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quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Óbidos, segundo Raul Lino

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«(...) uma das terras do país que mais conservam o seu pitoresco medieval.
(...) D. Denis fêz doação da vila (...) a sua mulher a rainha S.ta Isabel (...). Desde então ficou sendo apanágio da casa das Rainhas até 1833 (...).
(...) Na quinta da Capeleira, próximo da vila, viveu Josefa d'Ayala y Cabrera, mais conhecida por Josefa de Óbidos, filha dum obidense e duma sevilhana.
O castelo de Óbidos (mon. nac.) é um dos exemplares mais perfeitos do tipo da nossa fortaleza medieval. (...) Coroando a crista calcárea do monte, as muralhas têm a planta de um ferro de engomar, com o bico virado ao S., terminado pela Tôrre Vedra ou do Facho. Na base dêste triângulo, ao N., fica o castelo própriamente dito, onde seria o paço do alcaide.
Lá dentro, envolvida quási completamente pelas muralhas, como nos séc. XIII e XIV, fica a vila (...).
Em dias de sol, a vila, cujo casario transborda a E. para fora das muralhas, apresenta um aspecto bem meridional e pitoresco. As velhas casas, muito caiadas e garridas, com os seus cunhais pintados a azul, vermelhão ou verde-cobre, perfilam-se sôbre as ruas turtuosas, umas baixas, outras altas, umas à frente, outras mais recuadas, parecendo jogar às escondidas com os transuentes (...). Um ou outro vão manuelino finamente recortado e o pelourinho joanino (mon. nac.), de granito, com o camaroeiro de D. Leonor (...). Tôda a vila é mesclada de parreiras e ciprestes, tendo sempre por fundo as vetustas muralhas ameadas, cuja côr naturalmente sugeriu o célebre dito de D. João V: "Eis aqui um vilão com uma cinta de oiro".
Dão acesso à vila quatro portas e dois postigos. (...) a S. e a E. ficam as da Vila e a do Vale, guarnecidas de pitorescos oratórios abertos para o interior das muralhas. O que fica junto à porta do Vale, dedicado à S.ª da Graça, tem a forma de capela, e foi mandado construir nos principios do séc. XVIII pelo magistrado da Índia Bernardo de Palma (...).
O castelo (...) encerra restos dum paço, que deve datar do princípios do séc. XVI. Á altura do andar nobre vêem-se duas janelas manuelinas ricamente lavradas e um portal do mesmo estilo, a que uma extensa escada exterior teria dado acesso. O portal é encimado por um brasão dos Noronhas e pelo escudo real (...). Na parede desta sala, oposta aos referidos vãos, encontra-se uma rica lareira, também manuelina, e na parte exterior do castelo, ao N., ainda se vêem, à altura do mesmo pavimento, restos dum janelão manuelino de vêrga trilobada.
"Da campina de extra-muros destacam-se para o S. algumas velhas aldeias: a Roliça (...)... No quadrante norte vêem-se S. Martinho do Pôrto, as Caldas, a freguesia de S. Gregório, a Fanadia, célebre pelo seu pão de ló, e enfim a Lagoa... (...)" (R. Ortigão).
(...)


Das igrejas da vila e redondezas, a mais notável é sua matriz, de St.ª Maria, cuja fundação é anterior à monarquia. Como hoje se encontra, é uma construção da Renascença (...). Do lado do Evangelho, está o túmulo de D. João de Noronha, alcaide-mor de Óbidos (m. 1575), obra prima da Renascença Coimbrã (...). Vêem-se neste templo mais de 20 pinturas de Josefa de Óbidos (...).


S. Martinho é uma linda capela ogival do séc. XIV, fundada no tempo de D. Afonso IV por um beneficiado da Sé de Lisboa.(...)
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Raul Lino, «Óbidos», Guia de Portugal, Biblioteca Nacional, 1927, pp. 587-592.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Às cebolas

Silva Porto, Cebolas (1870-1873, Museu Abade de Baçal)
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Em 1884, Berta Ortigão Ramos, filha de Ramalho Ortigão, expôs o quadro As Cebolas, na Sociedade Promotora das Belas-Artes. A esse propósito, Ramalho escreveu o artigo «Ao Sr. António Calmels», sob o pseudónimo de «Simplício Feijão», publicado em As Farpas (Vol. II, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1943, pp. 266-270). Nesse texto, ele defendia que a beleza da forma, na pintura, não é dependente do conteúdo. Não encontrei essa pintura da artista portuguesa, mas, a este propósito, aqui ficam outras obras de arte inspiradas por essa planta comestível - quando quase se comemora o Dia Mundial da Alimentação (dia 16 de Outubro).
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Van Gogh, Still Life with Drawing Board, Pipe, Onions and Sealing-Wax (1889, Rijksmuseum Kröller-Müller, Otterlo)
Henri Matisse, The Red Onions (1906, Statens Museum for Kunst, Copenhagen)
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Portela Júnior, Natureza morta (1950, Museu José Malhoa)
Louis Comfort Tiffany, Vase. Onion (1900)

quarta-feira, 13 de abril de 2016

A Natureza na literatura de oitocentos

Childe Hassam, April, Quai Voltaire, Paris (1897)
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Cosneau assinalou que a «nova atitude dos artistas de Barbizon face à natureza» encontrou «eco na literatura da época», citando, entre outros Flaubert e a Educação Sentimental (1869) (Henriques, Castro, 1993, 41).
Em Portugal destacamos, por exemplo, os textos de Ramalho Ortigão e Eça de Queirós, ambos ligados à introdução do realismo e do naturalismo na cultura nacional. Ramalho Ortigão foi um fervoroso adepto do Naturalismo, afirmando, em 1875, que a paisagem era «o género mais especialmente moderno» (Ortigão 1944, 273); e cerca de 1884, asseverou: «o artista só tem um meio de ser superior - é ser fiel à natureza e ser fiel à sua própria comoção, ser exacto e ser sincero» (Ortigão 1943, 275).

João Marques de Oliveira, Recordações de viagens. Rua (1877-1878, Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves)

Contudo, é nos textos de Eça de Queirós (1845-1900) que encontramos as observações mais pertinentes sobre as ligações entre a pintura de paisagem e o apreço pela natureza. O pintor (personagem) de A Tragédia da Rua das Flores (1877-1878) afiançava: «O homem moderno vive longe da natureza, pela necessidade de profissão: uma arte que lhe reduz a natureza, que lha torna portátil, que lha introduz na sala de jantar, na alcova, interpretada, escolhida, - faz ao homem o maior serviço – pô-lo em comunicação permanente com a natureza. E a natureza é tudo: calma, consola, eleva, repousa e vivifica». Noutro momento do mesmo romance, é dito ainda: «A arte portanto deve ser pitoresca: representar paisagens doces, suaves, onde se console o homem que é obrigado a viver constantemente na Baixa (...)» (Queirós 1980).

Silva Porto, Cancela, Serreleis (Minho) (1891, Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves)

Estas palavras de Eça foram, de certo modo, desenvolvidas no texto A Cidade e as Serras, publicado em 1901, mas cuja génese está no conto Civilização de 1892. Nessa obra, o escritor elogia a vida do campo, mais próxima da natureza, criticando, de forma algo satírica, a vida da sociedade civilizada. 
Este posicionamento liga-se por sua vez a Alberto de Oliveira (1873-1940), defensor da corrente do Neogarretismo e autor de Palavras Loucas (1894), que defendia o regresso à terra e à vida familiar das aldeias, o regresso às tradições, em oposição às cidades e às máquinas (cf. Saldanha, 2006, 758). Esta «apologia do mundo rural», tinha, por sua vez, raízes em textos literários anteriores, por exemplo de Herculano (1810-1877) – que se auto-exilou em Vale de Lobos desde 1867 - ou de Júlio Dinis (1839-1871) – autor de As Pupilas do Senhor Reitor (1866), romance que iria marcar uma idealização da vida rural com forte influência na cultura portuguesa da época. Roque Gameiro faria excelentes ilustrações para esta obra literária.

Roque Gameiro, Este cavalheiro era João Semana (Museu de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian)

Como advertiu Linda Nochlin (1991, 129), a cidade e o campo têm operado como arquétipos de uma dicotomia que remonta, pelo menos, à Antiguidade Clássica. A Revolução Industrial intensificou o conflito entre os valores encarnados pela cidade e pelo campo e a cidade tornou-se o exemplo da destruição de costumes tradicionais. A cidade e o mundo industrializado tornaram-se o paradigma do moderno, da velocidade, da transformação. O campo e a natureza apareciam cada vez mais como os arquétipos e uma temporalidade mais longa. Nesta dicotomia, a modernidade, ligada à ciência, era não só uma vantagem, uma esperança e ambição tendo em vista o desenvolvimento e o progresso. Tinha também o seu lado negro, os seus flagelos sociais e ambientais.
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Bibliografia:
Henriques, Ana de Castro, Castro, Catarina Maia e (coord.). 1993. Silva Porto 1850-1893: exposição comemorativa do centenário da sua morte. Lisboa: I.P.M..
Nochlin, Linda. 1991. El Realismo. Madrid: Alianza Editorial.
Ortigão, Ramalho. 1943. As Farpas. vol. VI. Lisboa: Livraria Clássica Editora. 
Ortigão, Ramalho. 1944. As Farpas. vol. IX. Lisboa: Livraria Clássica Editora.
Queirós, Eça de. 1980. A Tragédia da Rua das Flores. Lisboa: Morais Editores.
Saldanha, Nuno. 2006. José Vital Branco Malhoa (1855-1933). O pintor, o mestre e a obra. Tese de Doutoramento, Universidade Católica Portuguesa.

terça-feira, 12 de abril de 2016

De Tomás da Anunciação a Silva Porto

Tomás José da Anunciação, Vista da Amora, paisagem com figuras (1852, Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea)
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Para a história da pintura de paisagem em Portugal, iremos destacar o trabalho de Tomás da Anunciação (1818-1879), pintor cuja obra ainda está cronológica e culturalmente ligada ao período Romântico, mas que foi o impulsionador da pintura de paisagem no nosso. Raquel Henriques da Silva colocou-o num «pré-naturalismo programático, partilhando a ideologia do naturalismo mas sem dispor de uma cabal formação para a concretizar.» (Silva 2010, LIV).
Nascido e criado na Ajuda, desenvolveu o seu interesse pela arte através da representação das formas da natureza. Quando era ainda jovem, recebia de Manuel António da Silva, um empregado do Jardim Botânico da Ajuda, «estampas de flores e de arbustos para copiar» (Macedo 1951, 8) e mais tarde, foi praticante-desenhador no Museu de História Natural, também na Ajuda. Os seus dotes seriam depois dilatados com o curso da Academia de Belas Artes de Lisboa, onde ingressou em 1837. Em 1844, participou de uma sublevação de alunos contra o ensino académico e, em 1852, ocupou o lugar de professor de Paisagem, Animais e Produtos Naturais, na Academia. Com ele foram introduzidas novas práticas, pois aconselhava os alunos a «correrem ao campo» para desenharem do natural (Macedo 1951, 17).

António Carvalho de Silva Porto, Rua de Barbizon (1874-1879. Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves)

A valorização da natureza e, consequentemente, da paisagem, foi aprofundada com a obra pictórica de António Carvalho da Silva Porto (1850-1893), que é «unanimemente considerado o fundador da escola naturalista em Portugal» (Silva 2010). Este pintor usufruiu de uma bolsa de estudo para Paris e Roma, oferecida pelo Estado português desde 1870, e que era obtida após concurso.
Os dois primeiros bolseiros de pintura, escolhidos em 1873, foram Silva Porto (na categoria de Paisagem) e Marques de Oliveira (1853-1927) (na categoria de pintura de História), ambos formados pela Academia de Belas-Artes do Porto. As bolsas implicavam a frequência da Escola Nacional de Belas-Artes de Paris, mas deixavam tempo livre, que Silva Porto aproveitou para visitar a floresta de Fontainebleau e Auvers-sur-Oise, onde conheceu Charles Daubigny e o seu filho Karl (1846-1886). Marques de Oliveira também se juntou por vezes a Silva Porto, nomeadamente em Auvers – pequena vila junto do rio Oise, onde se reuniam os Impressionistas e, antes deles, Daubigny e Corot.

João Marques de Oliveira, Silva Porto pintando (Casa-Museu Fernando de Castro)

Ao regressar a Portugal, em 1879, Silva Porto e Marques de Oliveira trouxeram as novas práticas naturalistas, já consolidadas após os anos de estudo em França e na Itália. Silva Porto fixou-se em Lisboa, substituindo Tomás da Anunciação como professor de paiasagem na Academia e tornando-se o mestre eleito pelos pintores da sua geração, que iriam formar, em 1881, o Grupo do Leão. Os membros deste grupo, entregaram-se quase todos à pintura de paisagem e de costumes populares, destacando-se nesse domínio José Malhoa (1857-1933), João Vaz (1859-1931) e Henrique Pinto (1853-1912). Fora do Grupo, mas na mesma geração, iriam também sobressair Henrique Pousão (1859-1884) e Artur Loureiro (1853-1932).
Ainda antes do regresso de Silva Porto, já a notícia da paisagem naturalista chegara a Portugal. Ramalho Ortigão (1836-1915), em Dezembro de 1875, contava que na capital o Visconde Daupias abrira (em 1874) uma galeria de pintura, da sua colecção, que continha obras de artistas contemporâneos, nomeadamente paisagens de Corot, Diaz e Troyon (1810-1865), entre outros. O mesmo escritor, redigindo sobre Silva Porto, em 1879, asseverava:
«Tinha diante de mim um paisagista verdadeiro, o primeiro pintor português do tempo presente, um dos grandes modernos, um legítimo continuador da grande obra de Corot, de Diaz, de Millet, de Daubigny, de Rousseau, de Courbet [1819-1877], de Jules Breton [1827-1906], dessa grande escola, a primeira que soube dar fielmente pelo pincel a natureza viva dos campos (…).» (Henriques, Castro 1993, 87)
José Malhoa, Pedras (1873, Museu de José Malhoa)

Devemos assinalar que o Naturalismo português tem uma forte componente de representação de costumes populares. O camponês tornara-se num tema importante dentro do posicionamento dos artistas relativamente à revolução urbano-industrial. Tal como asseverou Nuno Saldanha, o campo era «entendido como o espaço de verdades eternas, onde se processa uma relação directa dos indivíduos com a natureza». Ao camponês se associavam «ideais de simplicidade, trabalho virtuoso, e inocência». Apesar de assumir uma posição sobretudo de ordem estética, mais do que social e política, o Naturalismo tornou-se numa «representação (idealizada) da realidade natural, que podia incluir tanto o Homem como a Natureza.» (Saldanha 2006, 469-471 e 557)

Alfredo Roque Gameiro, Foz do Arelho (1916, Museu de José Malhoa)


É o caso de Malhoa, Carlos Reis (1863-1940) ou do aguarelista Alfredo Roque Gameiro (1864-1935), que declarava em cartas e outros textos, a sua tristeza pela maneira como a realidade mudava à sua volta. Através dos seus desenhos e aguarelas, recolhia imagens de um Portugal que ele temia estar a desaparecer (ou que já tinha desaparecido). Amante da natureza, participou activamente nas Festas da Árvore, que começaram a ser promovidas no nosso País, desde 1907, que pretendiam incrementar o culto da árvore e da Natureza. Em 1909, Roque Gameiro e um grupo de pessoas ilustres que viviam na Amadora organizaram uma Festa da Árvore. Face ao seu êxito, foi constituída a associação da Liga de Melhoramentos da Amadora, responsável pelas edições da Festa da Árvore de 1910 e 1912. Um dos amigos de Gameiro era o arquitecto Raul Lino, que escreveu: «Ele era um apaixonado da Natureza, um temperamento saudável que vivia da perene admiração das maravilhas e mistérios que nos rodeiam, numa espécie de panteísmo que eu compartilhava». (A.A.V.V. 1964)
Importa aqui sublinhar a afeição pela natureza. Esse sentimento, que pode chegar a uma interpretação panteísta da natureza, está na base das palavras do poeta Teixeira de Pascoaes (1877-1952): 
«Tenho um ouvido de árvore para as canções dos passarinhos e uns olhos de granito para ver as sombras do crepúsculo.» (Pascoaes 1987, 20)
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Bibliografia:
AA VV. 1964. Exposição Comemorativa do 1.º Centenário de Roque Gameiro. Lisboa.
Henriques, Ana de Castro, Castro, Catarina Maia e (coord.). 1993. Silva Porto 1850-1893: exposição comemorativa do centenário da sua morte. Lisboa: I.P.M..
Macedo, Diogo de. 1951. Tomás José da Anunciação. Lisboa: Edições Excelsior.
Pascoaes , Teixeira de. 1987. O Bailado. Lisboa: Assírio & Alvim.
Saldanha, Nuno. 2006. José Vital Branco Malhoa (1855-1933). O pintor, o mestre e a obra. Tese de Doutoramento, Universidade Católica Portuguesa.
Silva, Raquel Henriques da. 2010. «Silva Porto e a Pintura Naturalista». In A Arte Portuguesa do Século XIX. 1850-1910. MNAC - Museu do Chiado, Catálogo da Colecção. Pedro Lapa, Maria de Aires Silveira (org.), vol. I, LI-LXIII. Lisboa: Museu Nacional de Arte Contemporânea – Leya.

sábado, 21 de dezembro de 2013

4 Dias para o Natal - Os Doces (em geral)

«É dia de Natal.
A cidade amanheceu alegre no céu fresco e azul. Os carrilhões das igrejas repicam festivamente. As salsicharias, os restaurantes, as pastelarias, ostentam em exposição os seus produtos mais apetitosos: (...) os bolos do Natal: os fartes, os sonhos, os morgados, as filhós, as queijadas, os christmas-kacks, os puddings, os bombons glacés.
E a profusão destas exposições dá às ruas o aspecto culinário da abundância, da plenitude».
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Ramalho Ortigão, As Farpas, Tomo I, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1942, p. 69.
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M.J.Turrel, The Christmas Treats (1915 - Link)
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Bolachas de gengibre...
Helge Artelius (Link)
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Bengalas de rebuçado...
Youqing Wang, Christmas Candy (2010 - Link)
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As broas

A Ilustração Portuguesa, 23 de Dezembro de 1912 (Link)

E, os doces de Natal que eu gosto:

Sonhos
(Link)
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Lampreia de ovos
(Link)
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Nógados
(Link)

domingo, 1 de dezembro de 2013

24 dias para o Natal - A Árvore de Natal

Árvore de Natal da rainha Victoria e seu marido Albert (The Illustrated London News, 1848 - Link)
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O costume do pinheiro de Natal veio dos países escandinavos, tendo sido os suecos que o levaram para a Alemanha, no início do séc. XVII*. Contudo, o seu simbolismo deve ter uma origem mais antiga, ligada à da árvore "sempre verde", que tomava parte dos rituais pagãos de inverno. As árvores de folha perene eram vistas como imagens da vida eterna, entre vários povos e religiões. Deve também referir-se, a este propósito, a árvore do paraíso, decorada com maçãs, e que surgia nas peças teatrais representadas durante a Idade Média, no dia 24 de Dezembro, dia de Adão e Eva**.
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D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, O Pai Natal (1848, Palácio Nacional da Ajuda)
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Em 1840, o pinheiro de Natal foi introduzido noutros países, sobretudo por influência germânica. Em Paris, pela princesa Helena de Mecklemburgo (duquesa de Orleães); em Inglaterra pelo príncipe Alberto, marido da rainha Vitória*. Em Portugal, terá sido pela mesma altura, através de D. Fernando II, que se casou em 1836 com a rainha D. Maria II. Em 1900, o costume já estava implantado no mundo ocidental*. 
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Georg von Rosen, The Christmas Fair (1872 - Link)
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Em 1865, Ramalho Ortigão escreveu a propósito do pinheiro de Natal, em Portugal, afirmando que era um costume que vinha da Alemanha, mas que não lhe agradava:

«Quando eu era pequeno nunca se falou em árvore de Natal na minha casa (...).
Vi ante-ontem no Palácio de Cristal o enlevo das crianças portuenses ao pé do pinheiro do Natal, todo resplandecente de luzes e vistosíssimo de bonecos, de tambores, de cornetas e cartonagenzinhas com amêndoas, e declaro que não lhes tive a menor inveja. (...)
Ah! os directores do Palácio de Cristal entraram demasiado no espírito da época (...)»***.

Noutro texto, cuja data não descobri, Ramalho voltava a queixar-se da novidade:

«A Árvore de Natal, recentemente importada dos costumes estrangeiros, é uma especulação do comércio; não é ainda um uso da família»****.
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Christmas Scene with Children and Toys (Link)
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É interessante notar que as primeiras imagens que se vêm desta árvore mostram-na de dimensões relativamente reduzidas e em cima de uma mesa. É de assumir que foi com o passar do tempo que as árvores de Natal foram aumentando em tamanho e protagonismo na festividade natalícia.
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Jozsef Rippl-Ronai, Christmas (1910)
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Quando eu era criança, só encontrava árvores de Natal na casa dos meus pais e de outras pessoas da sua geração. Era comprada a vendedores de rua, como por exemplo na Avenida de Roma, junto da linha de combóio, e era um pinheiro real que deixava um aroma muito agradável pela casa. Pouco tempo depois, nomeadamente por razões ecológicas (segundo creio), passaram a vender-se os pinheiros artificiais e árvores naturais em vasos, que se encontram em floristas e outras lojas.
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Jogo de paciência (Museu dos Biscainhos - Link)
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Devo concluir dizendo que, ao contrário de Ramalho Ortigão, eu aprecio o pinheiro de Natal, mesmo no formato artificial, cheio de decorações e de luzes a piscar. E já montei o meu.
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Patrick McDonnell, Mutts (Link)
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Biblliografia:
* Philippe Ariès e Georges Duby (Dir.), História da Vida Privada. Da Revolução Francesa à Grande Guerra, Vol. 4, Edições Afrontamento, 1990.
** Wikipedia (versão inglesa).
*** Ramalho Ortigão, Crónicas Portuenses, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1944.
**** Ramalho Ortigão, As Farpas, Tomo V, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1943.

sábado, 27 de abril de 2013

Realismo e Naturalismo II

Pier Francesco Cittadini, Ghirlanda di fiori (Pinacoteca Nazionale di Bologna - Pittori Italiani - Italian Painters)
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Nas pesquisas que realizei acerca do Realismo e do Naturalismo, tive oportunidade de notar alguns aspectos que vou agora evocar. Em termos históricos, o aparecimento do Realismo ocorreu em França após as lutas sociais e políticas da Revolução de 1848, com o consequente desenvolvimento das várias tendências do Socialismo, que culminaram na Comuna de Paris. O propósito do realismo era construir uma «representação verídica, objectiva e imparcial do mundo real, baseada numa observação meticulosa da vida do momento». O exemplo paradigmático desta corrente estética encontrava-se na pintura de Gustave Courbet, bem como nas teorias de Pierre-Joseph Proudhon. Em 1865 foi publicado o livro Du Principe de l’ Art et de sa Destination Sociale, onde Proudhon expôs o seu pensamento estético, dando como modelo a obra do pintor Courbet. Em comunhão com estas ideias, no programa das Conferências do Casino, organizadas por Antero de Quental, afirmava-se que não «pode viver e desenvolver-se um povo, isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo; o que todos os dias a humanidade vai trabalhando, deve também ser o assunto das nossas constantes meditações». A conferência de Eça de Queirós, sob o tema «Realismo como Nova Expressão da Arte», defendia a integração da arte na vida moderna e expunha o caso da obra de Courbet como protótipo para a arte actual. Eça apresentava a proposta de uma renovação literária, pela «arte moral», experimental e racional, em suma, pelo «Realismo na arte». Em 1878, numa carta, explicava: «O que queremos nós com o Realismo? Fazer o quadro do mundo moderno, nas feições em que ele é mau (...), queremos fazer a fotografia, ia quase dizer a caricatura, do velho mundo burguês, devoto, católico, explorador, aristocrático, etc.; e apontando-o ao escárnio, à gargalhada, ao desprezo do mundo moderno e democrático – preparar a sua ruína». Ao escrever o manuscrito da Tragédia da Rua das Flores (1878), Eça concebeu um pintor, que afirmava que a arte «devia educar pela representação das acções justas». A arte deveria «ser essencialmente revolucionária. Um quadro deve ser um livro; deve ser um panfleto; deve ser um artigo de jornal». O processo da pintura não deveria ser acabado, estudado, ou amaneirado. «A pintura não é nada – a ideia é tudo. Traços largos, sombras indicadas, tons sóbrios, que dêem a impressão exacta da realidade». Para Ramalho Ortigão,em 1875, a arte era uma interpretação «da natureza feita, como diz Proudhon, em vista do nosso aperfeiçoamento intelectual e moral». A missão da arte era crítica, não já uma crítica que nega, mas sim uma crítica que sistematiza. 
Um aspecto que tem sido notado em investigações recentes é que o realismo na arte deveu bastante à descoberta da pintura espanhola do século XVII, por parte dos artistas e historiadores. A liberdade dessa pintura, que tratava assuntos humildes e valorizava a cor mais do que o desenho, atraiu tanto os artistas românticos como os realistas. Tal como notou Lucília Verdelho da Costa, a «escola espanhola foi uma fonte de anticlassicismo que veio responder às aspirações da jovem pintura, que rejeitava o Belo ideal herdado de Rafael e a dramaturgia, o colorido e o dinamismo das composições românticas. (…) Courbet foi o primeiro a assumir a ruptura, ao introduzir, a par do realismo da representação, a técnica da pintura de Velásquez». 
Por outro lado, o realismo também estava associado à pintura holandesa, na medida em que esta reproduzia preferencialmente cenas da realidade quotidiana. No entanto, hoje devemos ter em consideração que o realismo holandês de seiscentos era um realismo aparente, pois as pinturas desse tempo celebravam as virtudes domésticas, sobretudo desempenhadas por mulheres, em espaços interiores. Apesar desse lado simbólico, como notou Tzevetan Todorov, nessas obras dava-se importância à realidade mais humilde e toda a representação pictural de um ser ou de um objecto significa que ele é digno de ser representado, que merece sobreviver ao instante da sua aparição: «a pintura é, intrisecamente, elogio do que é pintado». Todorov afiançava que através da representação do quotidiano, o pintor constatava que a beleza poderia estar nos objectos insignificantes e nos gestos comuns. Deste modo, descobria que «pela graça dos pincéis, ele pode mostrar que os objectos são dignos de uma admiração não somente ética mas estética». O mesmo historiador advertia ainda que a pintura do quotidiano, nos séculos XIX e XX, ligada ao realismo, continuava a «afirmar a beleza do que mostra; mas é muitas vezes uma beleza de abatimento, de desespero, de angústia; são as flores do mal (…)».
No que respeita ao Naturalismo, há outras questões que devem ser mencionadas. Para a pintura do século XVII, o naturalismo implicava o interesse pelas coisas naturais, a vontade de «imitare bene le cose naturali» - como foi verbalizado por Caravaggio. Por sua vez, o naturalismo do século XIX tem raízes no Positivismo e corresponde à crença filosófica de que o homem é uma criatura determinada pelas leis físicas e que pode ser assunto para investigação científica. Nesse sentido, o Naturalismo pretendia estudar os comportamentos, tendo como paradigma, em termos literários, os textos de Zola. Na pintura, ficou associado a John Constable, à Escola de Barbizon e ao gosto pela reprodução da natureza, o que se reflectiu sobretudo no interesse pela pintura de paisagem. 
Cerca de 1880, em Paris, entrou em voga na pintura um tipo de naturalismo, que herdava as aprendizagens da escola de Barbizon e do realismo, cruzadas com as descobertas do impressionismo e equilibradas pelo academismo, o qual tinha o seu expoente máximo na obra de Bastien-Lepage. Zola considerava que os naturalistas da década de 80 eram devedores do Impressionismo, que corrigiam de modo a ficar mais próximo do gosto do grande público. Uma das conquistas do Impressionismo, como notou Zola, foi o afastamento das tonalidades escuras e betuminosas: «peu à peu, on a vu les Salons s’éclaircir”. 
Nos textos do século XIX, os termos Realismo e Naturalismo confundiam-se, empregando-se indistintamente como sinónimo de representação fiel da realidade. Maria João Ortigão de Oliveira propôs que, atendendo «à fluidez e indefinição dos critérios esclarecedores», se considerasse «o naturalismo como herdeiro natural cronológica e historicamente do realismo». Contudo, não podemos esquecer que, em oitocentos, o Realismo e o Naturalismo distinguiam-se nos temas e na maneira de encarar a realidade. Enquanto o realismo adoptava uma conotação mais ideológica e crítica, o naturalismo tinha um carácter mais científico e atento aos valores da natureza:
«(…) há que referir também que a reivindicação do amor pelo campo, através de paisagens e gentes identificáveis, foi, no século XIX uma espécie de anti-cultura que se opunha ao crescimento imparável das cidades, com o seu cortejo de novas chagas sociais. Aquilo que, durante grande parte do século XX, foi considerado uma prática nostálgica e conservadora (porque se entendia que era nas cidades que o progresso se encontrava) pode hoje ser valorizado como uma ecologia, crítica da pujante economia capitalista para a qual a vida camponesa, bem como os seus valores, deveriam ser submetidos às exigências do mercado» (Raquel Henriques da Silva).
Ramalho Ortigão, um fervoroso adepto do naturalismo, dizia, em 1875, que a paisagem era «o género mais especialmente moderno». O pintor d’ «A Tragédia da Rua das Flores» afirmava: «O homem moderno vive longe da natureza, pela necessidade de profissão: uma arte que lhe reduz a natureza, que lha torna portátil, que lha introduz na sala de jantar, na alcova, interpretada, escolhida, - faz ao homem o maior serviço – pô-lo em comunicação permanente com a natureza. E a natureza é tudo: calma, consola, eleva, repousa e vivifica». 
No âmbito do Naturalismo, devemos ainda incluir a pintura de costumes populares, sendo em grande medida um assunto herdado do Romantismo. No contexto da valorização do mundo rural, Almeida Garrett afirmou: «Nenhuma coisa pode ser nacional se não é popular». Fora de Portugal, o tema foi desenvolvido pelos realistas e naturalistas, na medida em que a fórmula de Courbet «il faut être de son temps», também se aplicava a ser do seu lugar: consagrar-se ao seu país natal e à sua região, com o fim de captar os seus aspectos mais verdadeiros e singulares.
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Bibliografia:
Pierre-Joseph PROUDHON, 1865, Du Principe de l'Art et de sa Destination Sociale.
Diário de Notícias, 15/6/1871.
Antero de QUENTAL, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares.
As Farpas, Nov. 1871.
Ramalho ORTIGÃO, 1875, «O chic e os seus desastres».
Ramalho ORTIGÃO, 1875, «A restauração da arte portuguesa entregue pelo Govêrno aos cuidados de uma comissão».
Eça de QUEIRÓS, A Tragédia da Rua das Flores.
Émile ZOLA, 1880, «Le naturalisme au Salon».
Émile ZOLA, 1884, «Expositions des oeuvres d’Édouard Manet».
João MEDINA, 1980, Eça de Queiroz e a Geração de 70.
Maria João Ortigão de OLIVEIRA, 1988, O Pensamento Estético de Ramalho Ortigão.
Linda NOCHLIN, 1989, Les politiques de la vision.
Linda NOCHLIN, 1991, El Realismo.
Vítor SERRÃO, 1992, A Pintura Proto-Barroca em Portugal (1612-1657).
Tzvetan TODOROV, 1993, Éloge du quotidien. Essai sur la peinture hollandaise du XVII.e siècle.
Elisa Ribeiro SOARES, 1999, «O Romantismo e a Pintura Portuguesa».
A.A.V.V., 2002, Manet Velásquez. La manière espagnole au XIXe siècle.
Lucília Verdelho da COSTA, 2008, «Modernidade e Academismo. França, Espanha e Portugal: diálogos cruzados», in O Retrato, FCSH-UNL.
Raquel Henriques da SILVA, 2010, «Silva Porto e a pintura naturalista», in Catálogo do Museu do Chiado – século XIX.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A vida e a vida convertida em arte

Frank Weston Benson, Against the morning sky (1922) e Evening (1925).
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«A arte não é uma imitação da vida, mas a vida mesma 
E não se deve dizer a arte e a vida, 
Mas sim a vida e a vida convertida em arte»
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Ramalho Ortigão,
citado por Maria João Oliveira (1998).

domingo, 28 de agosto de 2011

A praia segundo Hermann Seeger

Hermann Seeger, A girl on the beach (a sgunda imagem é um detalhe).
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«Assim como quatro quintas partes do corpo humano são agua, assim quatro quintas partes da grande corpulencia do globo são mar. Parecendo separar os homens, o bello destino eterno do mar é reunil-os».
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terça-feira, 17 de maio de 2011

Dia Internacional dos Museus (18 de Maio)

Edgar Degas, A Visit to the Museum (1885).
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O termo museu vem do grego museion, nome que era dado a um templo dedicado às musas, construído sobre a colina do Helicon de Atenas.
Os museus actuais tiveram a sua origem nas grandes colecções reais e principescas que, ao longo da época moderna, se abriram progressivamente aos artistas e ao público. Foi durante o tempo do Iluminismo que apareceram os primeiros museus de arte, que se inseriam culturalmente «no grande projecto filosófico e político das Luzes: vontade dominante de "democratizar" o saber, de o tornar acessível a todos pela substituição de objectos reais às descrições e às imagens das recolhas de antiguidades, vontade, menos geral e menos afirmada, de democratizar a experiência estética» (CHOAY, 1996). Por outro lado, foi a par do desenvolvimento da ideia de património, que os primeiros museus se começaram a desenvolver, já que passou a existir uma preocupação não só com a protecção dos objectos que eram testemunho do passado, como também uma vontade de os catalogar e ordenar de forma a dar-lhes uma sequência e organização coerentes.
Durante o século XIX e início do XX os museus multiplicaram-se pelo mundo ocidental, servindo na afirmação de identidades nacionais. Em 1793 abriu ao público em Paris o museu do Louvre tendo como seu director o pintor Jacques-Louis David (1748-1825). Em Portugal, foi a partir da segunda metade do século XIX, que a actividade museológica teve um impulso inovador com a criação de novos museus e formação de novas colecções: o conceito de cultura e de património alargou-se, os museus passaram a abranger outros domínios para além da arqueologia, numismática e arte, tais como a indústria e etnologia. Em simultâneo, os museus passaram cada vez mais a ser vistos como instituições que deveriam desempenhar um papel importante nas áreas do ensino e da investigação. Ramalho Ortigão (1836-1915) dizia que um museu é uma forma de culto ou um desdobramento dele na ordem civil. Para este escritor, era pelo meio da arte que se transmitiam as tradições, se coordenavam os sentimentos, se depuravam os afectos, se enobreciam as paixões e o génio de cada raça se patenteava. No final de oitocentos, um museu passava a fazer parte da educação cultural dos cidadãos.
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Bibligrafia: Françoise CHOAY, L'Allégorie du Patrimoine, Paris, Éditions du Seuil, 1996; António NABAIS, «Museus», Dicionário Ilustrado da História de Portugal, Publicações Alfa, 1993, Volume II; Ramalho ORTIGÃO, Arte Portuguesa, Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1943, Volume I; Jacques VILAIN, Jean-Pierre CUZIN, «Musées de peinture», in L'atelier du peintre, dictionnaire des termes techniques, Paris, Larousse, 1998.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Arte: Naturalismo

Pintura de Joaquin Sorolla y Bastida, Paisaje de San Sebastián (Fundación Museo Sorolla, Madrid).
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«(...) o artista só tem um meio de ser superior - é ser fiel à natureza e ser fiel à sua própria comoção, ser exacto e ser sincero».
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Ramalho Ortigão (c. 1884).

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Fidelidade à natureza

Pintura de Alfred James Munnings, Laura Knight painting.
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«...o artista não tem que preocupar-se senão de ser absolutamente sincero na sua fidelidade à natureza, e de ser o mais completamente perfeito no seu processo de exprimir as aparências da verdade».
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Ramalho Ortigão (c. 1884).

domingo, 5 de setembro de 2010

Alegria

Frederick Morgan, Nutting (c. 1889).

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«Sem alegria, a humanidade não compreende a simpatia nem o amor».
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Ramalho Ortigão.

domingo, 16 de maio de 2010

A Volta do Passeio


Pintura de Columbano Bordalo Pinheiro, A Volta do Passeio (1880).
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A volta do Passeio ou Retrato da Dama da Sombrinha Azul é uma obra pouco comum entre as pinturas intimistas de Columbano, porque mostra uma mulher num espaço exterior, simbolicamente marcado pelos adereços a ela associados: o chapéu e a sombrinha. 
Ramalho Ortigão era da opinião que A Volta do Passeio era um «estudo de mulher, esboçado com uma grande convicção da realidade», mas lastimava «que n’esta obra tão valentemente indicada, o auctor não acabasse um pouco mais o fundo do quadro e as roupas da figura».
Júlio Dantas viu-o como uma «maravilha de ar-livre, em que se sente a influência dos diviosionistas, dos iluministas à maneira de Besnard». A «natureza é interpretada convencionalmente», mas «a figura de mulher, que a anima, aparece-nos como um prodígio de distinção (...) que nos diz tudo, - no meio de uma païsagem sem luz e sem ar, que na verdade pouco nos diz!». «A Dama da sombrinha azul: assim intitulou Columbano êsse encantador trabalho. (...) E, quando se referia a êle (...) chamava-lhe “retrato”. A identificação foi feita, há mais de vinte anos, pelo meu inolvidável amigo Henrique Lopes de Mendonça (...). - Era a minha mulher...».
Henrique Lopes de Mendonça foi casado com Amélia Bordalo Pinheiro, irmã de Columbano.
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Margarida Elias.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Pintura de Ar Livre

Pintura de Columbano Bordalo Pinheiro, Na Floresta de Fontainebleau (1882).
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«Se o sr. Bordalo determina ser decididamente um impressionista, - e serei eu o primeiro a aplaudi-lo por esse arrojo simpático, - creio que faria bem tomando o exemplo dos seus correligionários, e, logo que passem as chuvas que neste momento nos inundam, lançando aos ombros a sua mochila e abotoando as suas polainas, que vá para o campo com a perseverança dos fortes apontar de novo em frente dos efeitos da Natureza os valores correlativos da tinta».
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Ramalho Ortigão (1879).

domingo, 11 de outubro de 2009

Lisboa do Século XIX



Depois de um período de obras públicas no início do século XIX, a construção estagnou, mantendo a cidade de Lisboa com um aspecto ainda ruralizante, muito embora ela fosse o centro político do País. A sua população estacionou nos 200-220 mil habitantes, pelo que ainda não era necessária uma alteração efectiva das estruturas existentes. Não se construíram novos bairros, mas ainda assim a capital assistiu a algumas mudanças. Depois da década de 40, houve um alteamento dos prédios, com quartos e quintos andares sobre a cornija. Foi concluído o torreão poente do Terreiro do Paço e terminou-se a construção do Rossio, com as casas a Noroeste (1845) e o empedramento da praça (1849). Lisboa passou a ser iluminada a gás desde 1848 e em 1852 foi definida a estrada de circunvalação.
Os jardins desempenhavam um papel importante na vida citadina, sobretudo desde a chegada de D. Fernando II em 1836, pois foi ele quem introduziu o hábito de passear pela cidade. O local escolhido era preferencialmente o Passeio Público, mas os lisboetas também deambulavam nos jardins de São Pedro de Alcântara ou da Estrela.
Com o avançar do tempo, nomeadamente nos anos setenta, a capital do Reino tornava-se numa cidade pacífica, muito diferente daquela que fora palco de convulsões políticas e sociais em décadas anteriores. Em 1874, Ramalho Ortigão acusava Lisboa de ser «grave, escura, pesada, lúgubre». Guilherme de Azevedo afirmava em 1878 que a «Lisboa d' hoje é bem diversa já não só da Lisboa de ha dois seculos, mas também da Lisboa de ha quinze anos!». Era agora uma «pacífica cidade do nosso tempo, sem arrebatamentos no espirito e sem barricadas nas ruas». É interessante citar uma descrição de Eça de Queirós, n' O Crime do Padre Amaro, retratando Lisboa cerca de 1871. O cenário era o Largo do Loreto e a sua gente, onde todo um «mundo decrépito se movia lentamente, sob um céu lustroso de clima rico, entre garotos apregoando a lotaria e a batota pública, e rapazitos de voz plangente oferecendo o Jornal das pequenas novidades».
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Margarida Elias.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A obediência

Pintura de Hokusai, The Great Wave at Kanagawa (c. 1830-1832, Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque).
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Toda a obediência é uma diminuição de valor e de dignidade. Onde a liberdade existe não há uma obediência, há apenas acordo. A obediência é dos fructos do despotismo o mais venenoso. O homem que obedece avilta-se; o povo que obedece deprava-se e dissolve-se.
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Ramalho Ortigão (1882).

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Presépio

Pintura de Murillo, Sagrada Família com São João Baptista.
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O objecto do culto, da admiração, do entusiasmo, do enlêvo dos pequenos do meu tempo era o velho presépio, tão ingénuo, tão profundamente infantil, tão cheio de coisas risonhas, pitorescas, festivas, inesperadas.
Era uma grande montanha de musgo, salpicada de fontes, de cascatas, de pequenos lagos, serpenteada de estradas em ziguezague e de ribeiros atravessados de pontes rústicas.
Em baixo, num pequeno tabernáculo, cercado de luzes, estava o divino bambino, louro, papudinho, rosado como um morango, sorrindo nas palhas do seu rústico berço, ao bafo quente da benigna natureza representada pela vaca trabalhadora e pacífica e pela mulinha de olhar suave e terno. A Santa Família contemplava em êxtase de amor o delicioso recém-nascido, enquanto os pastores, de joelhos, lhe ofereciam os seus presentes, (...).
A grande estrela de papel dourado, suspensa do teto (...), guiava os três magos, que vinham a cavalo (...). Melchior trazia o ouro, Baltasar a mirra, e Gaspar vinha muito bom com o seu incenso (...).
Atrás dêles seguia a cristandade em pêso que se figurava descendo do mais alto monte em direcção ao tabernáculo. Nessa imensa romagem do mais encantador anacronismo, que variedade de efeitos e de contrastes! que contentamento! que alegria! que paz de alma! que inocência! que bondade!
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Ramalho Ortigão.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A Boémia

Pintura de Fantin-Latour, Un Coin de Table (1872, Museu d'Orsay, Paris).
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Aos vinte anos é preciso que alguém seja estroina nem sempre para que o Mundo progrida, mas ao menos para que o mundo se agite. Para se ser ponderado, correcto e imóvel, há tempo de sobra na velhice.
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Ramalho Ortigão,
Citado por Maria João Ortigão de Oliveira.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A diligência no Século XIX



Uma coisa inteiramente especial e digna de estudo é o aspecto das numerosas diligências, breaks e chars-á-bancs, que circulam sôbre estas estradas, desde os Arcos e desde Ponte-de-Lima até Viena.
Dois pequenos garranos, quando não é um só, puxam por cima do macadam faïscante de sol as mais fantásticas carradas de gente e de objectos que a imaginação pode conceber. Dentro do veículo senta-se a primeira camada de passageiros nas bancadas. Depois de todos os lugares ocupados estreitissimamente, à cunha, o veículo considera-se completamente vazio, e mete-se-lhe a segunda camada de pasageiros, colocada exactamente em cima da primeira. Feita esta operação começa o interior do carro a achar-se quási cheio, mas não cheio de todo, porque entre o teto, os joelhos e os bustos dos passageiros da segunda camada, nota-se ainda um espaço oblongo a tôda a extensão da berlinda, desde a portinhola do fundo até o vidro da frente. Preenchido êste espaço com um passageiro estendido ao comprido, passa-se a ocupar os bancos da imperial e o tejadilho.
Fora, em vez de irem empilhados como no interior, os passageiros são ensanduïchados metódicamente com as bagagens e com as mercadorias, pela ordem seguinte: camada de mercadorias, primeira camada de passageiros, primeira camada de bagagens, segunda camada de passageiros, segunda camada de bagagens; e em cima de tudo isto o penso para o os garranos, os merendeiros e os varapaus dos passageiros, e no ar, a um lado, seguro da almofada pela cinta, seguro do guarda-lama pelas pernas, o cocheiro levado a braços pelos viajadores.
Para que olha de longe, a carruagem desaparece completamente sob a enorme massa viva e não se vê mais que um enorme e inverosímil cacho de gente agarrada uma à outra por um engaço misterioso, bamboleando ao sol, oscilando da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, e prosseguindo lentamente, levado por duas formigas.
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Texto de Ramalho Ortigão, 1885.