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sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Exposições e escolhas

Manuel Cipriano Gomes Mafra, Macaco e tartaruga (1870-1905, CJMF - fotografia de Margarida Araújo)
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Faz um ano amanhã que inaugurou a exposição da minha curadoria: Animais na Cerâmica Caldenses. Colecção de João Maria Ferreira (Museu da Cerâmica, Caldas da Rainha) - o convite fora-me feito por João Bonifácio Serra.
Recentemente descobri esta frase de Paulo Varela Gomes, que achei muito interessante:
«(...) De facto, qualquer exposição não é senão uma selecção mais ou menos arbitrária de alguns objectos. Nas salas de uma exposição não estamos no terreno da realidade histórica, mas em plena teatralidade (ou representação). Ao pousarmos um catálogo, ao sairmos de uma exposição, raramente fazemos a contabilidade do que não estava lá porque as exposições se fazem para nos dar a entender que “lá fora” não há mais nada de importante para ver.» - Paulo Varela Gomes, Expressões do Neoclássico, in Dalila Rodrigues (Coord.), Arte Portuguesa, da Pré-História ao Século XX, Vol. XIV, Fubu Editores, 2009, p. 33.
Ao ler esta frase lembrei-me da dificuldade que tive para escolher as peças, porque havia muito mais na Colecção. E nessa selecção - de cerca de 130 peças entre mais de mil - muito me ajudaram o coleccionador, a sua colaboradora e fotógrafa Margarida Araújo, mas também outros especialistas, como Cristina Ramos Horta e Rita Gomes Ferrão. Foi como estar na caverna do Aladino sem saber o que havia de lá trazer.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

"Cobras e lagartos" (das Caldas)

«(...) A cerâmica... todo o romance da humanidade pode ser contado em termos de cerâmica.»
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Agatha Christie, Morte nas Nuvens, Edições Asa, 2015, p. 198.
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Alguns espécimes da exposição da Colecção de João Maria Ferreira, que está quase a terminar:
 
Manuel Cipriano Gomes Mafra, Prato decorativo. Lagartos, cobras e insectos (1870-1905 - © Margarida Araújo)
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Manuel Cipriano Gomes Mafra, Peça decorativa de parede. Cobra (1870-1905 - © Margarida Araújo)
José Alves Cunha, Peça decorativa de parede. Lagarto (c. 1875-1901 - © Margarida Araújo)
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Fábrica de Augusto Baptista de Carvalho, Jarro. Lagarto-monge (c. 1895-1900 - © Margarida Araújo)
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 José Joaquim Pinto da Silva, 2º Visconde de Sacavém, Prato calendário. Lagarto e folhagem (1892-1896 - © Margarida Araújo)
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Rafael Bordalo Pinheiro, Caneca. Rã e cobra (1902 - © Margarida Araújo)
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Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro, Jarra. Cavalos-marinhos e lagartixa (1913 - © Margarida Araújo)
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E os meus biscoitos preferidos das Caldas

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Amoras

Willem Clasz Heda, Breakfast Table with Blackberry Pie (1631, Gemäldegalerie Alte Meister - Link)
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Raphaelle Peale, Blackberries (c. 1813 - Link)
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August LauxBlackberries in a Basket (Link)
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Elizabeth Forbes, Blackberry Gathering (c. 1912, Walker Art Gallery - Link)
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Susan Homer, Blackberries with Tea and Milk (2008 - Link)
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Manuel Cipriano Gomes, "O Mafra", Taça (1860, Museu de Cerâmica, Caldas da Rainha - Link)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

A Cerâmica de Manuel Cipriano Gomes Mafra

Peça cerâmica de Manuel Cipriano Gomes Mafra, Jarrão Cobras (Museu de Cerâmica, Caldas da Rainha).
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Manuel Cipriano Gomes (1829-1905) nasceu em Mafra e por isso ficou conhecido pelo nome de Manuel Mafra. Ainda jovem foi viver para as Caldas da Rainha, onde trabalhou numa fábrica de cerêmica de Maria dos Cacos. Mais tarde ficou com essa fábrica, a qual passou a gerir com a sua família. Desenvolveu um tipo de cerâmica muito característico, utilizando motivos vegetalistas e zoomórficos, dando um aspecto decorativo às suas peças. Vendendo inicialmente em feiras, D. Fernando II interessou-se pela sua obra e deu-lhe o estatuto de fornecedor da Casa Real. Por intermédio do rei, ou de outros interessados na arte cerâmica, tomou contacto com o estilo Palissy. Este fora um artista francês da Renascença que desenvolveu um tipo de cerâmica inspirado na natureza. A sua obra fora redescoberta no Seculo XIX e inspirou o desenvolvimento decorativo da cerâmica europeia. Manuel Mafra juntou o vocabulário tipo Palissy às suas peças cerâmicas criando um estilo único e de grande qualidade, que mereceu ser premiado em exposições internacionais.
No Museu de Cerâmica das Caldas da Rainha abriu agora uma exposição sobre o ceramista, tendo eu colaborado no catálogo e na realização de alguma pesquisa. A exposição era para ter inaugurado em Dezembro de 2005, no centenário da sua morte, mas só agora se conseguiu realizar.
Para quem gosta de cerâmica vale a pena o passeio. O próprio Museu vale a visita. Além da colecção que tem obras de Rafael Bordalo Pinheiro e Manuel Gustavo, entre outros, o espaço é muito agradável. O edifício principal é um palacete que pertenceu ao Visconde de Sacavém e tem um jardim bem arranjado, com azulejos, alguns deles decorados com poemas.
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Texto de Margarida Elias.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

A Recepção Crítica de Manuel Mafra nas Exposições Internacionais

Fruteira de Manuel Mafra, Folha de Videira (c. 1860-1870, Museu de Cerâmica, Caldas da Rainha).
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Manuel Cipriano Gomes, dito «o Mafra», trabalhou inicialmente como operário servente na fábrica de Maria dos «Cacos», a qual tomou de trespasse em 1853, passando a empregar na marca da louça as iniciais com o seu nome. De acordo com Julieta Ferrão, a sua louça destinava-se à venda ambulante em feiras e mercados, locais onde adquiria «tudo o que era susceptível de ser reproduzido ou imitado na sua fábrica». Em 1867, participou pela primeira vez numa exposição Internacional, a de Paris, subordinada ao tema de «O Trabalho». O catálogo mencionava que ele expunha cem peças de faianças e referia que no seu estabelecimento trabalhavam dez operários. Observava-se que existiam «(…) nas Caldas, desde há muito tempo, muitas fábricas destas faianças».

Nas décadas de setenta e noventa desenvolveu-se um «pequeno surto industrial» de cerâmica nas Caldas». No ano de 1870 a situação de Manuel Cipriano Gomes começou a melhorar e passou a usar a coroa real na marca, depois do rei D. Fernando o ter designado fornecedor da Casa Real. Terá sido por influência de D. Fernando, Wenceslau Cifka e José Palha que teve acesso à cerâmica de Palissy e começou a inspirar-se nos seus modelos. Em 1873, Mafra voltou a apresentar louça das Caldas na Exposição Universal de Viena de Áustria e recebeu uma medalha de Mérito. Três anos depois, tornou a receber um prémio, desta feita na Exposição Universal de Filadélfia. O catálogo mencionava que a sua fábrica empregava 19 homens, 7 mulheres e 6 crianças. Em 1878, foi premiado na Exposição Internacional de Paris, com uma medalha de prata. Adrien Deboche, director de Belas-Artes em Limoges e membro do comité de admissão, dizia que «(…) aplaudimos os esforços de Viúva Lamego, de Mafra de Lizo [sic], de Oliveira e de Mataldo (…)». Em 1879, foi premiado, uma última vez, pela sua participação na Exposição Portuguesa do Rio de Janeiro. A Exposição de Cristais e Cerâmica mereceu a atenção de um artigo n’ O Occidente. Neste se mencionava que a «(…) Louça das Caldas destaca-se, como em todas as exposições antecedentes a que tem concorrido, pelo seu typo especial e cheio de originalidade, que lhe dá um lugar á parte na cerâmica moderna, e a faz apetecida de toda a gente dotada de bom gosto (…)».
Em 1884 iniciou a produção da fábrica de Rafael Bordalo Pinheiro e três anos depois Cipriano Gomes abandonou a direcção da fábrica, que passou a ser dirigida pelo seu filho, o que resultou num decréscimo produtivo. Havia quem dissesse que «Raphael Bordallo Pinheiro tinha por Manuel Mafra uma grande predilecção, devida principalmente ao reconhecimento dos serviços por este prestados á industria que, mais tarde, tão aperfeiçoada foi pelo grande artista». Em 1889 seria Bordalo o grande premiado, com a Legião de Honra, na Exposição de Paris.
Mafra ainda fundou uma nova fábrica, em 1897, mas sem sucesso, vindo a falecer em 1905 com 78 anos. Na imprensa local foi onde o seu desaparecimento mereceu maior saudade. O Círculo das Caldas descrevia-o como um «(…) um homem honradissimo e um trabalhador activo e muito intelligente, conseguindo elevar-se de modesto operario a um importante industrial». «Foi elle quem n’esta villa fundou a industria ceramica e que a tornou conhecida no paiz e em muitos mercados estrangeiros (…)».

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Texto de Margarida Elias.