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quarta-feira, 6 de abril de 2016

A Iconografia do Retábulo de Mérode

Robert Campin (oficina), Retábulo de Mérode (c. 1427-1432, Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque)
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Projectei trazer este "post" no dia 25 de Março, dia da Anunciação, mas na altura não foi possível.
O tema da Anunciação na arte é um dos que mais me fascina, sendo a iconografia outro dos assuntos que me interessa. Daí que tenha lido com interesse o artigo de Margaret B. Freeman, intitulado «The iconography of the Merode altarpiece». Irei fazer um resumo do artigo, que encontrei online no site JSTOR (mas não consigo reencontrar), salientando os pontos que achei mais interessantes.
A autora começa por afirmar: «The iconography of the Merode altarpiece is something of a puzzle - a puzzle which has interested many people for a long time.» Segundo ela, a dificuldade básica na leitura desta obra é que «Robert Campin, rejoicing in the ability to reproduce the physical world in paint on a wooden panel, at the same time felt it important to endow his apparently natural world with as much spiritual meaning as possible.» 
Por exemplo, os leões no banco simbolizam o trono de Salomão ou são apenas representações decorativas características do mobiliário medieval? No livro Speculum humanae salvationis diz-se: «The throne of [the wise] King Solomon is the Virgin Mary in whom stayed and lived Jesus Christ, the true wisdom.... This same throne had two large lions which signified that Mary retained in her heart ... the two tablets of the ten commandments of the law.»


Segundo este artigo, Campin, se não foi o primeiro que colocou os "espectadores" perante estas dúvidas iconográficas, foi certamente o primeiro a representar um cenário doméstico completo numa Anunciação. Esta atitude coaduna-se com uma imagem moderna de Santa Maria, como alguém que foi humano e viveu na Terra, escolhida por ser "cheia de Graça" para ser Mãe de Deus. 
A posição de Maria, ajoelhada no chão, é um sinal da sua humildade. Na pintura, surgem também os lírios numa jarra sobre a mesa, simbolizando a sua pureza e castidade. 


Junto dos lírios está uma vela recentemente apagada, de significado obscuro. A cera representa a humanidade de Cristo, o pavio a sua alma, o fogo a sua divindade. O facto de estar apagada talvez seja explicável pelas Revelações de Santa Brígida: «the divine radiance (...) totally annihilated the material light,» É também possível que servisse para enfatizar que Cristo se tornou humano, sendo interpretável que foi a entrada de Jesus no quarto que apagou a vela.


O significado de pureza é acrescentado pelo vaso de bronze com uma toalha ao lado. Junto desse vaso está uma janela de onde entram raios de luz, e uma criança carregando uma cruz, em direcção à Virgem. São Bernardo explica deste modo o próprio milagre da Encarnação: «Just as the brilliance of the sun fills and penetrates a glass window without damaging it, and pierces its solid form with imperceptible subtlety, neither hurting it when entering nor destroying it when emerging, thus the word of God, the splendor of the Father, entered the virgin chamber and then came forth from the closed womb.» Neste quadro, são sete os raios de luz, indicando os sete dons do Espírito Santo. A cruz tem também um significado claro: «God became Man to suffer and die in order to redeem mankind from the original sin of Adam.»


Outra dúvida coloca-se com a porta aberta no painel esquerdo, com os doadores - que torna aberto o quarto de Maria, que costuma ser representado como fechado (ou pelo menos sem portas abertas e realisticamente figuradas). Pode ser apenas uma barreira e um artifício que simultaneamente separa e une o painel esquerdo e o central. Contudo: «Did Campin then open the door because he wanted his patrons, the kneeling donors, to participate in the event (unlike the angel they could not penetrate a solid door), or did he perhaps have in mind the symbolism of Voragine, "The gate of paradise which by Eve was closed from all men, is now opened by the Blessed Virgin Mary." ?» Por outro lado, para Santa Brígida, as portas são símbolo de esperança e também de caridade.



O jardim é certamente carregado de simbolismo. A roseira simboliza o martírio de Cristo e as rosas a própria Virgem Maria. As flores junto do canto inferior esquerdo são miosótis ("não-me-esqueças") simbolizando os olhos de Maria, mas também violetas e margaridas, signos de humildade. Lembram também que Cristo foi concebido no tempo das flores (Primavera). O muro do jardim indica a virgindade de Maria geralmente comparada a um jardim fechado.


Interessante é também a vista de Tournai, que se descobre no painel direito que representa a oficina de São José. Este parece que se dedicou a fabricar ratoeiras. Estas estão provavelmente ligadas ao facto de a sabedoria sobre a divindade de Cristo dever ser protegida do diabo, para que este não soubesse que Ele era mais do que um homem durante a missão que desempenhou na Terra. Escreveu Santo Agostinho: «The devil exulted when Christ died, but by this very death of Christ the devil is vanquished, as if he had swallowed the bait in the mousetrap. He rejoiced in Christ's death like a bailiff of death. What he rejoiced in was then his own undoing. The cross of the Lord was the devil's mousetrap; the bait by which he was caught was the Lord's death.» 
A autora termina dizendo: «Robert Campin, an innovator in many ways, seems to be at his best in giving new dignity and importance to Joseph the Carpenter, whose feast was not made universal until 1621 (...).»
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Deste modo, aqui fica com algum atraso um post que tanto celebra a Anunciação (25 de Março), como o dia de São José (19 de Março), como até a chegada da Primavera (20 de Março).

terça-feira, 18 de março de 2014

São José, nos Museus Portugueses

Círculo de Gérard David, Apresentação do Menino no Templo, Políptico da Vida da Virgem, pormenor do rosto de São José (1490-1500, Museu de Évora)
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De acordo com a Wikipedia, desde o século X que a Igreja Cristã Ocidental festeja o Dia de São José, no dia 19 de Março. Esse mesmo dia é comemorado como Dia do Pai, nos países católicos e nomeadamente em Portugal, Espanha e Itália. Até o ao século XVII, na arte, São José era representado como um homem de idade avançada, tendo geralmente um papel reduzido relativamente a Santa Maria e a Jesus. Posteriormente, foi ganhando importância, sendo representado também com um aspecto mais jovem.
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Josefa de Ayala, S. José e o Menino (c. 1670, Museu Nacional de Arte Antiga)
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Joseph Bottani, O sonho de São José (séc. XVIII, Museu Nacional de Machado de Castro)
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S. José com o Menino (séc. XVIII, Museu Nacional de Soares dos Reis)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Dia de Reis

Adoração dos Reis Magos (séc. XIV, Museu Nacional de Arte Antiga - Link)
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Os Três Reis Magos, segundo a tradição cristã ocidental, são santos e têm os nomes de Melchior, um sábio persa, Gaspar, um sábio da Índia e Baltazar, um sábio árabe. São representados como reis e simbolizam as três idades do Homem. Gaspar é figurado como um velho e traz o ouro, sendo o primeiro a ajoelhar-se junto de Cristo. Melchior é um homem de meia-idade e oferece o incenso. Baltazar é jovem, geralmente de pele negra, e traz mirra. Na Igreja Cristã Ocidental, o Dia de Reis corresponde a um dia de Epifania e é celebrado no dia que se segue aos 12 Dias de Natal. (Link)
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Oficina Simon Bening, Horas da Virgem - Adoração dos Magos (1530-1534, Museu Nacional de Arte Antiga - Link)
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Vasco Fernandes  e Francisco Henriques, Adoração dos Reis Magos - Políptico da Capela-Mor da Sé de Viseu (1501-1506, Museu Grão Vasco - Link))

(detalhe de Baltasar, figurado como um índio americano)
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Adoração dos Reis Magos - Contador (1651-1700, Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves - Link)
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António e Dionísio Ferreira (atribuído), Peça do Presépio da Madre de Deus - Cavalgada dos Reis Magos (1700-1730, Museu Nacional do Azulejo - Link)
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Painel de azulejos de composição figurativa - Adoração dos Reis Magos (1760-70, Museu Nacional do Azulejo - Link)

domingo, 27 de dezembro de 2009

Sagrada Família


Hoje, que, de acordo com o meu calendário, foi dia da Sagrada Família, aqui deixo esta pintura de Jan Bruegel, o Velho (c. 1623, Alte Pinakothek, Munique). Gosto muito da obra deste pintor flamengo, do século XVII, assim como de muitos outros artistas dos Países Baixos, da mesma época. Além do colorido e naturalismo das composições, acho lindíssimas as grinaldas de flores encolvendo as cenas religiosas.
Neste caso, vê-se uma imagem da Sagrada Família, situada numa paisagem. Nossa Senhora tem o Menino ao colo e junto dela, meio escondido, está São José. Junto deles estão muitos anjos, três dos quais em grande plano. Vê-se ainda um cordeiro, lembrando por um lado a adoração dos pastores, mas também São João Baptista, que diria de Jesus, ao baptizá-lo: «Eis o Cordeiro de Deus». Ao longe vê-se outra cena figurativa, mas que não consigo identificar.
Para mim, o mais curioso são os insectos e outros pequenos animais que circundam as figuras, juntamente com as flores e os frutos, realçando o teor festivo da composição.