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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Da prosaica lógica da batata

Camille Pissarro, Potato harvest (1885)
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Em tempo de comer batata doce, apesar de não ter encontrado explicação para a expressão "lógica da batata", trago uns excertos de um texto publicado em 1984, no Colóquio Artes (n.º 63, Dezembro), da autoria de Alfredo Margarido, e intitulado «O pouco e difícil simbolismo da batata».
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William Merritt Chase, The Potato Patch (c. 1893)
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«(…) A tríade das plantas ligadas aos mitos, sagrados ou não, é constituída no Mediterrâneo, pela vinha, pela oliveira e pelo trigo. (…)»
«Não é por isso de admirar (…), que não haja um grande número de representações da batata, nem sequer nos manuais ou nos tratados de botânica. A primeira conhecida aparece no frontispício do Herball onde Gerard se fez representar com um ramo florido na mão, em 1586. A segunda é uma aguarela de 1589, actualmente no Museu Plantin de Anvers. (…)»
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Walter Langley, Old Woman Peeling Potatoes
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«Estamos assim perante a explicitação da regra enunciada um pouco mais atrás: se as plantas não ocupam um espaço simbólico, se não são necessárias ao grupo, seja em termos religiosos seja em termos alimentares, estas não são representadas. (…)»
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Albert Anker, Girl Peeling Potatoes
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«Esta situação altera-se substancialmente a partir do século XIX, isto é, a partir do momento em que começa a propaganda da cultura e do consumo da batata. (…)»
«É verdade que este facto se verifica num panorama mais amplo, marcado pelo acesso ao Salão parisiense de 1831, de uma pintura profundamente marcada pela importância das alterações sociais iniciadas com a Revolução de 1789 (…).»
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Jean-François Millet, Title The Potato Harvest (1855, Walters Art Museum)
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«A primeira aparição da batata regista-se na obra de Joseph Millet (…). Deve todavia notar-se que a batata não aparece ligada à paisagem: contrariamente ao trigo, que pode ser representado sem a mínima presença humana (…), a batata só existe em função do trabalho (…).»
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Vincent van Gogh, Magyar: Krunplievők (The Potato Eaters) (1885, Van Gogh Museum)
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«Quer dizer que a batata é portadora de um enunciado cultural particular, dado que o tubérculo era particularmente destinado ao consumo popular, reduzindo assim de maneira sensível o défice de cereais que tanto marcou a Europa já no fim do século XIX (…).»
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Jules Bastien-Lepage, Saison d'Octobre: Recolte des pommes de terre (1879, National Gallery of Victoria)
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«De resto, todas estas telas mostram a justeza de uma observação de Balzac, numa passagem de Les Paysans, onde é sublinhado o carácter plasticamente pouco ou nada interessante do mundo camponês, caracterizado por cores cruas, onde abundam os castanhos, ou as cores aparentadas. Circunstância provocada, como é sabido, pelo recurso às fibras clássicas (lã, linho e cânhamo) utilizadas tal qual, sem recurso aos pigmentos industriais. Ora a monotonia das figuras é reforçada pela dos gestos do trabalho, repetitivos, assim como pela instalação doméstica.»
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Vincent van Gogh, Basket of potatoes (1885, Van Gogh Museum, Amsterdão)
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«(…) No caso da batata, a pintura só se ocupa do tubérculo, da sua produção e do seu consumo no período extremamente curto que preside à generalização do consumo, no momento em que a batata é geralmente considerada como o “pão dos pobres”. (…)»
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José Julio de Souza Pinto, La récolte des pommes de terre (1898, Musée d'Orsay, Paris)
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«(…) A carga mítica do trigo não poderá jamais ser igualada pela batata. O que mostra também a que ponto a nossa pintura está directamente associada aos meandros mais íntimos da história cultural europeia (…).»
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Vincent van Gogh, Peasant Woman Peeling Potatoes (1885)
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Obviamente, este texto concentra-se no simbolismo da batata na cultura europeia e ocidental. Contudo, a sua história é bem mais antiga do que a chegada dos europeus à América. De acordo com o site Encyclopedia.com, a batata foi originalmente domesticada nos Andes, sendo com os Incas que o seu potencial foi mais desenvolvido. Este povo descobriu como fazer um preparado com as batatas desidratadas, transformando-o numa substância que apelidavam de chuno. Este preparado era conservado e usado em tempos de necessidade e era tão precioso que os Incas o usavam como moeda de troca. Acreditava-se que as batatas tinham poderes curativos, nomeadamente na prevenção do reumatismo.
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Natalia Goncharova, Planting potatoes (1908-1909)
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Chegadas à Europa as batatas não receberam um acolhimento caloroso, até os espanhóis perceberem que eram ideais para os marinheiros, pois eram ricas em vitamina C. No entanto, foram vistas com desconfiança pela generalidade das pessoas, porque para além do seu aspecto inestético (e serem inicialmente pequenas e amargas), não eram mencionadas na Bíblia e por isso eram vistas como obra do diabo. Os irlandeses plantavam-nas à Sexta-feira Santa e aspergiam-nas com água benta.
Este meu resumo é muito simplista, pois o tema é mais complexo. Para saber mais detalhes, ver:
Berzok, Linda Murray. "Potato." Encyclopedia of Food and Culture. 2003.Encyclopedia.com. 20 Nov. 2015 <http://www.encyclopedia.com>.
Por curiosidade, acrescente-se que a batata doce foi mais facilmente aceite na cultura ocidental, como é referido no artigo A Brief History of the Sweet Potato: «sweet potato immediately became a rare and expensive delicacy».
Noutro artigo do site Folclore de Portugal conta-se que no «século XIX, a batata doce foi cultivada em grande escala nos Açores e na Madeira, de tal forma que ainda faz parte da gastronomia local. O Algarve é outra dessas regiões onde a batata doce tem-se afirmado. Um ditado popular diz:"Um Olhanense passava / Muito bem para onde fosse / Com um prato de xerém / E uma batatinha doce."». Nesse texto refere-se ainda que Aljezur é desde há séculos afamada como a 'terra da batata doce'.
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Nos Estados Unidos, o Thanksgiving este ano será dia 26, na próxima semana. Tradicionalmente inclui puré de batata.
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sexta-feira, 8 de maio de 2015

Da Pintura Naturalista no Museu Condes de Castro Guimarães

Columbano Bordalo Pinheiro, Limpando os metais (1903)
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João Vaz, Marinha
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João Vaz, Sem título (marinha com naus) (1889)
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António Silva Porto, Lugar da Penha, margem do Tejo (1893)
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José Júlio de Sousa Pinto, O pescador (1939)
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 José Júlio de Sousa Pinto, O hóspede inconsolável (1884)
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Alves Cardoso, Saboreando o cacho (1922)
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Link

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A colheita

António de Holanda (atr.), Calendário (mês de Agosto) (1517-1551, MNAA - Link)
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Silva Porto, A salmeja (1884, MNAC - Link)
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Silva Porto, Ceifeiras - Lumiar (1893, MNSR - Link)
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Sousa Pinto, A colheita do trigo em Fourchanville (1932, MNAC - Link)
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Falcão Trigoso, Azeite e pão (MNAC - Link)
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Dordio Gomes, A sesta dos ceifeiros (Alentejo) (1918, MNAC - Link)
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Azulejo (1950-1960, MNA - Link)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Rosto e Paisagem

 
Sousa Pinto, A Pequena Guardadora de Vacas. 
Créditos da imagem: http://arte-numeros.blogspot.com (7 de Novembro de 2008)
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«Or le visage a un corrélat d'une grande importance, le paysage...».
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Gille Deleuze e Félix Guattari (1980).
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sexta-feira, 15 de maio de 2009

A propósito de Sousa Pinto

Pintura de José Julio de Sousa Pinto, La récolte des Pommes de Terre (1898, Museu d'Orsay).
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Que eu saiba, existem duas obras de pintores portugueses no Museu d'Orsay, em Paris. Uma é esta de Sousa Pinto, a outra é uma natureza morta de Columbano. Sempre achei que eram boas pinturas do Naturalismo, sobretudo esta, que estava perfeitamente ao nível de outras que eram feitas na mesma época. Obra de grande qualidade pictórica, quer ao nível técnico quer ao nível de representação da realidade visível, quer em termos compositivos, lembra-me obras de Bastien-Lepage. Sempre achei errado que outros artistas estivessem expostos e os portugueses ficassem nas reservas. Fiquei feliz quando ontem me apercebi que esta obra de Sousa Pinto chamou a atenção de alguém que fez uma exposição sobre Bastien-Lepage, em Paris, e assim ganhou o direito de ter o reconhecimento que merece. É que, se o final do Século XIX e o início do Século XX, em Portugal, não trouxeram à arte europeia grande inovação - até à obra de Amadeu de Sousa Cardoso - existiram no nosso país bons pintores, que não ficavam atrás de outros artistas famosos na época e que têm sido agora mais respeitados. Além de Sousa Pinto, ou de Columbano, cito sobretudo Henrique Pousão.
Sendo amanhã o dia dos Museus, é bom lembrar a arte portuguesa. E é também importante lembrar o Museu de Arte Popular que está fechado, mas que se quer reaberto.
Como escreveu Joel Serrão:
«Em última instância, a política postula uma tomada de posição acerca dos fins da vida humana e acerca do que se deve entender por «homem» e pelo seu bem».
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Margarida Elias.