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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Boas entradas em 2016!

(link da imagem)
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«Faltavam cinco minutos para a meia-noite quando a Rita e o José foram buscar uma mão-cheia de passas e saltaram para cima das cadeiras.
Não se podia começar o ano em baixo… O gato, para os imitar, trepou para cima do armário.
Tinham apostado cumprir todas as tradições.
- Por cada passa um desejo – recordou a avó.
- Também é bom ter algum dinheiro no bolso e eu gastei a semanada em cromos… - confessou o José. – E a Rita, essa gulosa, comprou pastilhas… Se não nos derem um euro, passamos o próximo ano na miséria. O pai fez um sorriso um bocadinho amarelo porque detestava superstições. E também ele tinha a carteira bastante vazia depois dos gastos do Natal.
- Vocês acreditam mesmo nisso? Que ideias patetas…
Mas lá deu um euro a cada filho. Tinham eles acabado de meter as moedas nos bolsos quando soaram as doze badaladas.
- Feliz Ano Novo! – exclamaram todos ao mesmo tempo.
Mas a saudação foi abafada pelo estalar dos foguetes.
Lá fora o fogo de artifício iluminava a noite. Clarões vermelhos, cascatas de estrelas douradas, estrelas de luz cortavam o céu.
- Que maravilha! – exclamou a Rita, com o nariz esborrachado contra o vidro. Mas já o Zé tinha ido buscar as tampas das panelas e escancarava a janela da varanda para espantar, lá fora, o ano velho».
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Luísa Ducla Soares, O Livro das Datas, Editora Civilização.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Do medo, da ansiedade e do tempo

Paul Klee, In the beginning (1916)
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O tempo fascina-me. Não só gosto de relógios, calendários e agendas, bem como de toda a parafernália que serve para medir e controlar o tempo; como passo a vida numa constante luta com ele, pelo menos para o entender melhor. Corre quando quero que abrande, abranda quando quero que corra. 

Bill Watterson, Calvin and Hobbes

Por vezes estou em locais onde a única opção é esperar e, espantosamente, o tempo passa relativamente depressa, apesar de eu estar sem nada para fazer. Outras vezes estou à espera de algo ou de alguém, com hora marcada, e parece que cada segundo é uma hora. 

(link)

Quero ser rápida numa tarefa e demoro uma eternidade; tenho tempo de sobra para uma tarefa e faço-a em segundos; ou, julgo que tenho tempo de sobra para uma tarefa, ponho-me a fazer outras coisas e, quando dou por mim, estou com pouco tempo. 

J. K. Rowling, no Harry Potter (e o Cálice de Fogo) refere ainda outra hipótese semelhante:

«It is a strange thing, but when you are dreading something, and would give anything to slow down time, it has a disobliging habit of speeding up.»

No blogue Brain Pickings, num post relacionado com este tema, Maria Popova cita Claudia Hammond:

«Time perception matters because it is the experience of time that roots us in our mental reality. Time is not only at the heart of the way we organize life, but the way we experience it.
(...)
We will never have total control over this extraordinary dimension. Time will warp and confuse and baffle and entertain however much we learn about its capacities. But the more we learn, the more we can shape it to our will and destiny. We can slow it down or speed it up. We can hold on to the past more securely and predict the future more accurately. Mental time-travel is one of the greatest gifts of the mind. It makes us human, and it makes us special.»



Francisco de Goya, Saturno devorando a un hijo (c. 1819–1823, Museo del Prado,Madrid)

Como é perceptível pela citação do Harry Potter e do que atrás ficou dito, muitas vezes o tempo e o medo andam de mãos dadas, chegando a perturbar a concentração no presente e no lugar onde estamos, transportando-nos, através das preocupações, para um futuro mais ou menos próximo. Não me refiro especificamente ao medo provocado pelo terrorismo, embora ele também esteja em causa. 
Refiro-me em particular às pequenas preocupações do dia-a-dia e aos seus problemas que exigem soluções. Muitos problemas, mesmo pequenos, quando somados tornam-se cansativos - pelo menos para mim - aumentam a entropia e perturbam a capacidade de organizar e encontrar soluções. E por vezes parece que nem há tempo para respirar fundo e resolver um de cada vez. Outras vezes nem têm solução no imediato ou em tempo útil. Daí a ansiedade, o suspense, em que uma pessoa se dá por si a perguntar: "que mais irá acontecer?"*

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Mas, do que é legítimo racionalmente (culturalmente, modernamente) ter medo? Há as fobias que podem ser mais ou menos racionais...

(link)

Mas também há medos bem legítimos.

Igualmente no Harry Potter, mas no Prisioneiro de Azkaban, é dita uma frase de que me recordo muitas vezes:

“I see,” said Lupin thoughtfully. “Well, well . . . I’m impressed.” He smiled slightly at the look of surprise on Harry’s face. “That suggests that what you fear most of all is — fear. Very wise, Harry.”

Não me considero nem pessimista, nem realista. Não consigo prever o futuro e por vezes penso que ainda bem que assim é. Mesmo quem acredita nas previsões do futuro (astrológicas ou outras) assume geralmente que o futuro está em aberto. E, por isso, obrigo-me a andar em frente.

(link)

Até porque acho que, como não dá para andar para trás, mais vale ir em frente. E aproveitar o tempo que temos o melhor que conseguirmos.

(link)
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* A frase é de Nicolau Breyner num programa cómico de televisão que deu há muito tempo e de que eu miseravelmente não lembro do nome.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O Carrossel do Zoo

No Zoo de Lisboa
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O carrossel

Rodando no carrossel
subo e desço uma montanha.
No meu cavalo de pau,
A galope, quem me apanha?
À volta, à volta, entre o vento,
o riso, a luz, as canções,
corro entre duas girafas,
seguido por três leões.
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segunda-feira, 27 de julho de 2015

Plantar uma Floresta

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Quem planta uma floresta
Planta uma festa.

Planta a música e os ninhos,
Faz saltar os coelhinhos.

Planta o verde vertical,
Verte o verde,
Vário verde vegetal.

Planta o perfume
Das seivas e flores,
Solta borboletas de todas as cores.

Planta abelhas, planta pinhões
E os piqueniques das excursões.

Planta a cama mais a mesa.
Planta o calor da lareira acesa.
Planta a folha de papel,
A girafa do carrocel.

Planta barcos para navegar,
E a floresta flutua no mar.
Planta carroças para rodar,
Muito a floresta vai transportar.
Planta bancos de avenida,
Descansa a floresta de tanta corrida.

Planta um pião
Na mão de uma criança:
A floresta ri, rodopia e avança.
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http://espaco-horizontes.blogspot.pt/2007/05/plantar-uma-floresta-lusa-ducla-soares.html

domingo, 3 de maio de 2015

Para o Dia da Mãe - Luísa Ducla Soares e Mary Cassatt

Mary Cassatt, Mother Combing Her Child's Hair (1879, Brooklyn Museum, New York)
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Mãe

Mãe,
para ti pintei o Sol
com uma cara, a rir.
Mãe,
para ti colhi a rosa
de pétalas de perfume.
Mãe,
para ti guardei a concha
que traz a voz do mar.
Mãe,
para ti fiz uma estrela
com a prata do chocolate.
Mãe,
há uma régua para medir
o quanto gosto de ti?
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Luísa Ducla Soares, O Livro das Datas
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Mary Cassatt, Baby in His Mother`s arms, sucking his finger (1889, Musée du Louvre, Paris)
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Mary Cassatt, Mother And Child (1889)
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Mary Cassatt, Mother And Child (c.1890)
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Mary Cassatt, Peasant Mother and Child (1894)
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Mary Cassatt, Louise Nursing Her Child (1898, Fondation Rau pour le Tiers Monde)
Mary Cassatt, Young Mother Sewing (1900)
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Mary Cassatt, Motherhood (c.1906)
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Mary Cassatt, Mother And Child (1908)

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Dia de Natal - O Menino Jesus

Círculo de Gérard David, Nossa Senhora em Glória, Políptico da Vida da Virgem - Pormenor do Menino Jesus (1490-1500, Museu de Évora - Link)
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Dia de Natal

Hoje é dia de Natal
Mas o Menino Jesus
Nem sequer tem uma cama,
Dorme na palha onde o pus.

Recebi cinco binquedos
Mais um casaco comprido.
Pobre Menino Jesus,
Faz anos e está despido.

Comi bacalhau e bolos,
Peru, pinhões e pudim.
Só ele não comeu nada
Do que me deram a mim.

Os reis de longe lhe trazem
Tesouro, incenso e mirra.
Se me dessem tais presentes,
Eu cá fazia uma birra.

Às escondidas de todos
Vou pegar-lhe pela mão
E sentá-lo no meu colo
Para ver televisão.
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 Luísa Ducla Soares (Link)
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António de Holanda (atribuído), Horas da Virgem - Natividade (1517-1551, Museu Nacional de Arte Antiga - Link)
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Josefa de Óbidos, Menino Jesus Salvador do Mundo (1660-1670, Museu Nacional de Arte Antiga - Link)
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Seguidor de Josefa de Óbidos, O Menino Jesus Romeiro (séc. XVII, Museu de Aveiro - Link)
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Escultura Indo-Portuguesa, Menino Jesus Bom Pastor (séc. XVII, Museu Grão Vasco - Link)
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Menino Jesus do Silêncio (séc. XVIII, Palácio Nacional de Mafra - Link)
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Menino Jesus como Divino Amor (séc. XVIII, Museu de Évora - Link)
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Coroa e imagem de Menino Jesus (séc. 1.ª metade do XIX, Museu de Évora - Link)
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Barristas portugueses, Menino Jesus (séc. XVIII, Museu Nacional de Machado de Castro  - Link)
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Olaria Alfacinha - Estremoz, Menino Jesus (séc. XX, Museu de Arte Popular - Link)
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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A sombra

Gerda Graff (1914).
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Eu tenho uma amiga, a sombra,
que anda comigo e não fala.
Por mais que eu puxe conversa,
sempre a marota se cala.

Logo que corro para o sol,
estende-se a sombra no chão.
Pisam-na todos os pés
e senta-se nela o cão.

Salta para trás e para a frente,
pula para cima, para o lado,
mas parece que está presa
à sola do meu calçado.

Faz tudo aquilo que eu faço:
macaca de imitação!
Até se lhe dou um estalo
me quer dar um safanão.

Eu sou branco, ela é preta,
Ando em pé, ela deitada.
Mas nunca nos separamos
até ser noite fechada.
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Luísa Ducla Soares, Poemas da mentira e da verdade, Livros Horizonte, 1999.