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quarta-feira, 17 de abril de 2019

Do Património

Paris, Notre-Dame (Côté Sud). Papeghin, Paris-Tours (c. 1915)
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«(…) Com efeito, a observação directa de qualquer edifício, quantas vezes o mais singelo, acaba por se revelar um meio privilegiado de compreender a sociedade que a ele e a outros similares deu origem (…)».
Esta frase, de Pedro Cid*, aplica-se, de facto, a um edifício de aparência mais singela (a Torre de S. Sebastião da Caparica) e em ruínas, não motivadas por qualquer incêndio, mas sim pelo abandono. A Notre-Dame não tem nada de singelo e espero bem que o que aconteceu não se repita, e que se consiga fazer um bom restauro. No entanto, a frase de Pedro Cid aplica-se a qualquer edifício e revela a importância da história, do património e da memória na construção da civilização, sendo que julgo que esse é um tema muitas vezes esquecido.
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*Pedro de Alboim Inglez Cid (2007). A Torre de S. Sebastião de Caparica e a Arquitectura Militar do Tempo de D. João II. Lisboa: Colibri – IHA/FCSH/UNL, p. 15.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Vilas

Ezequiel Pereira, Alentejo: Vila de Frades (1928, MNAC, Lisboa)
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«Attendamos agora ao que o nosso erudito e indefesso Viterbo no seu = Elucidario das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram = nos diz sobre a accepção de villa: “- Em todos os nossos documentos até aos fins do século XII se tomou villa, não por uma povoação grande, (…) mas sim por uma pequena herdade, casal ou granja, constante de algumas peças de terra, com sua casa rustica (…)” (…)».
«Alexandre Herculano diz também na Historia de Portugal: “Em volta d’elle (de um castello no seculo XII ou XIII)… está assentado um grupo de povoações humildes… que constituem uma villa, denominação generica tanto de qualquer aldeia ou aldeola, como das mais importantes municipalidade, e que corresponde na sua significação vaga ao moderno vocábulo povoação”».
«Eis certamente a rasão de esta e tantas outras povoações pouquíssimo notáveis de Portugal se chamarem villas (…)».
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J. Leite de Vasconcelos, «O Presbyterio de Villa-Cova», in O Academico, n.º 5, 1878, p. 34.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Da Imaculada Conceição

Francisco de Zurbarán, La Inmaculada Concepción (1628-1630, Museu do Prado, Madrid)
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«Segundo Joseph Bayam, foi a Rainha Santa Isabel que instituiu o culto à Virgem Nossa Senhora da Conceição (Santa da sua predilecção). Pediu ajuda a esta Santa para que terminasse a guerra civil que envolvia o seu marido e filho, prometendo aumentar a devoção à Senhora da Conceição. Falando com a autoridade eclesiástica coimbrã (Bispo D. Raimundo), pede para que consagre um dia à devoção desta Santa; este expõe o caso ao seu conselho do Cabido e às pessoas mais versadas em teoiogia e letras que discutem o assunto. Depois de todos terem entrado num acordo, o Bispo promulga uma constituição em que manda celebrar, todos os anos, a 8 de Dezembro, na sua Catedral, a festa de Nossa Senhora da Conceição. Depressa o exemplo é alargado a Lisboa e pelos restantes prelados do país».
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In Luísa Silva, A Construção do Novo Mosteiro de Santa Clara de Coimbra: 1647 a 1769: Da Decisão à Conclusão: Obras e Arquitectos. Dissertação de mestrado, Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2000, p. 38. Ela cita Joseph Bayam, Portugal glorioso e ilustrado com a vida e virtudes das benventuradas Mafalda, Isabel e Joanna, Officina de Pedro Ferreyra, Lisboa Ocidental, 1727, p. 266.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

História

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«L’Histoire est mémoire. Un individu qui perd sa mémoire perd du même coup son identité. Il en va de même pour les groupes humains : tant qu’un groupe n’a pas d’histoire il n’a pas identité, il n’existe pas comme groupe, si nombreux soit-il. Mais s’il se donne une histoire, il commence à exister ; en même temps que son passé, il a des chances de construir son avenir.»
Yvonne Knibiehler e Catherine Fouquet.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

A História de Portugal segundo Costa Pinheiro

Costa Pinheiro dedicou parte da sua obra a temas da História Portuguesa. Como amanhã é Dia de Portugal, ficam aqui alguns exemplos.
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D. Afonso Henriques (1965, CAM-FCG)
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D. João II (1966)
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sexta-feira, 7 de abril de 2017

«Cadernetas de Cromos» na Biblioteca Nacional

A exposição, feita com o apoio do Clube Português de Banda Desenhada (e já referida no Ponto Aqui! Ponto Acolá!) está até 29 de Abril - e vale a pena ver. Os meus preferidos são os primeiros que aqui publico, da «Casa Chineza», até porque acho que são da mesma colecção que fazia a minha bisavó e que eu herdei (alguns). Mas as maioria nunca tinha visto. Segundo João Manuel Mimoso:
«(...) A mania dos cromos correu o País em vagas distintas e sob diversas formas a partir da década de 1870: os cromos oferecidos pelos estabelecimentos comerciais; os cromos das caixas de fósforos e do tabaco; os postais ilustrados; os cromos dos chocolates, rebuçados e caramelos; e finalmente os cromos vendidos em envelopes-surpresa.».

Também lá está uma máquina de fazer caramelos.

E daqueles furos dos chocolates, que havia na Feira Popular. Os furos ainda se encontram por aí, mas é pena já não haver a feira.

 
Estes nem sabia que tinham existido:

terça-feira, 2 de agosto de 2016

2.º dia de Agosto

Joan Miró, L'Eté (1927)
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Etimologia de Agosto

«Agosto era o sexto mez do calendario albano, e ficou sendo o oitavo no de Numa; mas continuaram a chamar-lhe sextil ou sexto; até o tempo de Octavio Cesar, mais conhecido pelo nome de Augusto, na qual epocha o senado para lhe render a mesma homenagem que tinha rendido a Julio Cesar, decretou que este mez, em que Octavio tomara, pela primeira vez, posse do consulado, em que celebrara 3 triumphos, reduzira o Egypto a provincia romana, e dera paz ao imperio lacerado por discordias civis, fosse denominado Augustus, donde veio a palavra Agosto.
Este mez era consagrado, pelos antigos, a Ceres, deusa das searas e ceifas. O modo porque mais commummente se representa o mez de Agosto é por uma mulher formosa, de avantajada estatura, corada de espigas de trigo, e com feixes dellas mettidos em ambas as mãos. Esta representa tambem ao systema astronomico; pois o sol entra pelos fins do mez em um dos signos do zodiaco, chamado virgo, ou o signo da virgem.»
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In O Panorama, Vol. II, 2º da 1ª Série, N.º 66, 4 de Agosto de 1838.
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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Da prosaica lógica da batata

Camille Pissarro, Potato harvest (1885)
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Em tempo de comer batata doce, apesar de não ter encontrado explicação para a expressão "lógica da batata", trago uns excertos de um texto publicado em 1984, no Colóquio Artes (n.º 63, Dezembro), da autoria de Alfredo Margarido, e intitulado «O pouco e difícil simbolismo da batata».
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William Merritt Chase, The Potato Patch (c. 1893)
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«(…) A tríade das plantas ligadas aos mitos, sagrados ou não, é constituída no Mediterrâneo, pela vinha, pela oliveira e pelo trigo. (…)»
«Não é por isso de admirar (…), que não haja um grande número de representações da batata, nem sequer nos manuais ou nos tratados de botânica. A primeira conhecida aparece no frontispício do Herball onde Gerard se fez representar com um ramo florido na mão, em 1586. A segunda é uma aguarela de 1589, actualmente no Museu Plantin de Anvers. (…)»
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Walter Langley, Old Woman Peeling Potatoes
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«Estamos assim perante a explicitação da regra enunciada um pouco mais atrás: se as plantas não ocupam um espaço simbólico, se não são necessárias ao grupo, seja em termos religiosos seja em termos alimentares, estas não são representadas. (…)»
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Albert Anker, Girl Peeling Potatoes
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«Esta situação altera-se substancialmente a partir do século XIX, isto é, a partir do momento em que começa a propaganda da cultura e do consumo da batata. (…)»
«É verdade que este facto se verifica num panorama mais amplo, marcado pelo acesso ao Salão parisiense de 1831, de uma pintura profundamente marcada pela importância das alterações sociais iniciadas com a Revolução de 1789 (…).»
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Jean-François Millet, Title The Potato Harvest (1855, Walters Art Museum)
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«A primeira aparição da batata regista-se na obra de Joseph Millet (…). Deve todavia notar-se que a batata não aparece ligada à paisagem: contrariamente ao trigo, que pode ser representado sem a mínima presença humana (…), a batata só existe em função do trabalho (…).»
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Vincent van Gogh, Magyar: Krunplievők (The Potato Eaters) (1885, Van Gogh Museum)
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«Quer dizer que a batata é portadora de um enunciado cultural particular, dado que o tubérculo era particularmente destinado ao consumo popular, reduzindo assim de maneira sensível o défice de cereais que tanto marcou a Europa já no fim do século XIX (…).»
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Jules Bastien-Lepage, Saison d'Octobre: Recolte des pommes de terre (1879, National Gallery of Victoria)
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«De resto, todas estas telas mostram a justeza de uma observação de Balzac, numa passagem de Les Paysans, onde é sublinhado o carácter plasticamente pouco ou nada interessante do mundo camponês, caracterizado por cores cruas, onde abundam os castanhos, ou as cores aparentadas. Circunstância provocada, como é sabido, pelo recurso às fibras clássicas (lã, linho e cânhamo) utilizadas tal qual, sem recurso aos pigmentos industriais. Ora a monotonia das figuras é reforçada pela dos gestos do trabalho, repetitivos, assim como pela instalação doméstica.»
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Vincent van Gogh, Basket of potatoes (1885, Van Gogh Museum, Amsterdão)
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«(…) No caso da batata, a pintura só se ocupa do tubérculo, da sua produção e do seu consumo no período extremamente curto que preside à generalização do consumo, no momento em que a batata é geralmente considerada como o “pão dos pobres”. (…)»
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José Julio de Souza Pinto, La récolte des pommes de terre (1898, Musée d'Orsay, Paris)
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«(…) A carga mítica do trigo não poderá jamais ser igualada pela batata. O que mostra também a que ponto a nossa pintura está directamente associada aos meandros mais íntimos da história cultural europeia (…).»
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Vincent van Gogh, Peasant Woman Peeling Potatoes (1885)
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Obviamente, este texto concentra-se no simbolismo da batata na cultura europeia e ocidental. Contudo, a sua história é bem mais antiga do que a chegada dos europeus à América. De acordo com o site Encyclopedia.com, a batata foi originalmente domesticada nos Andes, sendo com os Incas que o seu potencial foi mais desenvolvido. Este povo descobriu como fazer um preparado com as batatas desidratadas, transformando-o numa substância que apelidavam de chuno. Este preparado era conservado e usado em tempos de necessidade e era tão precioso que os Incas o usavam como moeda de troca. Acreditava-se que as batatas tinham poderes curativos, nomeadamente na prevenção do reumatismo.
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Natalia Goncharova, Planting potatoes (1908-1909)
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Chegadas à Europa as batatas não receberam um acolhimento caloroso, até os espanhóis perceberem que eram ideais para os marinheiros, pois eram ricas em vitamina C. No entanto, foram vistas com desconfiança pela generalidade das pessoas, porque para além do seu aspecto inestético (e serem inicialmente pequenas e amargas), não eram mencionadas na Bíblia e por isso eram vistas como obra do diabo. Os irlandeses plantavam-nas à Sexta-feira Santa e aspergiam-nas com água benta.
Este meu resumo é muito simplista, pois o tema é mais complexo. Para saber mais detalhes, ver:
Berzok, Linda Murray. "Potato." Encyclopedia of Food and Culture. 2003.Encyclopedia.com. 20 Nov. 2015 <http://www.encyclopedia.com>.
Por curiosidade, acrescente-se que a batata doce foi mais facilmente aceite na cultura ocidental, como é referido no artigo A Brief History of the Sweet Potato: «sweet potato immediately became a rare and expensive delicacy».
Noutro artigo do site Folclore de Portugal conta-se que no «século XIX, a batata doce foi cultivada em grande escala nos Açores e na Madeira, de tal forma que ainda faz parte da gastronomia local. O Algarve é outra dessas regiões onde a batata doce tem-se afirmado. Um ditado popular diz:"Um Olhanense passava / Muito bem para onde fosse / Com um prato de xerém / E uma batatinha doce."». Nesse texto refere-se ainda que Aljezur é desde há séculos afamada como a 'terra da batata doce'.
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Nos Estados Unidos, o Thanksgiving este ano será dia 26, na próxima semana. Tradicionalmente inclui puré de batata.
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segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

2 Dias para o Natal - O Bacalhau

Segundo o que pesquisei, nomeadamente pela internet, o bacalhau é um alimento do Norte da Europa, e há quem diga que foram os Vikings que primeiro o introduziram em Portugal. Num blogue, encontrei um artigo sobre a história de pescar e comer o bacalhau (link) e há artigos da Wikipedia, que confirmam a antiga tradição portuguesa de comer este peixe.
No Natal, é tradicional comê-lo, sobretudo na consoada. O mais habitual é o "bacalhau com todos" (que ainda é o meu preferido), mas também vão surgindo variações, nomeadamente do "bacalhau com natas". Das 1001 maneiras de cozinhar o bacalhau, aprecio também o bacalhau com migas de broa, o bacalhau à lagareiro com batatas "a murro" e o bacalhau no forno com camarão (creio que é uma versão melhorada do bacalhau com natas).
Fica ainda uma frase de Miguel Esteves Cardoso, a que achei piada:
«Os melhores petiscos são aqueles que não podem ser comprados - por muito dinheiro ou amor que se tenha - mas somente adquiridos por ter nascido e vivido num determinado lugar; por ser filho, sobrinho ou compadre de determinadas pessoas.» (link)
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A Still Life With A Mackerel, A Salmon-Trout, A Cod, A Lobster, A Crab, An Eel Together With Other Fish In A Basket, All On A Ledge With Shell-Fish (Link)
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(Link)
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Maria Campos, Natal na Beira Baixa (Museu Francisco Tavares Proença Júnior - Link)
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João Vaz de Carvalho (Link)
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Por fim, uma receita em BD de pastéis de bacalhau, in Fernanda Matos e Silva, Vamos Cozinhar, Lisboa, Edições Excelsior (desenhos de Maria Emília Matos e Silva)

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Os povos que não conhecem a fundo a sua História

«Doi-me a ilha perdida, e repete-me que os povos que não conhecem a fundo a sua História caem facilmente nas mãos de vigaristas, de falsos profetas, e voltam a cometer os mesmos erros».
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Luís Sepúlveda, As rosas de Atacama, p. 16.
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Nota pessoal: Concordo, mas o problema é que a História é uma narrativa, uma construção feita pelos historiadores, que se baseiam em factos (documentos, testemunhos) - é certo -, mas pode ser falsificada, mitificada, usada pelos "falsos profetas" - e, nesse caso, pode ser tão perniciosa como o desconhecimento da História.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

A propósito de um retrato


Caspar Netscher, Young girl (c. 1660, in Old Paint).
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Desde há algum tempo que me interesso pelas cadeiras representadas nos retratos. Com o evoluir das minhas pesquisas, cada vez estou mais convencida que essas cadeiras têm um valor iconográfico, nomeadamente por acrescentarem informação sobre a figura do retratado: social, psicológica, profissional, etc.. 
Por outro lado, ando fascinada com as cadeiras do século XVII, nomeadamente aquelas que surgem na pintura flamenga e holandesa. Neste retrato pintado por Caspar Netscher (1639-1684), vemos uma jovem de pé, elegantemente vestida, que apoia a sua mão direita nas costas de uma cadeira. Logo aqui noto um detalhe curioso: se uma figura estiver sentada (particularmente se estiver a ler ou a trabalhar) dá uma imagem mais ligada ao quotidiano, quer na intimidade, quer na vida profissional - excepto quando num trono, o que lhe confere um estatuto de autoridade. Contudo, se uma figura está de pé, junto de uma cadeira, nomeadamente quando fica virada para o espectador, fica numa situação de pose, de expectativa. Neste caso em particular, a mão sobre a cadeira liga a figura à peça de mobiliário - o que é ainda mais notório porque não existe outro elemento de mobiliário ou decorativo na composição. 
Gostava de atentar na cadeira e de descobrir mais sobre ela. Atraem-me sobretudo as flores vermelhas e alaranjadas, que me parecem ser rosas e tulipas  No assento parece ver-se um brasão de armas - o que não só inclui esta cadeira na tipologia das cadeiras brasonadas, como dá uma indicação provável sobre a figura feminina retratada. Este tipo de cadeiras é forrada com um tipo de tapeçaria conhecida como "turkey work", muito em voga na centúria de seiscentos. Uma das minhas dúvidas quando olho para estas peças de mobiliário figuradas nas pinturas é se de facto elas existiam ou se eram inventadas pelo pintor. É certo que no século XVII existiram muitas cadeiras semelhantes a esta, mas esta tem a particularidade de o brasão de armas estar no assento - o que seria pouco recomendável, pois é uma zona sujeita a maior desgaste. O costume era o brasão ficar no encosto da cadeira.
Por fim, deixo uma sugestão - apenas baseada numa breve incursão na internet - que gostava de poder um dia aprofundar. Será ela Maria Henriqueta, "Mary, Princess Royal e Princess of Orange" (1631-1660) que casou com Guilherme II (1626 – 1650) "Prince of Orange" e stadtholder das United Provinces of the Netherlands, desde 1647? Os retratos e a cronologia fazem sentido (sendo este retrato, nesse caso, provavelmente anterior a 1660); o brasão da cadeira (que se vê muito mal, assumo), também é parecido com o dos Stuart. Além disso, o retrato desta jovem surge num site sobre os Stuarts. Supondo que este quadro fosse de c. 1650, ela teria dezanove anos - o que é verosímil com a fisionomia retratada. Fica a minha dúvida e a minha curiosidade - e aceito sugestões.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A Tabacaria Mónaco


(Lisboa, 2012)
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Não me vou alongar sobre este tema, não só porque já notei que existe muita informação sobre ele na internet, como só agora me apercebi que tenho de entrar nesta Tabacaria logo que tenha uma oportunidade. Na verdade, como sou uma apaixonada pela obra de Rafael Bordalo Pinheiro, fiquei contente em ter visto os azulejos do exterior, sem suspeitar que lá dentro haveria mais para conhecer e admirar.
Resumindo o que descobri na internet, a Tabacaria Mónaco (tal como hoje existe) data de 1894, sendo a obra projectada pelo arquitecto Rosendo Carvalheira. Este arquitecto já foi estudado numa tese de Mestrado, realizada pela minha amiga e historiadora Elsa Mendes, que tem um blogue intitulado Ars Super Omnia.
A Tabacaria tem azulejos de Rafael Bordalo Pinheiro, pinturas de António Ramalho e marcenaria de Frederico Augusto Ribeiro. O imóvel onde este estabelecimento comercial está instalado, no número 21 da Praça D. Pedro IV (Rossio), faz parte da Classificação do Conjunto Baixa Pombalina (Imóvel de Interesse Público) ou do Conjunto Lisboa Pombalina (Em Vias de Classificação para Monumento Nacional) (site da CML). Também no blogue Ruas de Lisboa com Alguma História se falou deste estabelecimento, contando-se que esta Tabacaria já foi distinguida pelas suas tradições literárias e foi centro de cavaqueira de escritores do fim do século XIX e início do século XX, contando-se entre os seus frequentadores figuras eminentes como Eça de Queirós, Rafael Bordalo Pinheiro, João de Deus, Henrique Lopes Mendonça e Fialho de Almeida. O seu proprietário era Júlio César Vieira da Cruz, conhecido como "Cruz", e a casa estava em funcionamento desde 1875.
Para saber mais, consultando o que está disponível na internet (porque certamente outra informação haverá em livro), convido a ver o blogue Coca Bixinhos, o site do Museu Bordalo Pinheiro, o site Monumentos e ainda uma página do António Maria de 18 de Outubro de 1894.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O Carnaval há 100 anos


Imagens de Ilustração Portuguesa, 3 e 10 de Fevereiro de 1913.
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«Nessa extensa linha de carros alguns se apresentaram enfeitados, como o dos reclamos da Casa das Bengalas, do teatro da Avenida (…), e outros de particulares, como os das famílias (…) conduzindo senhoras e crianças, algumas vestidas à moda do Minho, e todas em trajes de côres alegres, misturando se com o vivo colorido das flôres de que se ornavam e, em renhida batalha, arremessavam de uns carros para outros (…) fitas, serpentinas e confetis, como é próprio de Carnaval civilizado».
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in O Ocidente, 10 de Fevereiro de 1913.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O Pensamento Histórico

Signe Scheel, Woman Reading (1896).
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«(…) El pensamiento histórico nos lleva a emitir juicios que nos permiten enfrentarmos al tumultuoso presente com la fuerza que nos dan las experiencias racionalizadas; aunque el juicio en cuanto tal, dando el hecho passado como acabado totalmente, lo fija en su tiempo y su espácio (…). La historia es “catártica” en la medida en que nos assegura que el passado es ya passado y no puede repetirse o retornar (…), confirma la plenitud de nuestra responsabilidad para con el presente (…)».
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Guilio Carlo Argan, «El Revival», in El Pasado en el Presente, Barcelona, Editorial Gustavo Gii, 1977.

domingo, 11 de novembro de 2012

Sé de Lisboa











Sé de Lisboa (2012).
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«(...) A história deve ser estimada em um alto preço, ela graças a quem as palavras, mas também os actos dos nossos predecessores, nunca enterrados no esquecimento dos homens nos foi em grande parte transmitida até á época actual. Só ela deve ser entendida como guardiã diligente e memória fiel dos factos passados (...); esses factos são-nos representados graças a ela e torna-nos, por assim dizer, actual o que o tempo tem costume de destruir (...)». 
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Poggio Bracciolini, «As Ruínas de Roma», Da Inconstância da Fortuna, Livro I, 1448 (impresso em 1510), citado in Françoise Choay, As Questões do Património, Antologia para um Combate, (1.ª ed. Éditions du seuil, 2009), Lisboa, Edições 70, 2011, p. 74.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A Bandeira Republicana


Em Portugal, no dia 5 de Outubro de 1910, foi proclamada a República e é provável que Columbano  Bordalo Pinheiro estivesse entre aqueles de quem João de Barros dizia serem «indiferentes em política», mas que «vibraram perante os últimos acontecimentos políticos», pois recebeu importantes cargos oficiais desde Outubro de 1910.
O artista teria um importante papel no novo regime, por ter ficado envolvido na Comissão que desenhou a nova bandeira portuguesa. No dia 5 de Outubro a bandeira republicana, verde e vermelha, fora levantada em vários locais, tornando-se símbolo da revolução. Contudo, ainda não havia uma bandeira oficial para o país, sendo o assunto bastante discutido. A 29 de Outubro, o Tenente de Engenharia Raul Esteves referia que «De todos os lados chovem propostas acompanhadas dos respectivos projectos». E acrescentava: «Vê-se, portanto, que a dificuldade está só na escolha, e no campo da teoria encontram-se sempre bons argumentos para defender qualquer combinação de symbolos e côres». 
A definição do desenho e das cores da bandeira deu lugar a uma aguerrida polémica que se desenrolou ao longo dos meses de Outubro e Novembro de 1910. Os símbolos associados à bandeira variavam, mas a discussão centrou-se sobretudo em torno das cores. Basicamente foram criados dois partidos: um apoiando-se em ideais estéticos e na tradição, chefiado por Guerra Junqueiro, defendendo as cores azul e branca; outro mais convictamente político e republicano, chefiado por Teófilo Braga, defendendo a combinação verde-rubra. 
As cores verde e vermelha, eram já utilizadas pela Carbonária portuguesa, a qual apresentava um pendão verde-rubro, com o emblema da sociedade ao centro. Estas cores eram também as do Grémio Lusitano, instituição maçónica a que pertenciam muitos dos republicanos portugueses. Contudo, o colorido verde e vermelho não tinha somente origem na Carbonária (ou na Maçonaria), pois durante a Revolta de 31 de Janeiro do Porto, foi levantada a bandeira do Centro Democrático Federal, que era um centro republicano do Porto. Tratava-se de um tecido vermelho tendo ao centro um círculo verde.
Importa notar que a maioria dos intelectuais e artistas defendiam a conservação do azul e branco, mesmo antes de Guerra Junqueiro ter tomado essa posição de um modo oficial, a 18 de Outubro de 1910. Entre aqueles que comungavam dessa opinião encontrava-se o escultor Teixeira Lopes e o escritor Henrique Lopes de Mendonça, que era cunhado de Columbano e autor da letra do hino A Portuguesa. A 12 de Outubro, Lopes de Mendonça propunha que o desenho da bandeira fosse «confiado a alguma auctoridade artistica» e, no dia 16, era notícia que o Ministro do Interior, António José de Almeida «levou a despacho um decreto nomeando uma comissão gratuita, para apresentar ao governo o projecto da bandeira nacional». Essa comissão era composta por Abel Botelho, João Chagas, Columbano, Ladislau Parreira e José Afonso Pala.

Columbano Bordalo Pinheiro, João Chagas, Abel Botelho e Ladislau Parreira, in A Ilustração Portuguesa, 12/12/1910.

A comissão foi responsável, juntamente com Teófilo Braga, que presidia à República, pela materialização da bandeira verde e vermelha, associada ao republicanismo. A Comissão apresentou um primeiro projecto da nova bandeira, semelhante à actual, com as cores verde e vermelha, que foi publicada n’O Século a 30 de Outubro de 1910. Dizia-se que esta era a «bandeira da revolução – vermelha e verde – pois que havia sido por ella que no paiz inteiro, milhares d’individuos haviam sacrificado ventura, paz e tranquilidade, fôra sobre ella que se teriam feito, nas associações secretas, mais solemnes juramentos, desenvolvendo-se sob a sua acção protectora essa obra gigantesca da carbonária: - e (...) fôra a bandeira (...) que no movimento revolucionario do Porto, em 31 de Janeiro de 1891» fora levantada. Deste modo, vencia a «opinião revolucionaria». Acrescentava-se que a «comissão desempenhou-se já do seu mandato, entregando ao governo o seu parecer, de que foi relator o nosso amigo sr. Abel Botelho». De acordo com este projecto, que acabaria por ser modificado, ao centro estaria a «esphera armilar, o escudo das quinas sobrepostas com os sete castellos sobrepujados por uma estrella». 
Em 5 de Novembro, um artigo do Diário de Notícias informava que «O sr. Dr. Theophilo Braga, illustre chefe do governo provisorio da Republica, convidou os seus collegas no governo, a tratar, n’uma sessão especial, a questão da bandeira para ver se deve ou não alterar-se o projecto da comissão (...) que ha dias concluiu e apresentou os seus trabalhos». No dia seguinte, era divulgado um modelo planeado por Teófilo Braga e desenhado pelo seu secretário Levy Bensabat, com as cores verde e encarnada (dividindo o pano em duas metades) mas com um escudo diferente do que viria a ser oficial, pelo facto de ter um losango com uma cruz de Cristo atrás da esfera armilar. No Diário de Notícias, de 9 de Novembro, podia ler-se que Columbano iria apresentar o desenho do emblema da nova bandeira à comissão. Seis dias depois (15 de Novembro), os leitores do mesmo Diário eram informados que Columbano e Teófilo Braga tinham trocado impressões sobre a composição da bandeira. No dia 20 constava que já estava resolvido o modelo da bandeira e a consagração seria feita no dia 1 de Dezembro, junto do monumento aos Restauradores.

Guerra Junqueiro chegou a desenhar um projecto para uma bandeira, onde adoptava as cores azul e branca e conservava o escudo, sobrepujado por uma pequena esfera armilar circundada por cinco estrelas verdes, encarnadas e «ouro». Sabe-se que Junqueiro se reuniu com Teófilo Braga e a Comissão a propósito desta questão, mas como relatou Joaquim Leitão, com alguma ironia, a «commissão (...) ouviu attentamente a exposição brilhantíssima que Junqueiro lhe fez a proposito do seu projecto (...). Entretanto, (...) entendeu não dever alterar o seu parecer primitivo: a bandeira verde e encarnada». Segundo Raul Brandão, o «Junqueiro quer que as cores da bandeira se mantenham, o Columbano e o Teófilo querem-na encarnada e verde. (…) Tinha-se já decidido em conselho de ministros que ficasse azul e branco, mas os carbonários opuseram-se». Por fim, como se disse no Ocidente, «as côres verde e encarnada tinham de triunfar (...) neste momento, em que o espirito da revolução ainda domina (...)». Entre as Comemorações do 1.º de Dezembro em 1910 e a oficialização da bandeira pelos constituintes em 1911, a situação não ficou totalmente resolvida. A escolha era dada como provisória e por isso a Sociedade de Geografia expunha a bandeira de Guerra Junqueiro. A 11 de Dezembro, Bulhão Pato ainda se colocou a favor da bandeira azul e branca: «Tirem-lhe as armas reaes e representará a República».
Columbano dirigiu a publicação oficial, Bandeira Nacional, Modelo aprovado pelo Governo Provisório da República Portuguesa. Segundo algumas palavras atribuídas ao artista, «a bandeira é a parte poética da revolução. E como foi o povo que a impôs, o povo que fez a Republica (...), a elle só lhe compete respeitar a vontade (...). Depois, o encarnado e o verde não se casam tão mal como se disse. A questão está em se encontrar o tecido que convém (...) o verde carregado e o vermelho vivo são as [cambiantes] que melhor se combinam, e para que não se confundam, na bandeira terá o vermelho o dobro do tamanho do verde». Na Cordoaria, onde a bandeira foi confeccionada para a festa de 1 de Dezembro, não havia as cores idealizadas pelo pintor, o que ele lamentava: «Só há o encarnado e o verde-esmeralda. É pena». Columbano também sugeriu a existência de uma faixa branca intercalando o verde e o vermelho de forma a harmonizá-los, mas nada conseguiu nesse sentido perante os revolucionários de 1910. O pintor terá confiado a Varela Aldemira (seu aluno): «Fiz a minha obrigação como pintor, sem perceber de políticas e bandeiras; porque a política não é pintura, nem a pintura se faz com bandeiras».
Independentemente das campanhas, o resultado continuou a favor da bandeira verde e vermelha. Segundo o Decreto n.º 150 de 30 de Junho de 1911, publicado no Diário do Governo, definia-se que a bandeira era bipartida verticalmente em duas cores, «verde-escuro e escarlate, ficando o verde do lado da tralha. Ao centro, e sobreposto á união das duas côres, terá o escudo das Armas Nacionaes, orlado de branco e assentando sobre a esfera armilar manuelina, em amarello e avivada de negro». A divisória entre as duas cores dava, em largura, dois quintos ao verde e três quintos ao vermelho. No relatório oficial de Abel Botelho, o vermelho era símbolo de força e o verde a cor da esperança, demarcando-se deste modo das conotações políticas que ligavam estas cores à Maçonaria e à Carbonária. Por outro lado, a esfera armilar era «o padrão eterno do nosso genio aventureiro, da nossa existencia sonhadora e épica» e deve «deve ser “manuelina”, a occupar o centro da bandeira». O escudo é «symbolo lendario, primacial, da nossa historia (...). E entendemos dever rodear o escudo branco das quinas por uma larga facha carmezim, com sete castellos». Importa notar que o selo da esfera armiliar com o escudo, tal como ficou aprovado, era semelhante ao emblema de D. Maria II, rainha que estava ligada, tal como o seu pai D. Pedro IV, ao estabelecimento do liberalismo em Portugal. Eram símbolos históricos que importava preservar para dar testemunho de um passado glorioso que se desejava ser reavivado.
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Bibliografia: Margarida Elias, Columbano no seu Tempo (1857-1929), Lisboa, FCSH-UNL, 2011 (Tese de Doutoramento).
Ver também: Museu da Presidência da República.