quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Da alma e da inteligência

Giuseppe Maria Crespi, Book shelf with music writing (1730)
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«Tendo sido lançado à costa de Rodes num naufrágio, o filósofo socrático Aristipo, ao descobrir esquemas geométricos na praia, teria exclamado para os companheiros: "Tenhamos esperança! Vejo sinais de homens". (...)
Com efeito, são estas as verdadeiras guardas da vida, as quais nem a tempestade iníqua da Fortuna, nem a mudança dos governos, nem a devastação da guerra poderão prejudicar. Teofrasto (...) afirmando que mais vale a instrução do que a segurança das riquezas, assim afirmou: "Sozinho, o douto não é peregrino em terras estranhas, (...) mas em toda a cidade será cidadão e sem temor poderá desdenhar os penosos reveses da fortuna (...)".
Epicuro (...) não pensava doutro modo: "A Fortuna oferece poucas coisas aos sábios, mas dá-lhes o que (...) lhes é necessário: que se possam governar pelos pensamentos da alma e da inteligência". (...) Assim como todos os dons são oferecidos pela Fortuna, do mesmo modo e facilmente são arrebatados por ela. Todavia, a educação, conjugada com a força do ânimo, jamais se extingue, antes permanece estavelmente até ao fim da vida.
Por isso, eu estou reconhecido (...) aos meus pais, porque, seguindo a lei ateniense, procuraram educar-me na Arte, que não pode ser exercitada sem a aprendizagem da literatura e sem o conhecimento geral de todas as disciplinas. Como, pois, pelo cuidados dos meus progenitores e pelos ensinamentos dos meus mestres eu obtive abundante cópia de conhecimentos, (...) ⦏pude⦐ concluir como norma de vida: "Não há necessidade de possuir o supérfluo ou, por outras palavras, o mais alto grau de riqueza consiste em não desejar ser dono de nada»". (...)»
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Vitrúvio, Da Arquitectura (VI, 1-4), in M. Justino Maciel, «Os "Proæmia" Vitruvianos», in Estudos de Arte e História, Homenagem a Artur Nobre de Gusmão, Lisboa, Vega, 1995, pp. 355-356.

5 comentários:

Paula Lima disse...

Bom dia
Aplicam-se hoje os escritos de Vetrúvio!
E que bela imagem!

Margarida Elias disse...

Paula - É verdade, mas julgo que a sabedoria era talvez mais valorizada no tempo dele. Hoje só se quer especialistas... Bom dia!

Mister Vertigo disse...

Mas que belo texto, repleto dessa sabedoria que tanta falta faz, nos dias de hoje, ao ser humano neste século XXI, que me deixa cada vez mais incrédulo no que vejo, escuto e leio. Adoro a imagem escolhida para ilustrar tão belo texto. Obrigado por partilhar.
Boa Tarde!

Presépio no Canal disse...

Um belo texto que trazes aqui, Margarida!
Gostei muito. Também me parece que uma pessoa mais sábia, mais conhecedora, se movimenta melhor no Mundo.
Beijinho!

Margarida Elias disse...

Mister Vertigo - É um belo texto, de facto. Obrigada e boa tarde!

Sandra - Julgo que tens razão. Beijinhos!