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terça-feira, 14 de maio de 2019

Saídas de Lisboa no Século XVIII

In Fernando Castelo-Branco, «Saídas de Lisboa no Século XVIII», 1970.
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Num artigo de Fernando Castelo-Branco, publicado na Revista Municipal Lisboa, em 1970, ele fala sobre as «Saídas de Lisboa no Século XVIII». O artigo trata de um manuscrito onde se enumeram dez estradas pelas quais se saía de Lisboa: «Declaraçam dos logares, em que se termina a distancia de legoa e meya em todas as estradas, que entram nesta Corte, unindo-as todas no largo da S.ta Igr.ª Patriarcal, de donde se principia a contar a d.ª legoa e meya p.ª cada hua das dez estradas, que sam. P.ª a de Belem, seg.ª a de N. S. da Ajuda, p.ª Carnachide, 3.ª de Bemfica, 4.ª N. S. da Luz, 5.ª a de Telheyras 6.ª a do Campo grande 7.ª a da Charneca, 8.ª a de Sacavem por Arroyos, 9.ª de Sacavem por Marvilla e Olivais, 10.ª outro ramo de Sacavem pela Quinta do Braço de prata». 
O manuscrito encontra-se no Códice 505 da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, numa «Miscelânia de 237 folhas, indo a descrição desde a fol. 125 r. até à 126 v.». Não sendo datado, o autor propõe que seja posterior a 1716, por se referir à Igreja Patriarcal «e, como se sabe, foi pela Bula (…) de 7 de Novembro de 1716 que foi criada a Patriarcal de Lisboa». Como data limite posterior, propõe que seja antes de 1786, pois fala na ponte da Junqueira, «que desapareceu quando se construiu o edifício da Cordoaria Nacional, em 1786». Poderá mesmo ser anterior a 1750, pois «refere um palácio que teria sido de Marco António de Azevedo Coutinho, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra de D. João V, falecido em 1750». Na minha opinião, visto que, pelo que sei, a Patriarcal foi destruída pelo Terramoto de 1755, creio que a data entre 1716 e 1750 é a correcta.

Planta de Lisboa de Duarte Fava (1807), site Lisboa Interactiva, tentativa de reconstituição do caminho desde o Rossio até ao Campo Pequeno.

Das várias estradas descritas, por razões profissionais, interessou-me sobretudo a que ia para o Campo Grande: «(...) continuando como nas antecedentes the o Rocio, se busca a Rua dos Canos, Portal da Mouraria, estrada dos Anjos, Chafariz de Arroyos, Porta do Cego, Campo pequeno, Campo Grande, Lumiar, calçada de Odivellas, thé o Painel das Almas, onde se termina a legoa e meya». 
Andei a tentar perceber como era essa estrada, com ajuda do site Lisboa Interactiva, e concluí que é possível fazer, pelo menos, parte do caminho - que eu só verifiquei até ao Campo Pequeno. Assumindo, como julgo ser verdade, que a descrição é anterior ao Terramoto, o Rossio teria uma localização ligeiramente diferente da actual, o que explicará as diferenças. A Porta da Mouraria surge como uma das saídas da muralha de Lisboa, no mapa de Tinoco, de 1650. Além disso, algumas ruas e referências desapareceram, como a Rua dos Canos (que ainda aparece nos mapas de Filipe Folque de 1856-1858), mas conseguem-se alternativas razoáveis: Rua D. Duarte, Rua da Mouraria, Rua do Benformoso, Rua dos Anjos, Rua de Arroios, Rua Visconde de Santarém, Rua Alves Redol e Rua do Arco do Cego. Um dia, vou tentar fazer este percurso.
Note-se, por fim, que segundo o livro Pelas Freguesias de Lisboa, na Avenida da República, junto a Entrecampos, foram encontrados vestígios romanos, e julga-se que por aqui passava a estrada de Lisboa para Loures. Talvez esta saída de Lisboa seja bem antiga.
E, por fim, a gravura de 1838, que está conservada no Museu da Cidade, mostra o Palácio Galveias, quintas muradas, uma fábrica de algodão (Fábrica Lençaria do Campo Pequeno) e a estrada do Arco do Cego. Acresce que nesta estrada existiu um arco, que D. João V mandou demolir, porque era muito estreito para passarem as carruagens. Conta-se que, em 1742, o rei ia a caminho das Caldas da Rainha e a sua traquitana não pôde passar, pelo que teve de ir por outro caminho (Consiglieri et al, 2000, 143-144).
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Bibl. - Fernando Castelo-Branco, «Saídas de Lisboa no Século XVIII», Revista Municipal Lisboa, Ano XXXI, Números 126/127 – 3º e 4.º Trimestres de 1970, pp. 15-22; Carlos Consiglieri, José Manuel Vargas e Marília Abel, Pelas Freguesias de Lisboa, São Domingos de Benfica, São Sebastião da Pedreira, Nossa Senhora de Fátima, Campolide, Câmara Municipal de Lisboa, 2000.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Lisboa Desaparecida - Recolhimento de Nossa Senhora do Rosário das Dores

Luís Gonzaga Pereira, Igreja de Nossa Senhora do Rosário
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Onde é hoje o Hospital Curry Cabral, foi o Recolhimento de Nossa Senhora das Dores. Foi no século XVIII que a zona entre o Rego e o Campo Pequeno teve um desenvolvimento mais notório, sobretudo depois do Terramoto de 1755, que para aqui trouxe pessoas que procuravam uma morada mais segura. Aumentaram as quintas e surgiram dois conventos, o de Nossa Senhora da Conceição e o Recolhimento de Nossa Senhora dos Mártires, de religiosas terceiras de São Francisco, na actual Rua da Beneficência.

Mapa no site Lx Conventos, que mostra a localização da Igreja e do Recolhimento, bem como a extensão da cerca.
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Segundo o manuscrito de Luís Gonzaga Pereira, o Recolhimento foi o fundado cerca de 1768, por Margarida das Mercês de Maré, filha de pais estrangeiros. O recolhimento original fora criado numa casa no sítio do Grilo, por D. Isabel, Condessa de Ficalho, e Joaquina Engrácia.
A construção do edifício do Rego teve o apoio da rainha D. Maria I. Inicialmente tinha a devoção a Nossa Senhora do Rosário, mas, depois de terem sido aqui recebidas as recolhidas de Nossa Senhora das Dores, que antes estavam no Largo do Leão, o convento passou a designar-se de Recolhimento de Senhora das Dores e Santíssimo Rosário.
Situado fora das portas de Lisboa, para lá chegar saía-se pela porta de São Sebastião da Pedreira, e seguia-se em frente até a um largo onde estava a Igreja, edificada no estilo característico do final do século XVIII, semelhante a outras igrejas construídas no tempo de D. Maria. Tinha sobre o portal as armas da rainha e também os símbolos da Ordem Terceira de São Francisco.
Na altura da extinção das ordens religiosas, em 1834, já aqui existiam poucas recolhidas e havia falta de meios. Contudo, o convento terá permanecido até à morte da última freira, como era costume no caso dos conventos femininos. Em 1901, a administração do Hospital de São José tomou posse do antigo convento; mais tarde aqui foi instalado o Hospital do Rego (Curry Cabral), aberto em 1906.

Eduardo Portugal, Igreja do Convento de Nossa Senhora das Dores (Arquivo Municipal de Lisboa)
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A igreja, onde (em 1833) estava o túmulo da fundadora, serviu de depósito e, durante algum tempo, de casa mortuária. Desde 1935 foi cedida ao Patriarcado para depósito de imagens e acessórios que pertenceram à Igreja de São Julião. Em 1945, a zona foi atingida pelas inundações, como ficou registado em fotografias da época. Substituída «pela vizinha Igreja, nova, de N. Senhora de Fátima» (Norberto de Araújo), a igreja setecentista foi demolida em 1956.

Judah Benoliel, Inundações de 18 de Novembro de 1945 (Arquivo Municipal de Lisboa)
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Bibliografia:
Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, Vol. XIV, pp. 58-59 - citado in Lisboa de Antigamente.
Carlos Consiglieri, José Manuel Vargas e Marília Abel, Pelas Freguesias de Lisboa, São Domingos de Benfica, São Sebastião da Pedreira, Nossa Senhora de Fátima, Campolide, Câmara Municipal de Lisboa, 2000.
Luís Gonzaga Pereira, Descripção dos monumentos sacros de lisboa, ou collecção de todos os conventos, mosteiros, e parrochiaes no recinto da cidade de lisboa. em MDCCCXXXIII, 1840 - online no site da Biblioteca Nacional.
Lx Conventos, FCSH-CML.