terça-feira, 17 de novembro de 2015

Do medo, da ansiedade e do tempo

Paul Klee, In the beginning (1916)
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O tempo fascina-me. Não só gosto de relógios, calendários e agendas, bem como de toda a parafernália que serve para medir e controlar o tempo; como passo a vida numa constante luta com ele, pelo menos para o entender melhor. Corre quando quero que abrande, abranda quando quero que corra. 

Bill Watterson, Calvin and Hobbes

Por vezes estou em locais onde a única opção é esperar e, espantosamente, o tempo passa relativamente depressa, apesar de eu estar sem nada para fazer. Outras vezes estou à espera de algo ou de alguém, com hora marcada, e parece que cada segundo é uma hora. 

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Quero ser rápida numa tarefa e demoro uma eternidade; tenho tempo de sobra para uma tarefa e faço-a em segundos; ou, julgo que tenho tempo de sobra para uma tarefa, ponho-me a fazer outras coisas e, quando dou por mim, estou com pouco tempo. 

J. K. Rowling, no Harry Potter (e o Cálice de Fogo) refere ainda outra hipótese semelhante:

«It is a strange thing, but when you are dreading something, and would give anything to slow down time, it has a disobliging habit of speeding up.»

No blogue Brain Pickings, num post relacionado com este tema, Maria Popova cita Claudia Hammond:

«Time perception matters because it is the experience of time that roots us in our mental reality. Time is not only at the heart of the way we organize life, but the way we experience it.
(...)
We will never have total control over this extraordinary dimension. Time will warp and confuse and baffle and entertain however much we learn about its capacities. But the more we learn, the more we can shape it to our will and destiny. We can slow it down or speed it up. We can hold on to the past more securely and predict the future more accurately. Mental time-travel is one of the greatest gifts of the mind. It makes us human, and it makes us special.»



Francisco de Goya, Saturno devorando a un hijo (c. 1819–1823, Museo del Prado,Madrid)

Como é perceptível pela citação do Harry Potter e do que atrás ficou dito, muitas vezes o tempo e o medo andam de mãos dadas, chegando a perturbar a concentração no presente e no lugar onde estamos, transportando-nos, através das preocupações, para um futuro mais ou menos próximo. Não me refiro especificamente ao medo provocado pelo terrorismo, embora ele também esteja em causa. 
Refiro-me em particular às pequenas preocupações do dia-a-dia e aos seus problemas que exigem soluções. Muitos problemas, mesmo pequenos, quando somados tornam-se cansativos - pelo menos para mim - aumentam a entropia e perturbam a capacidade de organizar e encontrar soluções. E por vezes parece que nem há tempo para respirar fundo e resolver um de cada vez. Outras vezes nem têm solução no imediato ou em tempo útil. Daí a ansiedade, o suspense, em que uma pessoa se dá por si a perguntar: "que mais irá acontecer?"*

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Mas, do que é legítimo racionalmente (culturalmente, modernamente) ter medo? Há as fobias que podem ser mais ou menos racionais...

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Mas também há medos bem legítimos.

Igualmente no Harry Potter, mas no Prisioneiro de Azkaban, é dita uma frase de que me recordo muitas vezes:

“I see,” said Lupin thoughtfully. “Well, well . . . I’m impressed.” He smiled slightly at the look of surprise on Harry’s face. “That suggests that what you fear most of all is — fear. Very wise, Harry.”

Não me considero nem pessimista, nem realista. Não consigo prever o futuro e por vezes penso que ainda bem que assim é. Mesmo quem acredita nas previsões do futuro (astrológicas ou outras) assume geralmente que o futuro está em aberto. E, por isso, obrigo-me a andar em frente.

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Até porque acho que, como não dá para andar para trás, mais vale ir em frente. E aproveitar o tempo que temos o melhor que conseguirmos.

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* A frase é de Nicolau Breyner num programa cómico de televisão que deu há muito tempo e de que eu miseravelmente não lembro do nome.

4 comentários:

Presépio no Canal disse...

Gostei da tua reflexão.
Bjinho!

Margarida Elias disse...

Obrigada, Sandra! Beijinhos!! :-)

ana disse...

Também gostei da reflexão da Margarida e da escolha da tela.
Relógios, tempo... são um fascínio.
Beijinho para as duas. :))

Margarida Elias disse...

É verdade Ana! Muitos beijinhos!