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segunda-feira, 16 de julho de 2018

Sobre a Arquitectura


Eduardo Harrington Sena, Poligonal (1954, Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea)
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“A arte é sempre a expressão duma relação do homem com o mundo que o rodeia. A arquitectura é especificamente a expressão duma relação justa com a paisagem e com o mundo social. Fora destas coordenadas só há má arquitectura. 
(...) 
Acima de tudo é preciso evitar a falta de amor. De todas as artes a arquitectura é simultaneamente a mais abstracta e a mais ligada à vida. Aqueles que não amam nem o espaço, nem a sombra, nem a luz, nem o cimento, nem a pedra, nem a cal, nem o próximo, não poderão criar boa arquitectura.” 
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Sophia de Mello Breyner Andresen, “Pelo Negro da Terra e Pelo Branco do Muro”, 1963, in Maria Gonçalves Frazão da Rocha Pinto, A habitação corrente de época pré-industrial em Lisboa: o caso do Bairro da Bica, Dissertação para obtenção do Grau de Mestre, Instituto Superior Técnico, 2013.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

1944

Parabéns para o meu tio, que faz anos hoje!
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José Augusto de Sousa, Balaustrada Sul do Jardim de Malta (1944, Palácio Nacional de Queluz)
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As Fontes 

"Um dia quebrarei todas as pontes 
Que ligam o meu ser, vivo e total, 
À agitação do mundo do irreal, 
E calma subirei até às fontes. 
Irei até às fontes onde mora 
A plenitude, o límpido esplendor 
Que me foi prometido em cada hora, 
E na face incompleta do amor. 
Irei beber a luz e o amanhecer, 
Irei beber a voz dessa promessa 
Que às vezes como um voo me atravessa, 
E nela cumprirei todo o meu ser."
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Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesias I (1944)
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segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Oceanário 2016





Mar Sonoro

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.
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sábado, 2 de abril de 2016

Em louvor da Primavera!

Paul Gauguin, The first flowers (1888)
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«(...) E certa manhã de Abril, Oriana acordou ainda mais cedo do que o costume. Mal o primeiro raio de sol entrou na floresta, ela saiu de dentro do tronco do carvalho onde dormia. Respirou fundo os perfumes da madrugada e fez uns passos de dança. Depois penteou os cabelos com os dedos das mãos a fazerem de pente e lavou a cara com orvalho. - Que manhã tão bonita! - disse ela. - Nunca vi uma manhã tão azul, tão verde, tão fresca e tão doirada. E foi pela floresta fora dançando e dizendo bom-dia às coisas. Primeiro acordaram as árvores, depois os galos, depois os pássaros, depois as flores, depois os coelhos, depois os veados e as raposas. A seguir, começaram a acordar os homens. (...)»
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Sophia de Mello Breyner Andresen, A Fada Oriana.
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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Do Espelho (da Fada Oriana)

Charles Joshua Chaplin,  Reflection
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Três falas do Espelho de A Fada Oriana da Sophia de Mello Breyner:

I
- Eu estava num palácio e em frente de mim havia espaço, espaço, espaço. E o chão era de mármore liso e brilhante. E eu estava no fundo de uma galeria silenciosa e solitária. E contemplava o mudar das horas do dia. (...) Vi, vi, vi. Eu sou um espelho; passei toda a minha vida a ver. As imagens entraram todas dentro de mim. Vi, vi, vi. E agora estou nesta sala onde não há um lugar onde os meus olhos de vidro descansem. Oriana, tira-me daqui e põe-me em frente de uma parede branca, nua e lisa. (...)

II
- Oriana - disse o espelho -, peço-te que tires da minha frente aquela bailarina de Saxe. Estou farto de a ver o dia inteiro sempre com um pé no ar em posição de desequilíbrio. Os meus olhos de vidro não têm pálpebras. Só as noites são as minhas pálpebras. Mas durante o dia nunca posso fechar os olhos .(...)

III
- Oriana - disse o espelho -, sou, como já sabes, um espelho antiquíssimo. Há séculos que todas as meninas bonitas se põem em frente de mim para ver como são e todas querem saber se haverá no mundo alguém mais bonito do que elas. Vê-te bem. És muito bonita, mas há uma coisa muito mais bonita do que tu. 
- O que é? - perguntou Oriana, ansiosamente. 
- Uma parede branca, nua e lisa. 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O cavaleiro da Dinamarca

Desta história, de Sophia de Mello Breyner, escolhi apenas alguns trechos.

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***
«No entanto, a maior festa do ano, a maior alegria, era no Inverno, no centro do Inverno, na noite comprida e fria do Natal. 
Então havia sempre grande azáfama em casa do Cavaleiro. Juntava-se a família e vinham amigos e parentes, criados da casa e servos da floresta. E muitos dias antes já o cozinheiro amassava os bolos de mel e trigo, os criados varriam os corredores, e as escadas e todas as coisas eram lavadas, enceradas e polidas. Em cima das portas eram penduradas grandes coroas de azevinho e tudo ficava enfeitado e brilhante. As crianças corriam agitadas de quarto em quarto, subiam e desciam a correr as escadas, faziam recados, ajudavam nos preparativos. Ou então ficavam caladas e, cismando, olhavam pelas janelas a floresta enorme e pensavam na história maravilhosa dos três reis do Oriente que vinham a caminho do presépio de Belém.
Lá fora havia gelo, vento, neve. Mas em casa do Cavaleiro havia calor e luz, riso e alegria. 
E na noite de Natal, em frente da enorme lareira, armava-se uma mesa muito comprida onde se sentavam o Cavaleiro, a sua mulher, os seus filhos, os seus parentes e os seus criados.»
...

Carl Larsson, Julaftonen (Christmas Eve) (1904–1905) 

«Até que certo Natal aconteceu naquela casa uma coisa que ninguém esperava. Pois terminada a ceia o Cavaleiro voltou-se para a sua família, para os seus amigos e para os seus criados, e disse:
— Temos sempre festejado e celebrado juntos a noite de Natal. E esta festa tem sido para nós cheia de paz e alegria. Mas de hoje a um ano não estarei aqui.
— Porquê? — perguntaram os outros todos com grande espanto.
— Vou partir — respondeu ele. — Vou em peregrinação à Terra Santa e quero passar o próximo Natal na gruta onde Cristo nasceu e onde rezaram os pastores, os Reis Magos e os Anjos. Também eu quero rezar ali. Partirei na próxima Primavera. De hoje a um ano estarei em Belém. Mas passado o Natal regressarei aqui e de hoje a dois anos estaremos, se Deus quiser, reunidos de novo.»
...

(imagem daqui)

... passado 1 ano:
«Quando chegou o dia de Natal, ao fim da tarde, o Cavaleiro dirigiu-se para a gruta de Belém. Ali rezou toda a noite. Rezou no lugar onde a Virgem, São José, o boi, o burro, os pastores, os Reis Magos e os Anjos tinham adorado a criança acabada de nascer. E, quando na torre das Igrejas bateram as doze badaladas da meia-noite, o Cavaleiro julgou ouvir, num cântico altíssimo cantado por multidões inumeráveis, a oração dos Anjos: 
"Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade".
Entáo desceu sobre ele uma grande paz e uma grande confiança e, chorando de alegria, beijou as pedras da gruta.»
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(imagem daqui)

... no regresso a casa, passados 2 anos:
«Mais adiante ouviu-se o ronco dum urso. 
O Cavaleiro estacou a sua montada e a fera aproximou-se. Vinha de pé e pousou as patas da frente no pescoço do cavalo.
O homem ouviu-o respirar, sentiu o seu pêlo tocar-lhe a mão e viu a um palmo de si o brilho dos pequenos olhos ferozes.
E em voz alta disse:
— Hoje é noite de trégua, noite de Natal.
Então o bicho recuou pesadamente e grunhindo desapareceu.
E o Cavaleiro entre silêncio e treva continuou a caminhar para a frente.
Caminhava ao acaso, levado por pura esperança, pois nada via e nada ouvia. As ramagens roçavam-lhe a cara e caminhava sem norte e sem oriente.»
...

(imagem daqui)

«Rezou a oração dos Anjos, o grande grito de alegria, de confiança e de aliança que numa noite antiquíssima tinha atravessado o céu transparente da Judeia. As palavras ergueram-se uma por uma no puro silêncio da neve:
— Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.
Então na massa escura dos arvoredos começou ao longe a crescer uma pequena claridade.»
...

(imagem daqui)

«A luz continuava a crescer e à medida que crescia, subindo do chão para o céu, ia tomando a forma dum cone.
Era um grande triângulo radioso cujo cimo subia mais alto do que todas as árvores.
Agora toda a floresta se iluminava. Os gelos brilhavam, a neve mostrava a sua brancura, o ar estava cheio de reflexos multicolores, grandes raios de luz passavam entre os troncos e as ramagens.
— Que maravilhosa fogueira — pensou o Cavaleiro —. Nunca vi fogueira tão bela.
Mas quando chegou em frente da claridade viu que não era uma fogueira. Pois era ali a clareira de bétulas onde ficava a sua casa. E ao lado da casa, o grande abeto escuro, a maior árvore da floresta, estava coberta de luzes. Porque os anjos do Natal a tinham enfeitado com dezenas de pequeninas estrelas para guiar o Cavaleiro.»
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Sophia de Mello Breyner, O Cavaleiro da Dinamarca, Ed. Figueirinhas.


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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Natal IV: Pinheiro ... e votos de Feliz Natal!

Paul Klee, Pinheiro bravo, Kiefer (1932 - exposto em Lisboa em 1972)
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«Há muitos anos, há dezenas e centenas de anos, havia em certo lugar da Dinamarca, no extremo Norte do país, perto do mar, uma grande floresta de pinheiros, tílias, abetos e carvalhos. Nessa floresta morava com a sua família um Cavaleiro. Viviam numa casa construída numa clareira rodeada de bétulas. E em frente da porta da casa havia um grande pinheiro que era a árvore mais alta da floresta.»
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Sophia de Mello Breyner Andresen, O Cavaleiro da Dinamarca (link para o texto completo)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Novembro

Carl Gustav Carus, Autumn Landscape, Hosterwitz
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Novembro

A respiração de Novembro verde e fria
Incha os cedros azuis e as trepadeiras
E o vento inquieta com longínquos desastres
A folhagem cerrada das roseiras
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quinta-feira, 13 de março de 2014

A Forma Justa

Paul Klee, Dream City (1921)
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A Forma Justa

Sei que seria possível construir o mundo justo 
As cidades poderiam ser claras e lavadas 
Pelo canto dos espaços e das fontes 
O céu o mar e a terra estão prontos 
A saciar a nossa fome do terrestre 
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia 
Cada dia a cada um a liberdade e o reino 
— Na concha na flor no homem e no fruto 
Se nada adoecer a própria forma é justa 
E no todo se integra como palavra em verso 
Sei que seria possível construir a forma justa 
De uma cidade humana que fosse 
Fiel à perfeição do universo 

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco 
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo 
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sábado, 25 de janeiro de 2014

As Sereias, a Sereiazinha e a Menina do Mar

Capitel Românico com sereias e peixe (século XIII, Museu de Alberto Sampaio - Link)
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«Todos os seres circulam uns nos outros, por conseguinte todas as espécies… tudo está num fluxo perpétuo… Todo o animal é mais ou menos homem; todo o mineral é mais ou menos planta; toda a planta é mais ou menos animal. Não há nada de preciso no que respeita a natureza…»
Denis Diderot, 
Citado por Cátia Mourão (2008 - Link).
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John William Waterhouse, A Mermaid (1900 - Link)
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Inicialmente, julgava-se que as sereias eram metade humanas, metade aves. Contudo, no período tardio da Antiguidade Clássica, passaram a ser concebidas como metade humanas, metade peixe, ou, como escreveu Cátia Mourão, «o hibridismo zoomórfico passeriforme começou a ceder lugar ao ictioforme». Esta historiadora, na sua tese de Douramento (2008), verificou que esta alteração poderá ser devida ao facto de se considerar que o deus fluvial Aqueloo era comummente considerado como o pai das sereias. Para além disso, a mesma historiadora notava que todos os autores antigos referiam que as sereias «viviam num meio ligado à água e que tinham nesta o seu campo de actuação principal». Existe também a possibilidade, levantada na mesma investigação, de ter existido uma contaminação iconográfica com outras divindades gregas e sírias. Foi na Idade Média que se deu a transformação definitiva das sereias em «híbridos antropo-ictiomórficos», surgindo dessa forma em iluminuras e capitéis esculpidos, tal como no da Catedral de Sainte Eulalie d'Elne, em França, datado do Séc. XI. Embora fossem criaturas de conotação negativa, com o tempo, passaram a ser entendidas cada vez mais como seres pacíficos e de conotação positiva, verdadeiros elos de ligação entre a humanidade e a vida marinha.
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Edmund Dulac, The Mermaid - The Prince (1911 - Link)
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«The Sea King had been a widower for many years, and his aged mother kept house for him. (...) She was, however, deserving of very great praise, especially for her care of the little sea-princesses, her grand-daughters. They were six beautiful children; but the youngest was the prettiest of them all; her skin was as clear and delicate as a rose-leaf, and her eyes as blue as the deepest sea; but, like all the others, she had no feet, and her body ended in a fish's tail. All day long they played in the great halls of the castle, or among the living flowers that grew out of the walls. (...) Outside the castle there was a beautiful garden (..). Each of the young princesses had a little plot of ground in the garden, where she might dig and plant as she pleased. One arranged her flower-bed into the form of a whale; another thought it better to make hers like the figure of a little mermaid; but that of the youngest was round like the sun, and contained flowers as red as his rays at sunset. She was a strange child, quiet and thoughtful; and while her sisters would be delighted with the wonderful things which they obtained from the wrecks of vessels, she cared for nothing but her pretty red flowers, like the sun, excepting a beautiful marble statue. It was the representation of a handsome boy, carved out of pure white stone, which had fallen to the bottom of the sea from a wreck. (...)» 
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Hans Christian Andersen, The Little Mermaid (1837 - Link)
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Rene Lalique, Sea Girl Statuette (1919 - Link)
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«Com muito cuidado para não fazer barulho levantou-se e pôs-se a espreitar escondido entre duas pedras. E viu um grande polvo a rir, um caranguejo a rir, um peixe a rir e uma menina muito pequenina a rir também. A menina, que devia medir um palmo de altura, tinha cabelos verdes, olhos roxos e um vestido feito de algas encarnadas. E estavam os quatro numa poça de água muito limpa e transparente toda rodeada de anémonas. E nadavam e riam».
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Sophia de Mello Breyner Andresen, A Menina do Mar (1958 - Link)
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Bibl. Cátia Mourão, AVTEM NON SVNT RERVM NATVRA, Figurações heteromórficas em mosaicos hispano-romanos, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Dissertação de Doutoramento em História da Arte da Antiguidade, 2010.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Para o Dia da Árvore e da Poesia

Paulo Galindro (Link)
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Sophia de Mello Breyner Andresen, «Poesia e Realidade»:

«A Poesia existe em si - independente do homem. Realidade das coisas, ela existe mesmo onde ninguém a vê e onde ninguém a conhece».
(...)
«Pois a Poesia é a própria existência das coisas em si, como realidade inteira (...)»

«A poesia é a relação do homem com a Poesia (...)».
«(...) A verdadeira ânsia dos poetas é uma ânsia de fusão e de unificação com as coisas».
(...)

«O poema vem como um intermediário, é ele que torna possível que a poesia não se quebre contra os seus próprios limites. Podemos dizer por isso que o poema é liberdade».
(...)
«O poeta vê a Poesia, vive a poesia e faz o poema».

«A poesia e a poesia não são criação. São realidade e vivência. Porém o poema é criação, é um objecto a mais no mundo, uma realidade entre as realidades».
(...)
«O poema aparece, porque é necessário à existência do poeta (...)».
«O poema aparece como um medianeiro. Aparece ao lado da lacuna, que impede a união absoluta com a Poesia. É uma forma de tornar total o que estava incompleto».
«(...) Não podendo atingir a união absoluta com a realidade, o poeta faz o poema onde o seu ser e a realidade estão indissolúvelmente unidos».
«Por isso o poema é o selo da aliança do homem com as coisas».
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In Colóquio, n.º8, Abril de 1960, pp. 53-54.

sábado, 3 de novembro de 2012

«As Idades do Mar» em Exposição da Gulbenkian

Noronha da Costa, Do Subnaturalismo ao Sobrenaturalismo (Pintura Fria) (1988, Centro de Arte Moderna, Lisboa).
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«Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim, 
A tua beleza aumenta quando estamos sós 
E tão fundo intimamente a tua voz 
Segue o mais secreto bailar do meu sonho, 
Que momentos há em que eu suponho 
Seres um milagre criado só para mim». 
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Sophia de Mello Breyner Andresen, «Dia do Mar», in Obra Poética I, Caminho, p. 84 (in Etnografia das Circunstâncias).

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Praia

Irene Vaz Serra de Moura.
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Praia
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Na luz oscilam os múltiplos navios 
Caminho ao longo dos oceanos frios 

As ondas desenrolam os seus braços 
E brancas tombam de bruços 

A praia é lis e longa sob o vento 
Saturada de espaços e maresia 

E para trás fica o murmúrio 
Das ondas enroladas como búzios. 
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domingo, 11 de julho de 2010

Quem és tu

Pintura de Bouguereau, L'Amour et Psyche, enfants.
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 Quem és tu

Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.
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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Tempo de praia

 Pintura de António Carneiro, Onda do Mar (1912, Palácio do Correio Velho).
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Paisagem

Passavam pelo ar aves repentinas
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde,a terra escura.
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheiros onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
A sua exaltação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo
Cuja voz ,quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.
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sexta-feira, 30 de abril de 2010

Maio

Gravura de Eugène Grasset, Mai, in Les Mois (1896, Davidson Galleries).
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Primavera
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Primavera que Maio viu passar
Num bosque de bailados e segredos
Embalando no anseio dos teus dedos
Aquela misteriosa maravilha
Que à transparência das paisagens brilha.
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Gaspar

Pintura de Gentile da Fabriano, Adoração dos Magos (1423, Museu dos Uffizi, Florença).
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«Tinha na cabeça uma coroa de brilhantes e dos seus ombros caía um grande manto vermelho coberto de muitas esmeraldas e safiras.
- Boa noite - disse ela -. Chamo-me Joana e vou com a estrela.
- Também eu - disse o rei -, também eu vou com a estrela e o meu nome é Gaspar».
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Sophia de Mello Breyner Andresen, A Noite de Natal (1959).

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Baltasar


Pintura de Vasco Fernandes (Grão Vasco), Adoração dos Magos (1501-1506, Museu de Grão Vasco, Viseu).
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Esta pintura é uma curiosidae iconográfica da pintura portuguesa porque o Rei Mago negro é figurado por um índio brasileiro, o que remete para a descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral, em 1500.
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«Tinha na cabeça um turbante branco e dos seus ombros caía um longo manto verde bordado de pérolas. A sua cara era preta.
- Boa noite - disse ela. - O meu nome é Joana. E vamos com a estrela.
- Também eu - disse o rei - caminho com a estrela e o meu nome é Baltasar».
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Sophia de Mello Breyner Andresen, A Noite de Natal (1959).

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Melchior


Pintura de Domingos Sequeira, Adoração dos Magos (1828)
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«Mas o vulto parou na sua frente e ela viu que era um rei. Tinha na cabeça uma coroa de oiro e dos seus ombros caía um longo manto azul todo bordado de diamantes.
- Boa noite - disse Joana.
- Boa noite - disse o rei -. Como te chamas?
-Eu, Joana´- disse ela.
- E chamo-me Melchior - disse o rei».
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Sophia Sophia de Mello Breyner Andresen, A Noite de Natal (1959).

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A Estrela de Natal


Imagem de Robert M. Lewis, Chistmas Star (2001).
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«"Como é que hei-de encontrar o caminho?", perguntava ela.
E levantou a cabeça.
Então viu que no céu, lentamente, muito lentamente, uma estrela caminhava. "Esta estrela parece um amigo", pensou ela.
E começou a seguir a estrela.»
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Sophia de Mello Breyner Andresen (A Noite de Natal).