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quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Infinito

Sergey Belik, The Multiplicity of Worlds (2014)
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«O zero é a maior metáfora. O infinito a maior analogia. A existência o maior símbolo».
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quarta-feira, 10 de junho de 2020

Para o Dia de Portugal (3 em 1)

José Malhoa, Marinha (1918, Museu Nacional Grão Vasco, Viseu)
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O dos Castelos

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.
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Fernando Pessoa, Mensagem (1928)
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Vai um poste com uma marinha de Malhoa, lembrando o dia dos Oceanos (dia 8), um poema de Pessoa que dá para o dia de Portugal (sempre achei que o nosso país parece um perfil voltado a Ocidente, tendo a Espanha como cabelo) e dá também para o dia dos Arquivos (dia 9) - pois encontrei-o no Arquivo Pessoa.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Viajar (de comboio)

Michael Sowa, Rabbit on A Train
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No comboio descendente

No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada —
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela —
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E os outros nem sim nem não —
No comboio descendente
De Palmela a Portimão...
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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Horizonte

John Mille, Horizon II
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Horizonte

Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
'Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa -
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esp´rança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.
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sábado, 28 de fevereiro de 2015

Todo o estado de alma é uma paisagem

Peder Mørk Mønsted, A Shepherdess Resting (1912)
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"Todo o estado de alma é uma paisagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita. (…) E - mesmo que se não queira admitir que todo o estado de alma é uma paisagem - pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem. (…)"
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Fernando Pessoa, in "Cancioneiro", via Emília Matos e Silva.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Da alma das coisas

Margarida Elias (2014)
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«Acho, pois, que não há erro humano, nem literário, em atribuir alma às coisas que chamamos inanimadas».
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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Frase

Pierre Bonnard, Winter’s Day (c.1905, Musée Calvet, Avignon)
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«Tudo em nós está em nosso conceito do mundo; modificar o nosso conceito do mundo é modificar o mundo para nós, isto é, é modificar o mundo, pois ele nunca será, para nós, senão o que é para nós.»
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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Paisagem

David Keochkerian, Quietude (Link).
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«Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem».
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Fernando Pessoa, «Hora Absurda»,
citado in Panorama, n.º 44, 1943.
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Para ver mais fotografias de David Keochkerian - Link.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O Vento

Hokusai, Wind (in Falcão de Jade).
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«Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido».
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domingo, 19 de junho de 2011

Montejunto

Do Vale à Montanha
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Do vale à montanha,
Da montanha ao monte, cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por Quinta e por fonte,
Caminhais aliados.
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Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.
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Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim.
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Fernando Pessoa (in Citador)
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sábado, 25 de setembro de 2010

Dia 26 de Setembro de 2010: Dia Mundial do Mar


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Mar Português
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Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma nao é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
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Fernando Pessoa.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Olhar para as coisas

Pintura de Manet, Oeillets et clématite dans un vase de cristal (c. 1882, Museu d'Orsay).
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A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
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Fernando Pessoa.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

É brando o dia, brando o vento


Céu com nuvens (Fotografia de Margarida Elias, 2009).
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É brando o dia, brando o vento
É brando o sol e brando o céu.
Assim fosse meu pensamento !
Assim fosse eu, assim fosse eu !

Mas entre mim e as brandas glórias
Deste céu limpo e este ar sem mim
Intervêm sonhos e memórias...
Ser eu assim ser eu assim !

Ah, o mundo é quanto nós trazemos.
Existe tudo porque existo.
Há porque vemos.
E tudo é isto, tudo é isto !
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sábado, 25 de julho de 2009

Compreender a eternidade


Convento dos Capuchos (Fotografia de Margarida Elias, Julho de 2009).
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Se o nosso espírito pudesse compreender a eternidade ou o infinito, saberíamos tudo. Até podermos entender esse facto, não podemos saber nada.
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Fernando Pessoa,
in Constante Procura, 11 de Julho de 2009.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Ó sino da minha aldeira

Fotografia de Margarida Elias, Capela de Santo António do Ameal (2009).
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Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.
E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Ser feliz

Grafitti da Rua Diário de Notícias (Fotografia de Margarida Elias, 2009).
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Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...
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Fernando Pessoa.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Liberdade

Pintura de Domingos Saraiva.
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Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
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terça-feira, 10 de junho de 2008

O Infante


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!