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quinta-feira, 21 de maio de 2015

...Nuvens

Alfredo Keil, Nuvens (1897, Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea)
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Nuvens da Tarde

Aquelas nuvens, que voam,
Ninguém pode pôr-lhes mão…
São como as horas que soam,
E as aves que em bando vão…
Como a folha desprendida,
E como os sonhos da vida,
Aquelas nuvens que voam…

Às vezes o Sol, que as doura,
Parece à glória levá-las…
Mas surge o vento e, numa hora,
Já ninguém pode avistá-las!
É um convite enganoso,
Um escárnio luminoso,
Às vezes o Sol, que as doura!

Tantos castelos caídos!
Tantas visões dissipadas!
Gigantes, heróis perdidos,
Que mal sustêm as espadas!
Faz pena ver, lá do monte,
Nas ruínas do horizonte,
Tantos castelos caídos!

Aquelas nuvens, que vemos,
Esses poemas aéreos,
São os sonhos que nós temos,
Nossos íntimos mistérios!
São espelhos flutuantes
Das nossas dores constantes
Aquelas nuvens, que vemos…

Nossa alma vai-se com elas,
À procura, quem o sabe?
Doutras esferas mais belas
Já que no mundo não cabe…
Voando, sem dar um grito,
Através desse infinito,
Nossa alma vai-se com elas!
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Antero de Quental (no Falcão de Jade)

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Um poema que só descobri recentemente

(Link)
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As Fadas

As fadas... eu creio n'ellas!
Umas são moças e bellas,
Outras, velhas de pasmar...
Umas vivem nos rochedos,
Outras, pelos arvoredos,
Outras, á beira do mar...

Algumas em fonte fria
Escondem-se, emquanto é dia,
Sáem só ao escurecer...
Outras, debaixo da terra,
Nas grutas verdes da serra,
É que se vão esconder...

O vestir... são taes riquezas,
Que rainhas, nem princezas
Nenhuma assim se vestiu!
Porque as riquezas das fadas
São sabidas, celebradas
Por toda a gente que as viu...

Quando a noite é clara e amena
E a lua vae mais serena,
Qualquer as póde espreitar,
Fazendo roda, occupadas
Em dobar suas meadas
De ouro e de prata, ao luar.

O luar é os seus amores!
Sentadinhas entre as flores
Horas se ficam sem fim,
Cantando suas cantigas,
Fiando suas estrigas,
Em roca de oiro e marfim.

Eu sei os nomes d'algumas:
Viviana ama as espumas
Das ondas nos areaes,
Vive junto ao mar, sósinha,
Mas costuma ser madrinha
Nos baptisados reaes.

Morgana é muito enganosa;
Ás vezes, moça e formosa,
E outras, velha, a rir, a rir...
Ora festiva, ora grave,
E vôa como uma ave,
Se a gente lhe quer bulir.

Que direi de Melusina?
De Titania, a pequenina,
Que dorme sobre um jasmim?
De cem outras, cuja gloria
Enche as paginas da historia
Dos reinos de el-rei Merlin?

Umas tem mando nos áres;
Outras, na terra, nos mares;
E todas trazem na mão
Aquella vara famosa,
A vara maravilhosa,
A varinha do condão.

O que ellas querem, n'um pronto,
Fez-se alli! parece um conto...
Mesmo de fadas... eu sei!
São condões que dão á gente,
Ou dinheiro reluzente
Ou joias, que nem um rei!

A mais pobre creancinha
Se quiz ser sua madrinha,
Uma fada... ai, que feliz!
São palacios, n'um momento...
Belleza, que é um portento...
Riqueza, que nem se diz...

Ou então, prendas, talento,
Sciencia, discernimento,
Graças, chiste, discrição...
Vê-se o pobre innocentinho
Feito um sabio, um adivinho,
Que aos mais sabios vae á mão!

Mas, com tudo isto, as fadas
São muito desconfiadas;
Quem as vê não hade rir.
Querem ellas que as respeitem,
E não gostam que as espreitem,
Nem se lhes hade mentir.

Quem as offende... Cautela!
A mais risonha, a mais bella,
Torna-se logo tão má,
Tão cruel, tão vingativa!
É inimiga aggressiva,
É serpente que alli está!

E têm vinganças terriveis!
Semeiam cousas horriveis,
Que nascem logo no chão...
Linguas de fogo que estalam!
Sapos com azas, que falam!
Um anão preto! um dragão!

Ou deitam sortes na gente...
O nariz faz-se serpente,
A dar pulos, a crescer...
É-se morcego ou veado...
E anda-se assim encantado,
Emquanto a fada quizer!

Por isso quem por estradas
Fôr, de noite, e vir as fadas
Nos altos mirando o céo,
Deve com geito falar-lhes
Muito cortez e tirar-lhes
Até ao chão o chapéo.

Porque a fortuna da gente
Está ás vezes sómente
N'uma palavra que diz;
Por uma palavra, engraça
Uma fada com quem passa,
E torna-o logo feliz.

Quantas vezes, já deitado,
Mas sem somno, inda acordado,
Me ponho a considerar
Que condão eu pediria,
Se uma fada, um bello dia,
Me quizesse a mim fadar...

O que seria? um thesouro?
Um reino? um vestido de ouro?
Ou um leito de marfim?
Ou um palacio encantado,
Com seu lago prateado
E com pavões no jardim?

Ou podia, se eu quizesse,
Pedir tambem que me désse
Um condão, para falar
A lingua dos passarinhos,
Que conversam nos seus ninhos...
Ou então, saber voar!

Oh, se esta noite, sonhando,
Alguma fada, engraçando
Commigo (podia ser!)
Me tocasse da varinha,
E fosse minha madrinha
Mesmo a dormir, sem a vêr...

E que ámanhã acordasse
E me achasse... eu sei? me achasse
Feito um principe, um emir!...
Até já, imaginando,
Se estão meus olhos fechando...
Deixa-me já, já dormir!

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Antero de Quental (Link)
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(Link)

sábado, 27 de abril de 2013

Realismo e Naturalismo II

Pier Francesco Cittadini, Ghirlanda di fiori (Pinacoteca Nazionale di Bologna - Pittori Italiani - Italian Painters)
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Nas pesquisas que realizei acerca do Realismo e do Naturalismo, tive oportunidade de notar alguns aspectos que vou agora evocar. Em termos históricos, o aparecimento do Realismo ocorreu em França após as lutas sociais e políticas da Revolução de 1848, com o consequente desenvolvimento das várias tendências do Socialismo, que culminaram na Comuna de Paris. O propósito do realismo era construir uma «representação verídica, objectiva e imparcial do mundo real, baseada numa observação meticulosa da vida do momento». O exemplo paradigmático desta corrente estética encontrava-se na pintura de Gustave Courbet, bem como nas teorias de Pierre-Joseph Proudhon. Em 1865 foi publicado o livro Du Principe de l’ Art et de sa Destination Sociale, onde Proudhon expôs o seu pensamento estético, dando como modelo a obra do pintor Courbet. Em comunhão com estas ideias, no programa das Conferências do Casino, organizadas por Antero de Quental, afirmava-se que não «pode viver e desenvolver-se um povo, isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo; o que todos os dias a humanidade vai trabalhando, deve também ser o assunto das nossas constantes meditações». A conferência de Eça de Queirós, sob o tema «Realismo como Nova Expressão da Arte», defendia a integração da arte na vida moderna e expunha o caso da obra de Courbet como protótipo para a arte actual. Eça apresentava a proposta de uma renovação literária, pela «arte moral», experimental e racional, em suma, pelo «Realismo na arte». Em 1878, numa carta, explicava: «O que queremos nós com o Realismo? Fazer o quadro do mundo moderno, nas feições em que ele é mau (...), queremos fazer a fotografia, ia quase dizer a caricatura, do velho mundo burguês, devoto, católico, explorador, aristocrático, etc.; e apontando-o ao escárnio, à gargalhada, ao desprezo do mundo moderno e democrático – preparar a sua ruína». Ao escrever o manuscrito da Tragédia da Rua das Flores (1878), Eça concebeu um pintor, que afirmava que a arte «devia educar pela representação das acções justas». A arte deveria «ser essencialmente revolucionária. Um quadro deve ser um livro; deve ser um panfleto; deve ser um artigo de jornal». O processo da pintura não deveria ser acabado, estudado, ou amaneirado. «A pintura não é nada – a ideia é tudo. Traços largos, sombras indicadas, tons sóbrios, que dêem a impressão exacta da realidade». Para Ramalho Ortigão,em 1875, a arte era uma interpretação «da natureza feita, como diz Proudhon, em vista do nosso aperfeiçoamento intelectual e moral». A missão da arte era crítica, não já uma crítica que nega, mas sim uma crítica que sistematiza. 
Um aspecto que tem sido notado em investigações recentes é que o realismo na arte deveu bastante à descoberta da pintura espanhola do século XVII, por parte dos artistas e historiadores. A liberdade dessa pintura, que tratava assuntos humildes e valorizava a cor mais do que o desenho, atraiu tanto os artistas românticos como os realistas. Tal como notou Lucília Verdelho da Costa, a «escola espanhola foi uma fonte de anticlassicismo que veio responder às aspirações da jovem pintura, que rejeitava o Belo ideal herdado de Rafael e a dramaturgia, o colorido e o dinamismo das composições românticas. (…) Courbet foi o primeiro a assumir a ruptura, ao introduzir, a par do realismo da representação, a técnica da pintura de Velásquez». 
Por outro lado, o realismo também estava associado à pintura holandesa, na medida em que esta reproduzia preferencialmente cenas da realidade quotidiana. No entanto, hoje devemos ter em consideração que o realismo holandês de seiscentos era um realismo aparente, pois as pinturas desse tempo celebravam as virtudes domésticas, sobretudo desempenhadas por mulheres, em espaços interiores. Apesar desse lado simbólico, como notou Tzevetan Todorov, nessas obras dava-se importância à realidade mais humilde e toda a representação pictural de um ser ou de um objecto significa que ele é digno de ser representado, que merece sobreviver ao instante da sua aparição: «a pintura é, intrisecamente, elogio do que é pintado». Todorov afiançava que através da representação do quotidiano, o pintor constatava que a beleza poderia estar nos objectos insignificantes e nos gestos comuns. Deste modo, descobria que «pela graça dos pincéis, ele pode mostrar que os objectos são dignos de uma admiração não somente ética mas estética». O mesmo historiador advertia ainda que a pintura do quotidiano, nos séculos XIX e XX, ligada ao realismo, continuava a «afirmar a beleza do que mostra; mas é muitas vezes uma beleza de abatimento, de desespero, de angústia; são as flores do mal (…)».
No que respeita ao Naturalismo, há outras questões que devem ser mencionadas. Para a pintura do século XVII, o naturalismo implicava o interesse pelas coisas naturais, a vontade de «imitare bene le cose naturali» - como foi verbalizado por Caravaggio. Por sua vez, o naturalismo do século XIX tem raízes no Positivismo e corresponde à crença filosófica de que o homem é uma criatura determinada pelas leis físicas e que pode ser assunto para investigação científica. Nesse sentido, o Naturalismo pretendia estudar os comportamentos, tendo como paradigma, em termos literários, os textos de Zola. Na pintura, ficou associado a John Constable, à Escola de Barbizon e ao gosto pela reprodução da natureza, o que se reflectiu sobretudo no interesse pela pintura de paisagem. 
Cerca de 1880, em Paris, entrou em voga na pintura um tipo de naturalismo, que herdava as aprendizagens da escola de Barbizon e do realismo, cruzadas com as descobertas do impressionismo e equilibradas pelo academismo, o qual tinha o seu expoente máximo na obra de Bastien-Lepage. Zola considerava que os naturalistas da década de 80 eram devedores do Impressionismo, que corrigiam de modo a ficar mais próximo do gosto do grande público. Uma das conquistas do Impressionismo, como notou Zola, foi o afastamento das tonalidades escuras e betuminosas: «peu à peu, on a vu les Salons s’éclaircir”. 
Nos textos do século XIX, os termos Realismo e Naturalismo confundiam-se, empregando-se indistintamente como sinónimo de representação fiel da realidade. Maria João Ortigão de Oliveira propôs que, atendendo «à fluidez e indefinição dos critérios esclarecedores», se considerasse «o naturalismo como herdeiro natural cronológica e historicamente do realismo». Contudo, não podemos esquecer que, em oitocentos, o Realismo e o Naturalismo distinguiam-se nos temas e na maneira de encarar a realidade. Enquanto o realismo adoptava uma conotação mais ideológica e crítica, o naturalismo tinha um carácter mais científico e atento aos valores da natureza:
«(…) há que referir também que a reivindicação do amor pelo campo, através de paisagens e gentes identificáveis, foi, no século XIX uma espécie de anti-cultura que se opunha ao crescimento imparável das cidades, com o seu cortejo de novas chagas sociais. Aquilo que, durante grande parte do século XX, foi considerado uma prática nostálgica e conservadora (porque se entendia que era nas cidades que o progresso se encontrava) pode hoje ser valorizado como uma ecologia, crítica da pujante economia capitalista para a qual a vida camponesa, bem como os seus valores, deveriam ser submetidos às exigências do mercado» (Raquel Henriques da Silva).
Ramalho Ortigão, um fervoroso adepto do naturalismo, dizia, em 1875, que a paisagem era «o género mais especialmente moderno». O pintor d’ «A Tragédia da Rua das Flores» afirmava: «O homem moderno vive longe da natureza, pela necessidade de profissão: uma arte que lhe reduz a natureza, que lha torna portátil, que lha introduz na sala de jantar, na alcova, interpretada, escolhida, - faz ao homem o maior serviço – pô-lo em comunicação permanente com a natureza. E a natureza é tudo: calma, consola, eleva, repousa e vivifica». 
No âmbito do Naturalismo, devemos ainda incluir a pintura de costumes populares, sendo em grande medida um assunto herdado do Romantismo. No contexto da valorização do mundo rural, Almeida Garrett afirmou: «Nenhuma coisa pode ser nacional se não é popular». Fora de Portugal, o tema foi desenvolvido pelos realistas e naturalistas, na medida em que a fórmula de Courbet «il faut être de son temps», também se aplicava a ser do seu lugar: consagrar-se ao seu país natal e à sua região, com o fim de captar os seus aspectos mais verdadeiros e singulares.
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Bibliografia:
Pierre-Joseph PROUDHON, 1865, Du Principe de l'Art et de sa Destination Sociale.
Diário de Notícias, 15/6/1871.
Antero de QUENTAL, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares.
As Farpas, Nov. 1871.
Ramalho ORTIGÃO, 1875, «O chic e os seus desastres».
Ramalho ORTIGÃO, 1875, «A restauração da arte portuguesa entregue pelo Govêrno aos cuidados de uma comissão».
Eça de QUEIRÓS, A Tragédia da Rua das Flores.
Émile ZOLA, 1880, «Le naturalisme au Salon».
Émile ZOLA, 1884, «Expositions des oeuvres d’Édouard Manet».
João MEDINA, 1980, Eça de Queiroz e a Geração de 70.
Maria João Ortigão de OLIVEIRA, 1988, O Pensamento Estético de Ramalho Ortigão.
Linda NOCHLIN, 1989, Les politiques de la vision.
Linda NOCHLIN, 1991, El Realismo.
Vítor SERRÃO, 1992, A Pintura Proto-Barroca em Portugal (1612-1657).
Tzvetan TODOROV, 1993, Éloge du quotidien. Essai sur la peinture hollandaise du XVII.e siècle.
Elisa Ribeiro SOARES, 1999, «O Romantismo e a Pintura Portuguesa».
A.A.V.V., 2002, Manet Velásquez. La manière espagnole au XIXe siècle.
Lucília Verdelho da COSTA, 2008, «Modernidade e Academismo. França, Espanha e Portugal: diálogos cruzados», in O Retrato, FCSH-UNL.
Raquel Henriques da SILVA, 2010, «Silva Porto e a pintura naturalista», in Catálogo do Museu do Chiado – século XIX.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O espírito do tempo


John White Alexander, Walt Whitman (1889, Metropolitan Museum of Art, New York)
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Columbano Bordalo Pinheiro, Antero de Quental (1889, Museu do Chiado - MNAC, Lisboa)
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Columbano Bordalo Pinheiro, Bulhão Pato (1911, Museu do Chiado - MNAC, Lisboa)
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Quando olhei pela primeira vez para a pintura de Walt Whitman, lembrei-me de Columbano e dos retratos posteriores a 1889, sobretudo de Bulhão Pato. Ao retornar a ver o retrato de John White Alexander, comecei a ficar cada vez mais fascinada com a qualidade da pintura, do contraste do branco com o negro, dos detalhes do rosto e das mãos. Hoje notei a data - 1889. Certamente, Columbano não terá visto o retrato de Whitman quando pintava o de Antero, mas têm algo em comum, fruto de um mesmo espírito do tempo, do mesmo respeito pelo outro que se está a retratar e cuja alma se deseja eternizar. Dizia Séneca: «Não devemos computar a idade pelos anos, senão pelos procedimentos».
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Séneca, in Jorge Segurado, Raul Lino, Lisboa, ANBA, 1975, p. 15.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A Virgem Santíssima

Pintura de Dirck de Bray, Natureza Morta com símbolos da Virgem Maria (1672, Amstelkring Museum, Amsterdam).
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Num sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza...

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade...
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza...

Um místico sofrer...uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira...

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira!
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Antero de Quental
(Sonetos 1874-1880, in Sonetos Completos, 1998).

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Evolução

Fotografia de Margarida Elias, Convento do Varatojo (Século XV, Varatojo - Torres Vedras).
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Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onde, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...
Rugi, fera alvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, mesmo primitivo, ergui a testa
No limoso paul, glauco poscigo...
Hoje sou homem - e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade...
Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.
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Antero de Quental.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

A um poeta

Fotografia de Margarida Elias, Mosteiro da Batalha (Século XV, Batalha - Leiria).
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Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O Sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos que se erguem! são canções...
Mas de guerra...e são vozes de rebate!

Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

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Antero de Quental