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segunda-feira, 31 de março de 2014

Retratos

Andrea del Sarto, Retrato de Homem (1515-1516, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa)
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«O castelão foi tratar da ceia e eu pus-me a examinar as espadas e os retratos. Como já disse antes, os seus traços estavam pintados com grande realismo. À medida que dominuía a claridade diurna, as tapeçarias de cores escuras, confundiam-se na sombra com o fundo escuro do quadro e o clarão da lareira realçava-lhes apenas os rostos, o que não deixava de ser aterrador; ou talvez assim me parecia, visto que o estado da minha consciência me provocava um terror habitual.
(...)
O castelão retirou-se. Comecei a rezar e, de vez em quando, punha mais uma acha no lume. Mal me atrevia a circunvagar os olhos pela sala, pois parecia-me que os retratos ganhavam vida. Assim que demorava o olhar em alguns deles, tinha a impressão de que piscava os olhos e torcia a boca, principalmente o senescal e a mulher, cujos retratos pendiam de ambos os lados da chaminé. (...)»
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Jan Potocki, Manuscrito encontrado em Saragoça, Vol. 2, Lisboa, Cavalo de Ferro, 2004, tradução de José Espadeiro Martins, pp. 238-239.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Memória e Distracção

Evert Oudendyck, Um erudito (séc. XVII, Palácio Nacional da Ajuda - Link)
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«(...) O discernimento ajuda a memória, classificando o materiais que esta reuniu, de tal maneira que numa memória bem ordenada, cada ideia surge sempre acompanhada de todas as suas consequências. Mas é verdade que a memória, tal como o discernimento, só pode ser aplicada com êxito a um determinado número de ideias. Por exemplo, recordo, quando necessário, tudo aquilo que alguma vez aprendi acerca das ciências exactas, da história dos homens e acerca da Natureza; por outro lado, acontece-me esquecer o meu relacionamento momentâneo com os objectos que me rodeiam. Ou seja, não vejo aquilo que está diante dos meus olhos e não ouço aquilo que me gritam aos ouvidos, o que me confere por vezes um ar de distracção.»
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Jan Potocki, Manuscrito encontrado em Saragoça, Vol. I, Lisboa, Editora Cavalo de Ferro, 2004, p. 290.