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quinta-feira, 9 de junho de 2016

Teixeira Gomes

Columbano Bordalo Pinheiro, Teixeira Gomes (1925, Museu da Presidência da República)
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Na Galeria da Presidência, o último retrato pintado por Columbano é o de Teixeira Gomes. Novamente, é uma obra efectuada já no final do mandato, pouco tempo antes de ele se demitir. Tal como nos outros retratos, temos a figuração de alguém que se está a afastar da vida política. Teixeira Gomes (1860-1941) era um escritor de grande prestígio, que colaborara na Crónica Ilustrada do Grupo do Leão, no ano de 1882. Natural de Portimão, o seu pai era um dos mais antigos republicanos do Algarve. Estudou em Coimbra, mas não terminou nenhum curso, indo viver, ao fim de sete anos, para Lisboa. Tornou-se amigo de escritores e conviveu com os artistas Soares dos Reis (1847-1889) e Marques de Oliveira (1853-1927). Regressando a Portimão para trabalhar com o pai, empreendeu numerosas viagens pela Europa, Ásia Menor e Norte de África, representando o «Sindicato Exportador de Figos do Algarve». Em 1895, demorou-se por Lisboa, onde conheceu o poeta António Nobre (1867-1900) e o caricaturista Celso Hermínio (1871-1904). 
Depois da revolução de 1910 foi convidado para Ministro de Portugal em Londres (1911). Aí se manteve até ao governo de Sidónio Pais (1872-1918), findo o qual foi nomeado ministro em Madrid, voltando depois para Londres. Em 1922 foi nomeado delegado de Portugal à Sociedade das Nações e, em 6 de Agosto de 1923, foi eleito Presidente da República. Assumiu o cargo com o desejo de conseguir pacificar as várias facções republicanas, mas o descalabro político da Primeira República foi deixando-o cada vez mais desanimado. Entre outras actividades, convivia com artistas e escritores, cientistas e intelectuais. Durante o seu mandato como presidente, no tempo em que residiu em Belém (e segundo Vital Fonres), as quintas-feiras eram os dias de visita das filhas. Nesses dias ele «Entretinha-se com as meninas, almoçava com mais alegria e, à tarde, quando se iam embora para recolherem ao colégio, ficava triste, isto é, retomava aquela aparência fria que parecia apenas calma elegância».
Em 11 de Dezembro de 1925 demitiu-se do cargo de Presidente e partiu para o Norte de África. Desde 1931 que se fixou em Bougie, num exílio voluntário. Ainda enviou colaboração para a Seara Nova e publicou Cartas a Columbano (1932), testemunho da amizade e admiração mútua que existia entre ambos. 

Columbano Bordalo Pinheiro, Retrato de Teixeira Gomes (1911, Museu do Chiado – Museu Nacional 

Teixeira Gomes já fora retratado por Columbano por duas vezes, ambas antes de 1911, quando fora nomeado representante de Portugal em Londres. Um dos retratos ficou em «pochade» e ficou no poder de Viana de Carvalho, seu secretário particular; o outro, o melhor dos três, faz parte da Colecção do Museu do Chiado. O terceiro retrato de Teixeira Gomes, datado de 1925, foi o que ficou na galeria do Palácio de Belém. José-Augusto França escreveu que o de 1911 apresentava a «modesta dignidade do escritor» e o de 1925 mostrava uma «pose mais rígida». De acordo com as suas palavras, era muito melhor o primeiro que o segundo, porque «nele se apresentava o intelectual diletante e ironicamente sensual ainda não ferido pela mediocridade do poder».
Testemunhando a amizade entre Teixeira Gomes e Columbano, Urbano Rodrigues (1888-1971) escreveu que o presidente costumava organizar os «Dias do Columbano», «que eram os mais íntimos», que correspondiam a um jantar e a um serão em amena cavaqueira. Teixeira Gomes dizia que por vezes tinham divergências: «Olhe o que se passa com o Greco, que eu admiro e ele detesta... Gostamos de estar juntos, mesmo calados».
Ainda de acordo com Urbano Rodrigues, quando «começou a fazer o retrato oficial «Columbano tornou-se quase um habitante de Belém. As sessões eram demoradas; e além das horas em que tinha diante de si o modelo e daquelas em que, falando com ele, fora dali, o estudava ainda para apreender traços que melhor o pudessem revelar, outras decorriam em que, só, diante do cavalete com o seu esboço, profundamente meditava». Segundo o mesmo testemunho, «(…) aquele retrato era o retrato do seu melhor amigo! (…) Quando ia já muito adiantado e o modelo (…) o qualificava de magnífico, resolveu uma manhã raspá-lo! (…).» Mesmo na «segunda criação», o pintor continuava descontente e «murmurava: Lá ver o que quero, vejo eu… Agora executar!». Teixeira Gomes também testemunhou esta história, afirmando que no
«(...) retrato oficial, de Chefe de Estado, onde ele se esforçou em pôr tudo quanto sabia, houve um momento prodigioso: faiscavam-lhe os olhos, movia-se, falava… Compreendia-se que a arte atingira os seus inultrapassáveis limites. Ainda tentei interpor a minha autoridade para impedir que lhe tocasse mais. O artista, porém, via mais além; via o irrealizável; e tanto o procurou que, embora forte e empolgante como poucas, a obra saiu inquieta e como que atormentada; frustrada quase, ao lado da serena e larga interpretação que ele deu ao Arriaga e ao Teófilo.»
O retrato de Teixeira Gomes, de 1925, coloca o Presidente numa pose serena, sentado num cadeirão, enquadrado por dois objectos decorativos. Os objectos do mobiliário não são inocentes: a cadeira, apesar de apenas esboçada, é a mesma que surge no retrato de Manuel de Arriaga, mas aqui ganha maior relevo devido ao facto de não estar meio tapada pela secretária. Segundo o próprio Teixeira Gomes:
«Mas o que há de extremamente curioso neste quadro é o seu acentuado carácter “barroco”, para que o mestre tinha natural pendor, sempre sopeado, e que aqui se intensificou na febre de apreender a expressão, o movimento, o gesto, a vida. A talha chinesa e a floreira Império que ali figuram, reflectem o espírito do quadro; nunca se repassaram, como ali, de tanta alma, os objectos inanimados; mesmo nas suas melhores “naturezas mortas” o artista jamais os espiritualizou assim. Em suma: na sua obra tão numerosa e variada tem este trabalho importância capital, e sob certos aspectos nenhum outro se lhe compara».
Bibliografia:
José-Augusto França, «Columbano Bordalo Pinheiro: o Pintor», Público, 12/5/1991.
Manuel Teixeira GOMES, Cartas a Columbano, Lisboa, Portugália Editora, 1957.
Urbano Rodrigues, Vida Romanesca de Teixeira Gomes, Lisboa, Editorial Maritimo-Colonial, 1946.
Urbano Rodrigues, «Columbano e Teixeira Gomes», Diário de Notícias, 13/2/1957.
Vital Fontes, Servidor de Reis e de Presidentes, Lisboa, Editora Marítimo Colonial Lda., 1945.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Teófilo Braga

Columbano Bordalo Pinheiro, Teófilo Braga (1917, Museu da Presidência da República)
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Columbano já conhecia Teófilo Braga (1843-1924) pelo menos desde 1880, quando participou nos festejos do Tricentenário de Camões, em Junho de 1880, e também quando, igualmente em 1880, colaborou na revista dirigida por Teófilo e Abílio Costa Lobo intitulada À Volta do Mundo, Em 1910, quando da questão da bandeira republicana, sendo Teófilo presidente do Governo Provisório, Columbano fez parte da Comissão que desenhou a nova bandeira verde e vermelha, que Teófilo Braga defendia contra a vontade de Guerra Junqueiro, que desejava manter as cores branca e azul.
O retrato para a Galeria de Presidentes foi pintado em 1917. De acordo com Raul Brandão, o «retrato de Teófilo feito pelo Columbano é uma figura dramática. Quem lida com ele diz que Teófilo fala, fala sempre e diz mal de tudo e de todos (…).
«Sempre agarrado aos seus livros, às suas ideias, à sua obra (…), aos seus princípios, atinge o tamanho e a majestade duma árvore secular»
A maneira como Vital Fontes. mordomo do Palácio de Belém, se recordava de Teófilo Braga era também de alguém que estava mais seguro entre os seus livros. Mesmo durante o Governo Provisório, exclamou: «Se ao menos tivesse aqui os meus livros! Se pudesse trabalhar nas minhas coisas!». No segundo mandato, isto é, dois anos antes do retrato feito por Columbano, era ainda nos livros que pensava: «(…) andava cada vez mais alheado de tudo, mais simples, mais modesto, sentindo mais saüdades dos seus livros, tantas, que algumas vezes aparecia com êles debaixo do braço, e para ali ficava, a lê-los, e a tomar apontamentos».
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Bibliografia:
Raul Brandão, Memórias, Tomo II, Lisboa, Relógio d’ Água, 1999.
Vital Fontes, Servidor de Reis e de Presidentes, Lisboa, Editora Marítimo Colonial Lda., 1945.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Manuel de Arriaga

Columbano Bordalo Pinheiro, Retrato de Manuel de Arriaga (1914, Museu da Presidência da República)
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Até 1911 fixou-se no Palácio de Belém a Secretaria-Geral da Presidência da República. Não havia residência oficial, por isso Teófilo Braga, presidente do Governo Provisório, aí se deslocava frequentemente. Em Junho de 1911, Manuel Arriaga (1840-1917), eleito presidente da República, arrendou o anexo do Palácio para residência oficial. Desde essa data que os presidentes que quiseram residir em Belém, durante a Primeira República, tiveram de pagar o aluguer. Terá sido também de Manuel de Arriaga a ideia de fazer a Galeria de Retratos, visto que esta iniciou com o seu retrato e durante o seu mandato. A ideia também poderá ter partido do governo, presidido desde Fevereiro de 1914 por Bernardino Machado.
Manuel de Arriaga era natural do Faial e formado em Direito pela Universidade de Coimbra. Filiado no Partido Republicano, fez parte do Directório em 1891. Foi eleito deputado pela Madeira e tornou-se num orador muito popular. Participou na manifestação patriótica de 11 de Fevereiro de 1890, sendo preso e conduzido a bordo de um navio de guerra. Depois da revolução foi nomeado procurador da República, e, com o apoio de António José de Almeida foi eleito para presidente, contra a vontade do Partido Democrático que escolhera Bernardino Machado. O seu papel como presidente destacou-se pela atitude pacificadora. Depois de diversas peripécias políticas, acabou por se demitir a 26 de Maio de 1915 – ficando Teófilo Braga a completar o seu mandato até Outubro desse ano. 
Entre outras obras, Arriaga escreveu o livro Na Primeira Presidência da República Portuguesa, onde procurou esclarecer as acções durante o seu mandato. Nessa obra, afirmou que: 
«(...) nunca fomos políticos de profissão. A politica como ella se pratica em Portugal deturpando a pureza do sufrágio, foi sempre aos nossos olhos uma das causas primaciaes da degradação dos costumes e da decadência do Paiz».
Arriaga estivera ligado à Geração de 70 e já fora retratado por Columbano para o António Maria de 7 de Agosto de 1884. Esse retrato de 1884, é de Arriaga com Consiglieri Pedroso, quando foram à Madeira para tentar a reeleição do deputado republicano pelo círculo do Funchal. Muito embora não esteja assinado, o estilo do desenho é idêntico ao de Columbano e, em 1884, o artista fez bastantes retratos para o jornal de Rafael Bordalo Pinheiro, seu irmão.
Em 1911, depois da eleição de Manuel de Arriaga, o escritor Raul Brandão dava-lhe uma imagem poética: 
«Na véspera fui procurá-lo à Rua da Santíssima Trindade, n.º 35. Um salão burguês com quadros de Silva Porto e Ramalho. O velho, que mantém certa aparência de vigor, com cabeleira branca, a pêra branca, e a sobrecasaca antiquada, é uma figura arrancada a um quadro romântico». 
A descrição não está longe do retrato que Columbano fez do presidente em 1914, embora o pintor lhe acrescentasse a solenidade própria de um chefe de Estado. A respeito da expressão de Arriaga neste retrato – certamente realizado pouco tempo antes da demissão – devemos lembrar as palavras de Vital Fontes, mordomo do Palácio:
«(…) E o sr. Presidente parecia abatido, triste, quási perdido aquêle seu sorriso bondoso. Não se manifestava porque era muito educado, de boas famílias, descendente de reis – dizia-se».
Das relações entre Columbano e Arriaga, há que recordar uma anedota, segundo a qual o presidente quisera adquirir uma natureza morta na exposição da Sociedade de Belas-Artes de 1914 e fora apanhado de surpresa com a nota de pagamento enviada por Columbano. De acordo com um artigo de Lopes de Oliveira, Arriaga «fôra à última Exposição; e, para animar as Artes, escolheu lá (...) uma couve, isto é, um quadro que constava da representação de uma couve.
«Não inquiriu, não reparou no preço. (...)
Mas ficou passado, quer dizer, quase em tespasse (...) quando, ao chegar a casa, lá encontrou um recibo de mil escudos, enviado por Columbano». 
Dizia que o pintor perdoou a dívida, e Arriaga ficou com o quadro. Contudo não terá sido bem assim. Uma carta, datada de 4 de Julho de 1914, enviada pela Secretaria Particular da Presidência da República Portuguesa, refere que o Presidente recebeu a natureza morta, «valioso e bello trabalho de que S. Excelencia muito gosta». A carta seria acompanhada de cem escudos referentes à primeira prestação no total de dez. Talvez a dívida tenha sido perdoada depois disso (ou apesar disso), pois Vital Fontes contou outra versão da mesma história: 
«É bem conhecido aquele caso do sr. dr. Manuel de Arriaga ter comprado um quadro do grande pintor Columbano. Foi às Belas Artes, viu o quadrinho, que representava uma couve, e enganou-se no preço. Começara-se então a usar a simplificação da escrita da nova moeda, e onde estava 1.000$00 julgou ver 100$00. Quando percebeu que eram mil escudos e não cem mil réis, não quis confessar o engano, para não ofender o pintor, que me parece que acabou por não aceitar nada. Mas ao chegar a Belém, o sr. Presidente não se conteve e disse:
- Nunca julguei que uma couve fosse tão cara!».
No retrato de Columbano, Arriaga está sentado numa cadeira que hoje faz parte do acervio do Museu da Presidência. A cadeira talvez seja uma que foi executada para D. Pedro V, por P. B. Dejante, em 1858, tendo vindo do Palácio das Necessidades, em 1912.. A dita cadeira iria ainda aparecer nos retratos de Teixeira Gomes, Bernardino Machado e Mário Soares.

P. B. Dejante (atribuído), Cadeira de secretária (1858, Museu da Presidência da República)
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Bibliografia:
Lopes de Oliveira, «De Columbano» (in Espólio de Columbano Bordalo Pinheiro, Museu do Chiado - MNAC).
Manuel de Arriaga, Na Primeira Presidência da Republica Portuguesa, Um Rapido Relatório, Lisboa, Typografia “A Editora Lda.”, 1916.
Pintura e Mobiliário do Palácio de Belém, Lisboa, Museu da Presidência da República, 2005.
Raul Brandão, Memórias, Tomo II, Lisboa, Relógio d’ Água, 1999.
Vital Fontes, Servidor de Reis e de Presidentes, Lisboa, Editora Marítimo Colonial Lda., 1945.