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sábado, 24 de novembro de 2018

"Mil Novecentos e Oitenta e Quatro"


Não tenho o hábito de fazer "posts" ao fim de semana, nem de fazer recensões críticas. A primeira é por razões de gestão do meu tempo (que não estica ou encolhe conforme me dá jeito); a segunda é porque só fui parar às Ciências Humanas na Faculdade (fiz o curso de Artes Visuais no Secundário), pelo que nunca tive muito treino nesta área da escrita.
Mas vou tentar uma recensão do livro de George Orwell (1903-1950), que li numa tradução portuguesa da Moraes Editores, publicada em 1984 - o livro original data de 1949.
As razões da minha tentativa é porque não consigo dizer que gostei do livro, porque a escrita é densa, quase documental (é cruel de tão fria), a acção é lenta. E sobretudo porque é um livro extraordinariamente assustador, apesar de não ser uma história de terror no sentido clássico. Acho que poucos sãos os livros que li que me deixaram tão deprimida e horrorizada como este.
Contudo, ainda bem que o li. É um livro importantíssimo. E só desejo que nada daquilo se cumpra no presente ou no futuro. A crueldade daquele mundo sem esperança possível (a nenhum nível), é indescritível. É uma distopia sem fugas, que sinceramente só me deixou a pensar no que faria numa situação daquelas.
O que mais me impressionou, confesso, foi a maneira como aquele governo conseguia controlar o pensamento e os sentimentos, aniquilando a família (os filhos a denunciar os pais), a história e a memória: «Tudo se fundia na bruma. O passado era suprimido, essa supressão esquecida, a mentira tornava-se verdade». A capacidade de pensar era controlada através da redução da língua: «Não vês que todo o objectivo da Novilíngua é estreitar a gama do pensamento? Acabaremos por tornar o crimideia literalmente impossível, porque não haverá palavras para o exprimir».
E até a noção de indivíduo, de dignidade, de honra, ou mesmo o direito de amar (outra coisa que não fosse o Partido) era aniquilada. E, talvez, o pior de tudo, era o assumir que se fazia tudo aquilo apenas por amor ao poder, nada mais:
«(...) É tempo de teres uma ideia do que significa o poder. A primeira coisa que deves compreender é que o poder é colectivo. O indivíduo só tem poder na medida em que cessa de ser indivíduo. (...) Sozinho, livre, o ser humano é sempre derrotado. Assim deve ser, porque todo o ser humano está condenado a morrer, que é o maior dos fracassos. Mas se puder realizar uma submissão completa, total, se puder fugir à sua identidade, se puder fundir-se no Partido, então ele é o Partido, e é omnipotente e imortal. A segunda coisa que deves compreender é que o poder é a autoridade sobre todos os seres humanos. Sobre o corpo, mas acima de tudo, sobre a alma (...)».
Conclusão, só espero que nada disto de concretize. E nunca gostei tanto de História (e de poder pensar ou sentir) como depois de ter lido este livro.