quarta-feira, 13 de abril de 2016

A Natureza na literatura de oitocentos

Childe Hassam, April, Quai Voltaire, Paris (1897)
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Cosneau assinalou que a «nova atitude dos artistas de Barbizon face à natureza» encontrou «eco na literatura da época», citando, entre outros Flaubert e a Educação Sentimental (1869) (Henriques, Castro, 1993, 41).
Em Portugal destacamos, por exemplo, os textos de Ramalho Ortigão e Eça de Queirós, ambos ligados à introdução do realismo e do naturalismo na cultura nacional. Ramalho Ortigão foi um fervoroso adepto do Naturalismo, afirmando, em 1875, que a paisagem era «o género mais especialmente moderno» (Ortigão 1944, 273); e cerca de 1884, asseverou: «o artista só tem um meio de ser superior - é ser fiel à natureza e ser fiel à sua própria comoção, ser exacto e ser sincero» (Ortigão 1943, 275).

João Marques de Oliveira, Recordações de viagens. Rua (1877-1878, Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves)

Contudo, é nos textos de Eça de Queirós (1845-1900) que encontramos as observações mais pertinentes sobre as ligações entre a pintura de paisagem e o apreço pela natureza. O pintor (personagem) de A Tragédia da Rua das Flores (1877-1878) afiançava: «O homem moderno vive longe da natureza, pela necessidade de profissão: uma arte que lhe reduz a natureza, que lha torna portátil, que lha introduz na sala de jantar, na alcova, interpretada, escolhida, - faz ao homem o maior serviço – pô-lo em comunicação permanente com a natureza. E a natureza é tudo: calma, consola, eleva, repousa e vivifica». Noutro momento do mesmo romance, é dito ainda: «A arte portanto deve ser pitoresca: representar paisagens doces, suaves, onde se console o homem que é obrigado a viver constantemente na Baixa (...)» (Queirós 1980).

Silva Porto, Cancela, Serreleis (Minho) (1891, Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves)

Estas palavras de Eça foram, de certo modo, desenvolvidas no texto A Cidade e as Serras, publicado em 1901, mas cuja génese está no conto Civilização de 1892. Nessa obra, o escritor elogia a vida do campo, mais próxima da natureza, criticando, de forma algo satírica, a vida da sociedade civilizada. 
Este posicionamento liga-se por sua vez a Alberto de Oliveira (1873-1940), defensor da corrente do Neogarretismo e autor de Palavras Loucas (1894), que defendia o regresso à terra e à vida familiar das aldeias, o regresso às tradições, em oposição às cidades e às máquinas (cf. Saldanha, 2006, 758). Esta «apologia do mundo rural», tinha, por sua vez, raízes em textos literários anteriores, por exemplo de Herculano (1810-1877) – que se auto-exilou em Vale de Lobos desde 1867 - ou de Júlio Dinis (1839-1871) – autor de As Pupilas do Senhor Reitor (1866), romance que iria marcar uma idealização da vida rural com forte influência na cultura portuguesa da época. Roque Gameiro faria excelentes ilustrações para esta obra literária.

Roque Gameiro, Este cavalheiro era João Semana (Museu de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian)

Como advertiu Linda Nochlin (1991, 129), a cidade e o campo têm operado como arquétipos de uma dicotomia que remonta, pelo menos, à Antiguidade Clássica. A Revolução Industrial intensificou o conflito entre os valores encarnados pela cidade e pelo campo e a cidade tornou-se o exemplo da destruição de costumes tradicionais. A cidade e o mundo industrializado tornaram-se o paradigma do moderno, da velocidade, da transformação. O campo e a natureza apareciam cada vez mais como os arquétipos e uma temporalidade mais longa. Nesta dicotomia, a modernidade, ligada à ciência, era não só uma vantagem, uma esperança e ambição tendo em vista o desenvolvimento e o progresso. Tinha também o seu lado negro, os seus flagelos sociais e ambientais.
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Bibliografia:
Henriques, Ana de Castro, Castro, Catarina Maia e (coord.). 1993. Silva Porto 1850-1893: exposição comemorativa do centenário da sua morte. Lisboa: I.P.M..
Nochlin, Linda. 1991. El Realismo. Madrid: Alianza Editorial.
Ortigão, Ramalho. 1943. As Farpas. vol. VI. Lisboa: Livraria Clássica Editora. 
Ortigão, Ramalho. 1944. As Farpas. vol. IX. Lisboa: Livraria Clássica Editora.
Queirós, Eça de. 1980. A Tragédia da Rua das Flores. Lisboa: Morais Editores.
Saldanha, Nuno. 2006. José Vital Branco Malhoa (1855-1933). O pintor, o mestre e a obra. Tese de Doutoramento, Universidade Católica Portuguesa.

2 comentários:

ana disse...

Gostei muito desta viagem.
Beijinho. :))

Margarida Elias disse...

Obrigada Ana! Beijinhos! :-)