sábado, 17 de outubro de 2015

Imaginar II / trechos de um texto de Eça de Queiroz

Calvin & Hobbes - Go Comics.
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Em 1893 (27 e 28 de Julho), a partir de Paris, Eça de Queiroz publicou um texto na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, intitulado «Positivismo e Idealismo», que eu acho uma delícia. Farei aqui apenas um levantamento de alguns trechos.
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Retrato de Eça de Queiroz, por Rafael BordaloPinheiro.
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«Em literatura estamos assistindo ao descrédito do naturalismo. (...) A simpatia, o favor, vão todos para o romance de imaginação, de psicologia sentimental ou humorista, de ressurreição arqueológica (e pré-histórica!) e até de capa e espada, com maravilhosos imbróglios, como nos robustos tempos de d'Artagnan.»
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«Nas artes plásticas a reacção contra o naturalismo e o pleno ar é decisiva. Sobre a exacta, luminosa, sã e suculenta pintura da escola francesa vai-se espalhando e, cada vez mais densa, uma névoa de misticismo. Todas as formas se afinam, se adelgaçam, se esvaem em difaneidade - no esforço de traduzir e pôr na tela o não sei quê que habita dentro das formas, a pura essência que conserva apenas o contorno indefinido do seu molde material.»
«(...) Ah o nosso velho e valente amigo, o livre-pensamento, vai atravessando realmente uma má crise! (...)»
«(...) o livre pensamento está fora de moda entre a mocidade. Hoje, neste ano de 1893, é de mau tom em Paris ser livre-pensador! (...)»
«(...) Em suma, esta geração nova sente a necessidade de divino. (...) eles sofrem desta posição ínfima e zoológica a que a ciência reduziu o homem, despojado por ela da antiga grandeza das suas origens e dos seus privilégios de imortalidade espiritual. É desagradável para quem sente a alma bem conformada, descender apenas do protoplasma; e mais desagradável ter o fim que tem uma couve, a quem não cabe outra esperança senão renascer como couve. O homem contemporâneo está evidentemente sentindo uma saudade dos tempos gloriosos em que ele era a criatura nobre feita por Deus, e no seu ser corria como outro sangue o fluido divino, e ele representava e provava Deus na criação, e quando morria reentrava nas essências superiores e podia ascender a anjo ou santo.»
«Tão tumultuosamente esta geração nova apetece o divino - que à falta dele, se contenta com o sobrenatural. (...). Em Paris, em todas as grandes cidades, onde o materialismo excessivo exasperou as imaginações, não se vêem senão homens inquietos batendo de novo à porta dos mistérios.»
(...)
«Quais são as causas, quais as consequências desta revolta? A causa é patente, está toda no modo brutal e rigoroso com que o positivismo científico tratou a imaginação, que é tão inseparável e legítima companheira do homem, como a razão. O homem desde todos os tempos tem tido (...) duas esposas, a razão e a imaginação, que são ambas ciumentas e exigentes. (...)»
«O positivismo científico, porém, considerou a imaginação como uma concubina comprometedora, de quem urgia separar o homem: - e apenas se apossou dele, expulsou duramente a pobre e gentil imaginação, fechou o homem num laboratório a sós com uma esposa clara e fria, a razão. O resultado foi que o homem recomeçou a aborrecer-se monumentalmente (...). E um dia não se contém, arromba a porta do laboratório (...), e corre aos braços da imaginação, com que larga a vaguear de novo pelas maravilhosas regiões do sonho, da lenda, do mito e do símbolo.»
(...)
«Eu, por mim, registo os factos. E penso que agora que o homem retomou a posse da sua ardente companheira, a imaginação, (...) não consentirá, nestes anos mais chegados, que o sequestrem dessa Circe adorável que transforma os seus amigos não em porcos - mas em deuses.»
«(...) O estridente tumulto das cidades, a exageração da vida cerebral, a imensidade do esforço industrial, a brutalidade das democracias, hão-de necessariamente levar muitos homens, os mais sensíveis, os mais imaginativos, a procurar refúgio no quietismo religioso - ou pelo menos a procurar no sonho um alívio à opressão da realidade. Mas estes mesmos não podem, nem destruir, nem sequer desertar o trabalho acumulado da civilização. (...)
«(...) este nevoeiro místico que em França e em Inglaterra está lentamente envolvendo a literatura e a arte, eu penso que ele será benéfico (...). Nunca mais ninguém, é certo, tendo fixo sobre si o olho rutilante e irónico da ciência, ousará acreditar que das feridas que o cilício abria sobre o corpo de S. Francisco de Assis brotavam rosas de divina fragrância. Mas também nunca mais ninguém , com medo da ciência e das repreensões da fsiologia, duvidará em ir respirar, pela imaginação, e se for possível, colher as rosas brotadas do sangue do santo incomparável.»
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Nota: O texto Un Manifeste littéraire, do Jean Moréas, que está na génese do movimento Simbolista, data de 1886.
cf. https://fr.wikipedia.org/wiki/Symbolisme_(art)
Nota 1: Texto retirado de Beatriz Berrini (ed.), Eça de Queiroz, Literatura e Arte, Uma Antologia, Lisboa, Relógio d'Água, 2000, pp. 99-109.
Nota 2: Os negritos são meus.

3 comentários:

APS disse...

Vou pegar apenas por um ponto do seu excerto queiroziano.
Eu penso que se voltou um pouco à necessidade do "divino", por variadíssimas razões, que não serão, de todo, racionais. Não me parece mal, porque todo o ser humano precisa de um objectivo, para manter um certo equilíbrio, uma esperança, uma activa solidariedade para com os outros. Em tempos de vacuidade ou extremismos, ter fé acaba por ser uma virtude ou uma mais valia.
Um bom fim-de-semana!

Margarida Elias disse...

Concordo consigo, APS. Quando estava a transcrever os trechos to texto estava precisamente a pensar que ele tinha muito de actual - aliás, como muitos outros textos de Eça de Queiroz. Bom Sábado!

ana disse...

Gostei muito deste trecho do Eça e realmente o simbolismo é uma fuga, uma procura do belo no que é indefinido...
Beijinho. :))