segunda-feira, 24 de julho de 2017

Agriões

Caillebotte, Nasturiums (1892)
-
«Imagine-se uma boca de mina, aberta na base de pequeno outeiro, que, todo abandonado de pinheirais, se prolongava à distância, na direcção do norte da aldeia; uma telha, meio quebrada, servindo de bica; e, a receber o abundante e inesgotavel jorro de água límpida, a bacia natural, por ele mesmo cavada, e onde à vontade vegetavam os agriões, ávidos de humidade.
-
Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor, Lisboa, Edições Amigos do Livro, pp. 196-197.
-
Alfredo Roque Gameiro, As Pupilas do Senhor Reitor
-
Há cerca de oito anos, a propósito da pintura Nasturiums de Caillebotte, andei à procura de uma citação decente que falasse em agriões e nada encontrei. Recentemente li As Pupilas do Senhor Reitor e lá estavam os agriões na fonte natural, que diziam ser de água milagrosa, num dos momentos cruciais da história. Devido a isso, decidi recuperar a pintura de Caillebotte, desta vez acompanhada de Júlio Dinis e de Roque Gameiro.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

(Re)descobertas VI / Afinidades VIII

Antonio del Pollaiolo, L'Assunzione di santa Maria Maddalena (o Comunione mistica) (c. 1457, Museo della Pala del Pollaiolo, Staggia Senese)
-
Donatello, Madalena Arrependida (1453-1455, Museu dell'Opera del Duomo, Florença)
-
«La santa è emaciata, coperta dai lunghi capelli come la Madalena di Donatello (...).»
Argan, Storia dell'Arte Italiana, Vol. II, p. 223.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Termos de Arte e Arquitectura - Abside

-

«Estrutura arquitectónica de planta semicircular, poligonal, quadrada ou lobular; coberta por uma meia cúpula. Já difundida na época romana (...). Vulgarmente, nas igrejas cristãs a abside é colocada no final da nave central, atrás do altar-mor; geralmente, contém o coro, mas também pode coroar as naves laterais e o transepto. A partir da época românica, enriquece-se com corredor (deambulatório) que se desenvolve à volta da capela-mor e que estabelece comunicação com pequenas absides (absidíolos) dispostas radialmente (igrejas cluniacenses e borgonhesas). Esta última estrutura é característica, também, das igrejas góticas (...).» - in Dicionário de Termos Artísticos e Arquitectónicos, Público, 2006, p. 10.

Mário Novais, Igreja da Graça (séc. XIV-XV, Santarém)
-
«O fundo da nave central das basílicas romanas e paleocristãs ou das igrejas românicas, recinto semicircular fechado por uma parede semicilíndrica e coberto por uma abóbada de concha, ou quarto de esfera. Por analogia, passou a designar-se assim a parte central da cabeceira das igrejas, onde estava a capela-mor, mesmo que a parede não fosse redonda.» - in Tesouros Artísticos de Portugal, p. 645

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Da Colecção Berardo no CCB

Aqui ficam algumas das obras, entre as que mais gostei.
-
Amadeo de Souza-Cardoso, Pelas Janelas (Desdobramento - Intersecção) (1914)
-
Maria Helena Vieira da Silva, Composition (1948)
-
Man Ray, Café Man Ray (1948)
-
-
Art & Language, Secret Painting (Ghost) (1968)
Diz aqui: «The content of this painting is invisible; the character and dimension of the content are to be kept permanently secret, known only to the artist.»
-
Patrick Caulfield, Lit Window (1969)
-
Robert Gober, Dollhouse 3 (1978)
Esta fotografia é minha, tirada com o telemóvel, por isso está fraquinha. Na página da Colecção Berardo tem uma fotografia a preto e branco.
 -
Jesus Rafael Soto, Cacique (1983)
Esta obra (em cima) foi a que o meu filho mais gostou.
-
Jeff Koons, Bob Tail (1991)
-
A minha fotografia mostra outra perspectiva:
-
Frank Stella, The Broken Jug (1999)
A minha fotografia é um detalhe da escultura.
-
Ângelo de Sousa, Sem título (1964-2005)
Miguel Palma, Google Plane (2008)
No site da Colecção há outra perspectiva do mesmo avião:
Segundo o que está na legenda, este avião, se voasse, seria invisível: quem o visse de baixo confundia-o com o céu, quem o visse de cima confundia-a com a terra.

terça-feira, 18 de julho de 2017

E barcos

Claude Monet, Fishing Boats at Honfleur (1868)
-
Joaquín Sorolla y Bastida, Camino de la pesca. Valencia (1908)
-
-
Egon Schiele, Il porto di Trieste (1907, Leopold Museum Viena)
-
Anna E. Munch, Sildebådene i Kerteminde Havn (1918, Østfyns Museer - Johannes Larsen)

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Cesariny e o mar

Mário Cesariny, Linha de Água
-
Esta pintura estava no ano passado na galeria O Rastro (Figueira da Foz). Achei-a muito interessante, não só porque gostei dela, mas também porque me pareceu inesperada entre aquilo que conhecia da obra de Cesariny (1923-2006).
Foi aluno da Escola de Artes Decorativas António Arroio (1936-1943) e da Faculdade de Arquitectura. Em 1947, visitou Paris, conheceu André Breton, tendo participado na fundação do Grupo Surrealista de Lisboa. Afastou-se desse grupo no final de 1948, para formar um novo grupo, Os Surrealistas. Começou por pintar como complemento à poesia, mas posteriormente dedicou-se sobretudo à pintura. - Cf. Matriznet.
Uma outra pintura que está no CAM (FCG) relaciona-se com a que vi na Figueira da Foz:
 
-
Encontrei ainda este poema:
 
Romance da Praia de Moledo
Canto da hora do banho

ó mar contente, tão frio
que o verde das ondas é neve
fazes meu corpo tão leve,
no ar, vazio!

meus seios, cabelos, tudo é brando!
na mão do mar talhado cerce
vou, como se a um velho comando
desobedecesse!

e raia de leve um sol macio
que ainda não amadurou
frio
de manhã forte e silente
as minhas mãos nem são de gente
são formas de água, de neve
sobre o maillot
-
Mário Cesariny
In http://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/1288066.html

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Pátio do Bonfim

A porta costuma estar fechada, mas outro dia apanheia-a aberta. Como adoro pátios lisboetas, não perdi a oportunidade:
 
 
Como diz na entrada (não aprofundei muito), é um pátio do século XVIII, que nesse século era conhecido por Pátio das Secretarias, porque ali funcionaram as secretarias de Estado no tempo do Marquês de Pombal. No século XIX, habitou aqui o 2.º Conde de Bonfim, José Lúcio Travassos Valdez (1787-1862), que deu o actual nome ao Pátio. Numa das casas viveu Rodrigo Vicente de Almeida (1828-1902), bibliotecário da Ajuda, que teve como amigo e mestre Alexandre Herculano. Sobre este tema, ver, por exemplo: «Casa na Calçada da Ajuda, n.º 234 / Pátio do Bonfim» in Monumentos.gov.pt.





quinta-feira, 13 de julho de 2017

(Re)descobertas V

É uma das pinturas que mais me intriga na história da arte, a Madonna col Bambino, santi, angeli e il duca Federico da Montefeltro (pala di Breara) de Piero della Francesca (1475, Pinacoteca di Brera, Milão):


-
«L'uovo è una forma ricca di significati simbolici; ma qui sta a indicare che nulla è tanto piccolo da non rientrare in una proporzione universale (...)».
-
Argan, Storia dell'Arte Italiana, Vol. II, p. 220.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Jessie Arms Botke (1883-1971)

Uma pintora que descobri recentemente e de que gosto muito. Aqui ficam algumas obras dela, nomeadamente com pássaros, que são as minhas preferidas:
 
Ducks (1920)
-
-
-
-

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Termos de Arte e Arquitectura - Abóbada

Sé de Lisboa - abóbada de berço
-
«Cobertura de um espaço, ou de parte dele, em forma de arco que descarrega na terra, através dos pés-direitos ou espaldas, o peso que comporta. (...) A chave é o plano mais alto da abóbada. De acordo com as diferentes formas, distinguem-se vários tipos de abóbada. A abóbada de berço, que representa o desenvolvimento contínuo de um arco romano, é constituída por uma estrutura semilicilíndrica que se apoia em dois muros paralelos onde descarrega o peso. A abóbada de arestas nasce do cruzamento de duas abóbadas de berço e é formada por quatro compartimentos, chamados panos, divididos uns dos outros por nervuras de alvenaria (...). Estes dois tipos de abóbadas são os mais comuns. (...)» - in Dicionário de Termos Artísticos e Arquitectónicos, Público, 2006, pp. 8 e 10.
-
Palladio, Palazzo della Ragione - abóbada de arestas
-
Abadia de Bath - abóbada de leque
-
-
Leonardo Vaz, Refeitório do Mosteiro dos Jerónimos (1517-1518) - abóbada abatida
-
Cf. também Tesouros Artísticos de Portugal, p. 645.
-
-

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Passeando pelo Palácio Nacional da Ajuda

Não irei agora entrar com detalhes sobre a história deste Palácio, sabendo-se que é um edifício iniciado em 1795, mas que nunca foi concluído (daí ter uma parte inacabada e arruinada), inicialmente devido às Invasões Francesas, em 1808. As obras ainda decorreram entre 1813 e 1820, mas só foi concretizado 1/4 do projecto inicial. É, segundo Paulo Varela Gomes*, uma «das maiores semi-ruínas do País», um «dos grandes projectos arquitectónicos das últimas décadas do século XVIII» que «assinalam a altura a que tinham chegado as esperanças dos anos de 1790... que foi a altura de onde Portugal de repente caiu.» (Gomes, 2009, 7 e 14) O projecto inicial do Palácio coube a Manuel Caetano de Sousa, sendo depois reformulado, em 1802, por Francisco Xavier Fabri e José da Costa e Silva. (cf., na internet, por exemplo o artigo da Wikipédia).
* Paulo Varela Gomes, Expressões do Neoclássico, in Dalila Rodrigues (Coord.), Arte Portuguesa, da Pré-História ao Século XX, Vol. XIV, Fubu Editores, 2009.
-


-
Outro dia fui passear por lá, vendo-o apenas por fora, porque já não eram horas de visita (gostava de um dia o visitar por dentro). Fascinaram-me sobretudo as esculturas, que, posteriormente, em conversa com uma amiga, que é historiadora de arte (Cátia Mourão) descobri que eram inspiradas na Iconologia de Cesare Ripa.

Amor da Virtude
 
Anúncio Bom



 Inocência


Machado de Castro, Gratidão

Constância

Machado de Castro, Conselho
-
Não tendo agora oportunidade para desenvolver o assunto, já fiz alguma pesquisa sobre a alegoria do Conselho, que foi aquela que me intrigou mais. Pude constatar que as três cabeças que ele indica, com a mão esquerda, são um cão, um leão e um lobo, significando o passado, o presente e o futuro, tema que também aparece numa alegoria de Ripa e numa pintura de Ticiano, Alegoria da Prudência (1565-1570, National Gallery de Londres). 
Foram sete os autores das esculturas que representam alegorias das Virtudes (c. 1804- c. 1830). Entre esses escultores destacam-se Machado de Castro e João José de Aguiar. As esculturas estão assinadas, mas na altura não assentei os nomes (e tenho pouca literatura em casa sobre o assunto, para poder investigar facilmente). Como me interesso por iconografia, talvez um dia venha a aprofundar este tema.
-