sexta-feira, 4 de julho de 2014

De um baloiço até ao quadrado mágico, passando pela Melancolia

Lucas Cranach the Elder, Die Melancholie (1532, Unterlinden Museum)
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Ontem, andando à procura de baloiços na pintura, descobri este menino (putto) a andar de baloiço, num quadro de Cranach. Não conhecia esta pintura e notei que me parece ligada à Melancolia de Dürer, gravura que muito me tem interessado e que comemora este ano os seus 500 anos. Entretanto, na ficha do Museu de Unterlinden sobre o quadro de Cranach pode ler-se: «Les spécialistes connaissent le sens de certaines de ces images, d’autres restent secrètes. Ce sont des symboles, un code que des hommes se sont donnés pour parler de choses qui n’ont pas d’existence matérielle, des choses de l’esprit, “abstraites”. La sphère représente la géométrie, le chien endormi l’érudition, la sagesse» (link). 
Ora é precisamente a questão simbólica que mais me intriga nesta pintura e na gravura de Dürer. Será que os símbolos têm uma leitura semelhante? A de Dürer parece ser a mais complexa, contudo.

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Albrecht Dürer, Melencolia I (1514, Metropolitan Museum of Art, New York)
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O Metropolitan Museum of Arte, a propósito dos 500 anos da gravura de Dürer, publicou na internet um texto de Nadine Orenstein intitulado «A Happy Occasion for Melencolia I». Nesse texto lembra-se que a Melancolia é personificada por um ser alado rodeado por objectos associados à geometria, uma das sete artes liberais. A melancolia era considerada um dos quatro humores que se julgava que influenciavam a personalidade das pessoas, estando relacionada com Saturno, com o trabalho da madeira ou da pedra, a agricultura e a geometria. No pensamento Renascentista, a melancolia associava-se ainda ao génio criativo e por isso a Melancolia I pode ser lida como a representação da situação intelectual do artista*. 
Uma explicação interessante sobre esta gravura é feita por John Reid no site denominado Alchemy Lab. Segundo a interpretação desse artigo, poderá ler-se a Melancolia I como uma alegoria à Grande Obra da alquimia, na busca da Pedra Filosofal. O texto também refere os quadros de Cranach sobre a Melancolia, interpretando-os sob o ponto de vista alquímico, pois dizia-se que obtendo os materiais certos o resto das operações da Grande Obra seriam uma brincadeira de crianças.
Contudo, outros aspectos quero mencionar acerca destas duas obras. Primeiro, ao olhar para as crianças a brincar num quadro intitulado Melancolia, lembrei-me da frase "Et in Arcadia ego", que deu o título a duas pinturas de Poussin, sendo a do Louvre a mais conhecida:

Nicolas Poussin, Les Bergers d'Arcadie (Et in Arcadia ego) (1637-1638, Musée du Louvre)

Lembrou-me também o poema Feliz Dia para Quem É de Fernando Pessoa, que termina assim: 

Mas vejo quem devia estar 
Igual do dia 
Insciente e sem querer passar. 
Ah, a ironia 

De só sentir a terra e o céu 
Tão belo ser 
Quem de si sente que perdeu 
A alma p’ra os ter!

O poema relaciona-se com a ideia de que a busca do conhecimento, em excesso, acaba por toldar a capacidade de ser feliz, de se ver o mundo com inocência: «Feliz dia para quem é / O igual do dia, / E no exterior azul que vê / Simples confia!» (link). Ora o sentimento de melancolia trazido pelo conhecimento está muito ligado, por sua vez, à gravura de Dürer.

(link)

Por outro lado, ainda acerca do quadrado mágico da gravura de Dürer. Há pouco tempo cruzei-me com ele no livro O Símbolo Perdido de Dan Brown, onde se diz: «"But did you know that this magic square is famous because Dürer accomplished the seemingly impossible?” He quickly showed Katherine that in addition to making the rows, columns, and diagonals add up to thirty-four, Dürer had also found a way to make the four quadrants, the four center squares, and even the four corner squares add up to that number. “Most amazing, though, was Dürer’s ability to position the numbers 15 and 14 together in the bottom row as an indication of the year in which he accomplished this incredible feat!”».
E, por fim, usando letras, a minha mãe, fez recentemente uma pintura com um quadrado SATOR, sendo a frase completa de SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS possivelmente traduzida por:  «O Criador, autor de todas as coisas, mantém com destreza as suas próprias obras».

Emília Mattos e Silva, O Quadrado Mágico (2013)
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* Sobre este tema ver Ginny Berndt, Albrecht Dürer’s Melencolia I: A Self-Portrait.

2 comentários:

APS disse...

Dispensando o Dan Brown ( um dos meus ódios de estimação, pela charlatanice oportunista), gostei imenso deste seu poste.
Um bom fim-de-semana!

Margarida Elias disse...

Muito obrigada e bom fim-de-semana!