre tela, contribuiu também para o desenvolvimento do género, pois permitia uma pintura mais detalhada e realista, nomeadamente ao nível das texturas, velaturas e tonalidades. Apesar de serem os Países Baixos que maior protagonismo deram a este tema, uma das primeiras naturezas-mortas autónomas conhecida é a Cesta de fruta de Caravaggio. Em Portugal, também no séc. XVII, por forte influência da arte espanhola, e nomeadamente de Sevilha, surgiram dois importantes pintores de natureza morta, Baltazar Gomes Figueira e sua filha Josefa de Óbidos.

Baltasar Gomes Figueira, Natureza Morta com Cordeiro e Peças de Caça (1645-1655, Museu de Évora)

Josefa de Óbidos, Natureza morta com doces e frutos (Paço dos Duques, Guimarães)

Com o nascimento das Academias, também no século XVII, a natureza morta foi considerada um género inferior, nomeadamente quando tratada como um tema independente. Segundo a hierarquização dos géneros, ficavam em primeiro lugar os assuntos históricos e religiosos, depois os retratos, as pinturas de género, e, por fim, as paisagens e as naturezas mortas. No entanto, no séc. XVIII, Chardin, pintor francês que cultivou o tema da natureza morta (além de temas de género), adquiriu o título de grande mestre. 
Só depois do Romantismo, já no séc. XIX, a natureza morta começou a alcançar um lugar de maior importância no seio da arte académica. Inicialmente, a natureza morta era vista como uma arte sobretudo decorativa, própria dos estudantes de pintura, para treinarem a sua capacidade de mimetização da realidade, ou das senhoras, pintoras amadoras, cujas regras ditavam que ficassem em casa, num mundo feito de intimidades e relações de familiaridade. Em meados de oitocentos, com o Realismo e o Naturalismo, alguns artistas começaram a olhar o mundo de uma forma cada vez mais democrática, partindo do princípio que todos os seres e objectos podem ser dignos de atenção, o que possibilitou que as naturezas mortas se desligassem cada vez mais de valores alegóricos e simbólicos, em favor de valores estéticos e compositivos. É aqui que entra o trabalho de Courbet, Manet e, depois, de Monet, entre outros. Serão também de mencionar as naturezas mortas de Columbano, embora elas coloquem outros problemas, não só de ordem plástica, pois são muitas vezes associadas ao retrato e ao intimismo.

Columbano Bordalo Pinheiro, Natureza morta (Museu do Chiado - MNAC)

Foi com Cézanne que a natureza morta se tornou num tema essencial da criação pictural e um campo de experimentação sempre renovado. As suas naturezas mortas devem ser consideradas como estudos consagrados aos diferentes problemas picturais. Esta via foi depois explorada, no séc. XX, pelos Cubistas, que viram na natureza morta o meio privilegiado de resolver problemas de representação espacial na pintura. Com Matisse e o Fauvismo, as coisas inanimadas tornam-se tema para harmonias plásticas.
Contudo, o interesse pela natureza morta como assunto de pintura pura, de índole quase abstracto, não a desligou totalmente de conotações simbólicas, embora esses valores se fossem alterando em favor de uma abordagem mais subjectiva e pessoal. Para Van Gogh os objectos tinham um significado humano e mesmo autobiográfico. Com os simbolistas, a natureza morta adquiriu valores espirituais e, com os surrealistas, permitiu a associação ao mundo do inconsciente. 
Desde o séc. XX até aos nossos dias, com a arte cada vez mais livre de entraves académicos e ideológicos, os objectos foram sendo olhados pelos artistas como tema e modelo para os seus trabalhos, em várias formas de expressão e em diversos materiais. Além da sua beleza, objectos têm a vantagem de "estar à mão", podendo ser combinados e dispostos como o artista bem entender, e por quanto tempo ele necessitar.

Eduardo Viana, Guitarra minhota (1943, Museu do Chiado - MNAC)
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Bibliografia:
Charles Sterling, La nature morte: de l'Antiquité à nos jours, Paris, Éditions Pierre Tisné, 1952.

2 comentários:

ana disse...

Obrigada por esta súmula tão interessante.
Beijinho.:))

Margarida Elias disse...

Obrigada Ana! Bjns! :)