segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Nova semana, último dia de Fevereiro de 2016


Ramon Casas i Carbó, Catalinita (1898, Coleção Masaveu)
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“Monday is the day of silence, day of the whole white mung bean, which is sacred to the moon.”

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Desejando bom fim-de-semana!

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Hoje vou colocar um excerto de uma série que os meus filhos vêem, Hora de Aventuras. Acho graça a alguns diálogos, sendo as histórias por vezes completamente surrealistas e às vezes até um pouco subversivas. Acho graça ao conceito, porque se trata de um mundo pós-apocalíptico, onde existem outras realidades, com outros princípios, embora geralmente correctos em termos éticos e lógicos, numa espécie de País das Maravilhas alternativo.


Diálogo:
Prismo: Wait, dude! Look, I like you, so you should know my wishes always got an ironic twist to them. It's like a monkey's paw kind of thing.
Jake: What?
Prismo: You just gotta be really specific. Say your wish is: "I wish for a back rub". Who's gonna give it to you? A dirty man? A bear? And where does this "masseuse" come from? Do I zap some guy away from his family dinner? Leave some kid traumatized?
(...) You see, Jake there are rules to this stuff, wishing an event to be changes elements before and after it. Memories will be destroyed, babies will not be born. Potential worlds could be evaporated by your wish!
In Adventure Time, Temporada 5, Episódio 2. 
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Outras notas sobre o mesmo tema:

Da Branca de Neve (1937)


Do filme Tinker Bell and the Lost Treasure (2009):


E dos Pearl Jam, Wishlist (1998):

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Um desabafo I - Sobre a existência, a mudança e a banalização

Caspar David Friedrich, Ein Spaziergang in der Abenddämmerung (A Walk at Dusk) (ca. 1830-35, J. Paul Getty Museum)
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Ontem, no Arpose, surgiu uma citação de Charles Péguy (1873-1914), que diz: «Quarenta anos é uma idade terrível. Porque é a idade em que nos transformámos naquilo que somos.»

Independentemente da interpretação que se faz da frase, ela deixou-me a pensar, porque eu já tenho 45 anos. E já mudei tanto que me sinto por vezes como a Alice:
'Who in the world am I?' Ah, that's the great puzzle!” 
Joaquín Sorolla, Paisaje, San Sebastián (1911. Museo Sorolla, Madrid)

Numa coisa estou certa: os meus gostos mudaram com o tempo. Há gostos que mantenho desde há anos, desde que me lembro de mim. Para mim Michelangelo e Leonardo da Vinci permanecem duas referências no meu universo estético e cultural. Continuo a admirar Kant e Voltaire. Continuo a gostar muito de Eça de Queiroz. Continuo a ter os Direitos do Homem como referência ética.

Mas há gostos que já não tenho, em grande medida devido ao excesso provocado pela internet. Outro dia li uma frase de Umberto Eco, recentemente falecido, que dizia:
"A informação banaliza os acontecimentos. Dou um exemplo: a primeira vez que se viram na televisão imagens de uma criança negra cheia de fome e com moscas a rodeá-la foi um momento marcante, só que agora já ninguém lhes liga devido à vulgarização. Alguém no outro dia proibia a divulgação de imagens dessas crianças negras com moscas à volta porque a sua repetição era perigosa. As pessoas habituam-se."
Esta citação, para mim, tem pelo menos duas leituras. Por um lado, o facto de eu confirmar (através da opinião deste homem, que também sempre admirei) que o excesso de informação banaliza a informação. É uma das razões porque sou contra o excesso de violência na televisão, nos video-jogos (sobretudo os realistas) e nos filmes.


Doutro ponto de vista, mais alegre, esta citação de Eco faz-me pensar na banalização da arte e da cultura, através da repetição abusiva de imagens ou músicas, na televisão, na rádio e na internet (entre outros meios de comunicação), desgastando a capacidade de nos emocionarmos.

Carl Larsson, Kurragömma (Hide and Seek) (1901)

Contudo, em contrapartida, tenho descoberto outros artistas que me vão ao encontro da alma. Talvez porque eles são menos divulgados, ou talvez porque eu própria tenho mudado.
Dentro das artes visuais, continuo a não ser fã de Picasso e Dali. No entanto, cada vez gosto mais de Poussin e Seurat.
Já não aprecio tanto Monet como antes, mas Sorolla e Carl Larsson são, de momento, uns dos meus pintores preferidos.
Outros artistas permanecem nas minhas preferências, como é o caso de Vermeer, Rembrandt (embora já muito banalizado), Friedrich, Klee, Kandinsky e Miró.

Nicolas Poussin, Landscape with a Calm (1650 - 1651, Getty Center)

No conjunto, acho que há um fio condutor em mim que permanece. Continuo a adorar a arte e a natureza, a espiritualidade, a filosofia, a mitologia, a fantasia e a imaginação.
Porém, outras coisas mudaram (ou evoluíram), desde as mais complexas até às mais prosaicas. Por exemplo, descobri agora, com esta idade, que até gosto de gelatina.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Um desabafo - sobre o sensacionalismo e o sectarismo

Roger Weik, Difference of Opinion (2016)
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Não aprecio política e fujo das notícias como o diabo da cruz. Cresci numa época em que era normal ver o telejornal à hora do jantar, mas não consigo obrigar os meus filhos a isso. Porquê? Por inúmeras razões, sendo que as principais prendem-se com o tipo de jornalismo que se faz hoje em dia. 


Quando eu era pequena, o telejornal demorava cerca de 30 minutos e tinha uma sequência lógica. Começava com as notícias políticas e económicas do país, passava para as notícias internacionais, depois ia para o desporto e factos culturais. No fim, apareciam as reportagens brilhantes do Fernando Pessa, que terminavam com o «E esta, hein?» 
Não se viam mortes horríveis, nem jornalistas a entrevistaram uma pessoa com a casa em chamas e a perguntarem-lhe: «como é que se sente?» A última vez que acho que vi o telejornal com atenção foi quando um jornalista, à hora do jantar, se lembrou de dizer: «as seguintes imagens podem chocar algumas pessoas». E depois tive o "prazer" de ver, enquanto jantava, uma pessoa a auto-imolar-se. Acho imoral, Assim como acho amoral que se coloquem as notícias do futebol ao mesmo nível que a dos refugiados sírios, ou outra desgraça qualquer, isto enquanto se conta a história de um divórcio de celebridades. Não consigo obrigar ninguém, incluindo eu própria, a passar por esta provação.

Honoré Daumier, Leaving School (c. 1847-1848)

Dito isto, dirijo-me à questão que motivou este "post", tão incaracterístico deste blogue. Se há coisa que me põe os "nervos em franja" é o facto de certas pessoas aceitarem tudo o que fazem os governos conservadores de direita e, muitas vezes, aplaudirem. Vem um governo de esquerda, e ainda antes de este ter feito alguma coisa, subitamente, desata tudo a reivindicar. E reivindicam mesmo contra as leis que antes tinham aplaudido! 
Acho normal as pessoas mudarem de ideias. Eu tenho poucas certezas e arrepiam-me as pessoas que só têm certezas. Mas não acho normal uma pessoa mudar de ideias consoante os governos que estão à frente e cheira-me a oportunismo. Parece-me que as pessoas perante um governo conservador acham que têm de aceitar tudo de orelhas baixas. Mas, perante um governo mais liberal, sentem-se no direito de protestar por qualquer coisa, alto e bom som. E dão-se ao luxo de atribuir culpas a quem não tem culpa.
Não sei o que disse António Costa (porque não vejo notícias), mas vi uma pessoa a queixar-se de que os filhos estão demasiado tempo na escola. Ora, quem inventou que os pais deviam estar 40 horas / semana no trabalho foi o governo anterior. Se as crianças não tiverem avós que tomem conta delas, obviamente que têm de ficar na escola ou no ATL. E nem sequer é 40 horas. É mais 1 hora por dia, contando que os pais depois de deixarem e antes de irem buscar as crianças, têm de se deslocar e não possuem o dom do tele-transporte.

René Magritte, La culture des idées (1927)

Graças, talvez, à minha formação em História, tenho o hábito de saber atribuir o seu a seu dono. Sou tão capaz de criticar um governo de esquerda como um de direita. Apesar de ser de esquerda, se alguém de direita fez alguma coisa boa, sou capaz de a aplaudir. Se alguém de esquerda fez alguma coisa de que discordo, sou capaz de a criticar. Tenho os meus valores e as minhas ideias, muitas dúvidas. Quando mudo de ideias, tenho a humidade de o admitir, mesmo que me custe no orgulho. Aliás, uma das poucas certezas que tenho é de que não existem pessoas perfeitamente boas, nem perfeitamente más, em qualquer quadrante político, social ou religioso. Talvez por isso, não consigo aderir a nenhum partido político actual.
E sempre detestei este esquema português de obrigar os pais a estarem horas sem fim no trabalho quando têm crianças pequenas, que ficam horas sem fim na escola. Aliás, acho que devia haver uma carga menor de horário para famílias com crianças pequenas (por exemplo com menos de 12 anos), assim como para pessoas que têm a seu cargo pessoas idosas e/ou doentes. Seria mais justo, seria mais lógico.
Tenho dito.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Viajar no Tempo

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«The capacity for mental time travel gave our ancestors an invaluable edge in the struggle for survival. (...) If this argument is correct, then mental time travel into the past — remembering — “is subsidiary to our ability to imagine future scenarios.” Tulving agrees: “What is the benefit of knowing what has happened in the past? Why do you care? The importance is that you’ve learned a lesson,” he says. “Perhaps the evolutionary advantage has to do with the future rather than the past.”
Modern neuroscience appears to confirm that line of reasoning: as far as your brain is concerned, the act of remembering is indeed very similar to the act of imagining the future.»
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P.S.1 - Vale a pena ler todo o artigo de Maria Popova.
P.S.2 - Maria Popova adverte para o risco de gastarmos demasiado tempo a planear o futuro.
P.S.3 - Eu julgo que também há o risco de nos perdermos no passado, quer seja o das memórias pessoais e familiares, quer seja o da história nacional ou mundial.
P.S.4 - Como sempre, o equilíbrio é essencial.
P.S.5 - Os "negritos" são meus.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Do Tempo (uma obsessão de estimação)

Wassily Kandinsky, Eight times (1929, Musée des Beaux Arts, Nantes)
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«Time, unfortunately, though it makes animals and vegetables bloom and fade with amazing punctuality, has no such simple effect upon the mind of man. The mind of man, moreover, works with equal strangeness upon the body of time. An hour, once it lodges in the queer element of the human spirit, may be stretched to fifty or a hundred times its clock length; on the other hand, an hour may be accurately represented on the timepiece of the mind by one second.»
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Virginia Woolf (1941) in Maria Popova, 4-5-2015, «Virginia Woolf on the Elasticity of Time», Brain Pickings.
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Walter De Maria, Time/Timeless/No Time (2004)
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«The North is to South what the clock is to time
There's east and there's west and there's everywhere live
I know I was born and I know that I'll die
The in between is mine
I am mine»
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Eddie Vedder / Pearl Jam, I Am Mine (2002)
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Da Magia

Maurice Denis, Paysage aux arbres verts ou Les Hêtres de Kerduel (1893, Musée d'Orsay, Paris)
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“You know what the issue is with this world? Everyone wants some magical solution to their problem and everyone refuses to believe in magic.”
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Dos objectos (ou da personificação) (segundo Miró)

Joan Miro, El guante blanco (1925)
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«For me an object is alive; this cigarette, this matchbox, contain a secret life much more intense than certain humans. I see a tree, I get a shock, as if it were something breathing, talking. A tree too is something human.»
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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Do Espelho (da Fada Oriana)

Charles Joshua Chaplin,  Reflection
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Três falas do Espelho de A Fada Oriana da Sophia de Mello Breyner:

I
- Eu estava num palácio e em frente de mim havia espaço, espaço, espaço. E o chão era de mármore liso e brilhante. E eu estava no fundo de uma galeria silenciosa e solitária. E contemplava o mudar das horas do dia. (...) Vi, vi, vi. Eu sou um espelho; passei toda a minha vida a ver. As imagens entraram todas dentro de mim. Vi, vi, vi. E agora estou nesta sala onde não há um lugar onde os meus olhos de vidro descansem. Oriana, tira-me daqui e põe-me em frente de uma parede branca, nua e lisa. (...)

II
- Oriana - disse o espelho -, peço-te que tires da minha frente aquela bailarina de Saxe. Estou farto de a ver o dia inteiro sempre com um pé no ar em posição de desequilíbrio. Os meus olhos de vidro não têm pálpebras. Só as noites são as minhas pálpebras. Mas durante o dia nunca posso fechar os olhos .(...)

III
- Oriana - disse o espelho -, sou, como já sabes, um espelho antiquíssimo. Há séculos que todas as meninas bonitas se põem em frente de mim para ver como são e todas querem saber se haverá no mundo alguém mais bonito do que elas. Vê-te bem. És muito bonita, mas há uma coisa muito mais bonita do que tu. 
- O que é? - perguntou Oriana, ansiosamente. 
- Uma parede branca, nua e lisa. 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Subjectividade

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«"Chacun sa vérité" est une formule juste car chacun se définit par la vérité vivante qu'il dévoile.»
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Do rosto humano

Jose Gutierrez Solana, Old Mountain
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"El rostro humano jamás miente; es el único mapa que registra todos los territorios que hemos habitado."
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Um retrato e uma frase de Columbano

Theo van Rysselberghe, Portrait of a Young Girl in Red (1887)
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Segundo Diogo de Macedo (Seara Nova, 1933), Columbano terá dito, um dia: 
«a gente se retrata em tudo o que faz! … Passamos a vida a confessar-nos … não acha?»
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Citado por Raquel Henriques da SILVA, 1998, «A “Verdade” do Retrato de Antero de Quental de Columbano Bordalo Pinheiro», in M. Valente ALVES (dir. e coord.), 1998, O Impulso Alegórico, Ordem dos Médicos/ Ministério da Cultura, p. 357.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Feliz Ano do Macaco

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Pieter Bruegel the ElderTwo Chained Monkeys (1562, Gallery: Staatliche Museen zu Berlin, Gemäldegalerie, Berlin)
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David Teniers the YoungerMonkeys in a Kitchen (c.1645, Hermitage, St. Petersburg)
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Rosalba CarrieraYoung Girl Holding a Monkey (1721)
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Gabriel von MaxMonkey with Pitcher
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Pablo PicassoSeated monkey (1905)
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Netsuke que pertence ao inrô Macaco sentado (Museu Nacional de Machado de Castro)

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Máscara/Cabeça do macaco vermelho (Museu Nacional de Etnologia)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

E lugares da Imaginação

Anne Lambelet, Hogwarts (2015)
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Dou por mim, por vezes, a desejar poder entrar em livros (ou filmes) e poder viajar fisicamente para mundos que não existem na realidade. A desejar que existam de facto outras dimensões (ou outros mundos). Quando penso nisso penso sobretudo na Atlântida, em Avalon ou nos mundos criados por Tolkien (Aman e Terra Média), C. S. Lewis (Narnia), Lewis Carroll (País das Maravilhas), J. K. Rowling (Hogwarts, Hogsmeade, Diagonal Alley ou The Burrow), entre outros. Sei que há um conto de Borges que ainda não li (e quero ler) ligado a esta temática, que se passa em Uqbar. De Borges li o Aleph, que não é bem um lugar imaginário.

Sergey Tyukanov, The Moon (2005)

Talvez por isso desejava ler/ter um livro que vi à venda há uns tempos intitulado Dicionário de Lugares Imaginários. Descobri agora outro livro, do meu admirado Umberto Eco, intitulado The Book of Legendary Lands. Maria Popova trata desse livro num post: Legendary Lands: Umberto Eco on the Greatest Maps of Imaginary Places and Why They Appeal to Us
Nesse artigo começa por citar Umberto Eco com a seguinte frase:
“Often the object of a desire, when desire is transformed into hope, becomes more real than reality itself.”
Segundo Popova (porque não li o livro de Eco), o autor «sets out to illuminate the central mystery of why such utopias and dystopias appeal to us so powerfully and enduringly, what they reveal about our relationship with reality, and how they bespeak the quintessential human yearning to make sense of the world and find our place in it (...)».

Ali Xenos, Rivendell

Deste post de Popova depreendo que Eco faz ressaltar que esses lugares utópicos também não são perfeitos e é dentro da narrativa da imaginação que eles se tornam mais apelativos. Depreendo também que Eco inclui lugares utópicos mais vastos, como o El Dorado, mas também lugares pequenos como a casa de Sherlock Holmes. Depreendo ainda que gostava de ler este livro.
Por outro lado, fez-me pensar que não deixa de ser interessante que, por exmplo, na King's Cross Station, tenha sido criada uma Plataforma 9 3/4. Contudo, se creio que se pode (e deve) imaginar, sonhar e brincar - também se deve manter os pés no chão.
Lembrando que o próprio Dumbledore disse a Harry Potter, logo no primeiro ano em Hogwarts:
“It does not do to dwell on dreams and forget to live.”
Por isso, já que ainda não encontrei nem um buraquinho para outra dimensão, como no Aleph; já que não é possível embarcar num comboio para Hogwarts, ou viajar até Aman, Rivendell ou Narnia (através de um armário); posso pelo menos viajar de vez em quando nos livros, nos filmes, na arte em geral, nos museus, ou mesmo em lugares reais que parecem tirados de um conto de fadas (mesmo que seja só através da prosaica internet).

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Da arte e da escultura

Leopoldo de Almeida, Vencido da vida (1922, Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea)
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Carta que Almada Negreiros escreveu ao escultor Leopoldo de Almeida:

«Entre os artistas portugueses, os escultores foram sempre os menos numerosos. Ainda que entre os poucos tivemos também dos melhores, deve haver uma causa nas condições da vida portuguesa que nos desfavoreça nas tentativas da escultura. Ignoro-a. Sei apenas que determinadas regiões favorecem o aparecimento de escultores. Porquê? Também o não sei. Não é apenas a presença da abundância ou qualidade de pedra que obriga um artista à escultura. Não me recordo de nenhum escultor da Itália que seja natural de Carrara. Deve ser, de verdade, mistério um artista ser escultor como já é um mistério um homem ser artista.
É nestas circunstâncias que me coloco, sempre, diante de uma obra de um artista: perplexo em face de um mistério. Um verdadeiro mistério, único. Há, muito mais, do que capricho ao encher uma tela, ao desbastar uma pedra, ao compor uma poesia; isto é, toda a consciência trás consigo muito mais inconsciência do que se nos afigura, e mais, creio que, quanta mais consciência, mais liberta se acha, em nós, uma acção que nos excede.
O caminho do artista é seguir-se. Transborda subjectivismo, persegue a objectividade. E esta objectividade é única também, é a que corresponde ao seu mistério humano.
Estar atento a si próprio, não é de maneira nenhuma uma forma de egoísmo, mas sim o processo para se comprometer o eu no livro-aberto da vida. Quem foi que ensinou a toda a gente, grandes e pequenos, a ter essa consideração cheia de simpatia por tudo aquilo que leva a sua vida pela arte? Como dizia Blaise Pascal: “J´aime surtout ceux qui cherchent en guêmissaut”.
O mal entendido entre escolas de arte não vem do sentido do mistério humano, mas de circunstâncias subalternas, porém actuantes e capazes de distrair cada qual de si-mesmo. Os caminhos da arte são tantos quantos se tentarem. Lutar pelo próprio é ideal. Pretender vencer ou vencer os outros é tudo morrer. O único que nunca houve foram caminhos medíocres.»
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In FCG – DM 149/20, Manuscrito, s.d.. Carta transcrita na tese de Doutoramento de Rita Mega da Fonseca, Vida e Obra do Escultor Leopoldo de Almeida (1898-1975), Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, 2011, p. 215.
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Gaetano-Cellini, L’Umanita contro il Male (1906-1908, Galleria Nazionale d'Arte Moderna, Itália)
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P.S. Um assunto que gostava um dia de investigar, ou ver investigado, é o das relações entre as artes do sul da Europa, nomeadamente (ou especificamente), da arte portuguesa e da arte italiana dos séculos XIX-XX. Acho que há mais proximidades do que se julga, mormente no caso dos artistas portugueses que passaram por Itália como Henrique Pousão e Leopoldo de Almeida. Parece-me que Leopoldo viu certamente esta escultura de Gaetano-Cellini e que ela o inspirou para o seu Vencido da Vida.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Arte e Imaginação

 
Spencer Frederick Gore, Gauguins and Connoisseurs at the Stafford Gallery (1911-1912)
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«À défaut de peinture religieuse, quelles belles pensées on peut invoquer avec la forme et la couleur... Nous seuls voguons sur le vaisseau fantôme avec toute notre imperfection fantaisiste. Comme l’infini nous paraît plus tangible, devant une chose non définie.»
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Paul Gauguin, Carta para Émile Schuffenecker (Setembro de 1888)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Da Arte

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«(...) a Arte funciona como uma espécie de laboratório onde o Homem experimenta, desde sempre, processos de auto-transformação alquímica e que serve de meio privilegiado de transmissão de princípios civilizacionais.»
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Cátia Mourão, «O corpo reinventado e a parábola do bestiário humano nos mosaicos da antiga Hispânia», in digitAR, nº2, 2015, pp. 131-147.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Fevereiro chegou

Alfred Sisley, A February Morning at Moret sur Loing (1881) 
... e eu desejasse que chovesse menos - ou que se fosse para cair alguma coisa do céu, que fosse neve.
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... e desejava saber magia para poder teletransportar-me:

«The snow melted around the school as February arrived, to be replaced by cold, dreary wetness. Purplish-gray clouds hung low over the castle and a constant fall of chilly rain made the lawns slippery and muddy. The upshot of this was that the sixth years’ first Apparition lesson, which was scheduled for a Saturday morning so that no normal lessons would be missed, took place in the Great Hall instead of in the grounds.»
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J. K. Rowling, Harry Potter and the Half-Blood Prince. Arthur A. Levine Books, 2005.
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... Mas, como ensina este filme da Disney (que se passa no Carnaval), há uma diferença entre aquilo que se deseja e aquilo de que se precisa:

«You got to dig a little deeper
Find out who you are
You got to dig a little deeper
It really ain't that far
When you find out who you are
You'll find out what you need
Blue skies and sunshine guaranteed»
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(link)

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Bom mês de Fevereiro!
E que traga tudo o que precisam.
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P.S. Depois de terminar este post, vi uma frase no blogue Presépio com vista para o Canal. que acho muito adequada, e aqui fica também:

"A felicidade não está no que acontece mas no que acontece em nós desse acontecer."
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