Liubov Popova, Painterly Architectonic (1917, MoMA, Nova Iorque)
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Por razões do meu trabalho actual, tenho andado a ler sobre Arte Contemporânea, nomeadamente desde os anos de 1960 para cá. Embora goste de muitas das obras, há outras que me deixam menos interessada, o que me levou a refletir sobre o assunto. Há aspectos que quero deixar claros antes daquilo que vou escrever a seguir. Primeiro: tenho um gosto eclético, sempre tive. Gosto de arte de todas as épocas (e mesmo ao nível da música e do cinema interesso-me por muitos géneros). Acho a diversidade interessante e enriquecedora. Gosto de fazer relações com artistas diversos e de épocas diferentes. Gosto tanto de arte do Paleolítico (ou mesmo de objectos não artísticos dessa época) como de épocas posteriores. Tive uma professora no IADE (Helena Souto) que quando falava da passagem da arte romana para a arte bizantina dizia: «Não é melhor nem pior, é diferente». Segundo: gosto de arte abstracta, mesmo a minimalista, ou outras ainda mais conceptuais. E, quando vou exposições de arte contemporânea com o meu marido, ele, que até aprecia as obras mais experimentais, mais do que eu, tem chamado a minha atenção para trabalhos que eu talvez nem notasse, mas que são, de facto, interessantes (e gosto de Koons, apesar de já ter sido associado com o kitch). Terceiro: Acho algumas propostas de arte conceptual (e outras relacionadas) muito significativas e com bastante valor.
Contudo, e depois deste preâmbulo, será que uma obra de arte pode ser considerada uma obra de arte se o seu valor só for significativo no seu contexto histórico e cultural? Se, num acaso qualquer extraordinário, a nossa civilização ocidental terminasse amanhã, e daqui a uns 1000 anos fossem descobertas obras desta época, actualmente em Museus, quais delas manteriam um valor de arte para os vindouros? Dito de outro modo, mesmo as pinturas de Lascaux são para mim belas, mesmo que eu não saiba o seu significado exacto. Certamente o mesmo é verdade, por mero exemplo, para a Vénus de Milo (mesmo sem braços) e para a Capela Sistina. Ou pinturas de Vermeer ou de Rembrandt. O seu significado é-me secundário, porque as acho visualmente, esteticamente, interessantes. Poderei dizer o mesmo de outras obras mais recentes? Francamente, julgo que Kandinsky é magnífico por si mesmo, mas o que será que pensariam civilizações que não conhecessem o contexto em que a obra foi feita? Será que é a minha formação em História da Arte que me faz apreciar a sua obra? E se isso é verdade para Kandinsky, Klee, ou mesmo Rothko, que se dirá da Fat Chair de Joseph Beuys? Ou da escultura invisível de Salvatore Garau, vendida por 15000 euros? (que eu acho um logro). Uma coisa é certa, a escultura de Garau nem existe - quem a comprou, adquiriu uma ideia. A escultura de Beuys, daqui a 1000 anos também não existirá talvez, porque tem de ser mantida a determinada temperatura.
Mas a questão fica-me na mente: uma obra de arte só pode ser considerada como tal se for entendida desse modo pela (generalidade da) humanidade (culta?) independentemente do contexto em que foi concebida?


















