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domingo, 26 de abril de 2026

O Bom Pastor


Menino Jesus, Bom Pastor (Séc. XVII, Leiloeira Palácio do Correio Velho, Lisboa)
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Sou um guardador de rebanhos,
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Caminhos

Para o dia de hoje, uma pequena paisagem que herdei do meu tio (João Mattos e Silva), que não sei quem é o autor (atrás diz apenas "Caramulo"); e um poema de que gosto muito, que descobri no blogue (In)Cultura:

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Para além da curva da estrada

Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.
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Alberto Caeiro, s.d.“Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994, p. 129.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Da beleza do quotidiano

Henri de Toulouse-Lautrec, La toilette (Celle qui se peigne) (1891, The Ashmolean Museum of Art and Archaeology)
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«Nada torna, nada se repete, porque tudo é real».
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

D'ontem (ao pé do Tejo) e de Alberto Caeiro


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Na estrada, junto ao rio, está um excerto do poema, que se segue:

XX - O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
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sexta-feira, 6 de maio de 2016

Das flores

Nikolai Astrup, Apple trees in bloom
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Porque o que eu mais gosto da natureza na Primavera, e me consola mesmo em dias de chuva, são as flores.
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Na planta, na árvore, na flor 
(Em tudo que vive sem fala 
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência), 
No bosque que não é árvores mas bosque, 
Total das árvores sem soma, 
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro 
Que lhes dá a vida; 
Que floresce com o florescer deles 
E é verde no seu verdor.
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Excerto do poema «O que É Perfeito não Precisa de Nada» de Alberto Caeiro

quarta-feira, 18 de março de 2015

Universo

Wladyslaw Theodore Benda, Earth, Milky Way, and Moon (c. 1918)
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Aceita o Universo

Aceita o universo 
Como to deram os deuses. 
Se os deuses te quisessem dar outro 
Ter-to-iam dado. 

Se há outras matérias e outros mundos 
Haja. 
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Alberto Caeiro, in Citador
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quinta-feira, 24 de abril de 2014

«A Espantosa Realidade das Cousas»

Alfred Sisley, The Road to Mantes (1874, Musée du Louvre, Paris)
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A Espantosa Realidade das Cousas

A espantosa realidade das cousas 
É a minha descoberta de todos os dias. 
Cada cousa é o que é, 
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra, 
E quanto isso me basta. 

Basta existir para se ser completo. 

Tenho escrito bastantes poemas. 
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente. 

Cada poema meu diz isto, 
E todos os meus poemas são diferentes, 
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto. 

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra. 
Não me ponho a pensar se ela sente. 
Não me perco a chamar-lhe minha irmã. 
Mas gosto dela por ela ser uma pedra, 
Gosto dela porque ela não sente nada. 
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo. 

Outras vezes oiço passar o vento, 
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido. 

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto; 
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo, 
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar; 
Porque o penso sem pensamentos 
Porque o digo como as minhas palavras o dizem. 

Uma vez chamaram-me poeta materialista, 
E eu admirei-me, porque não julgava 
Que se me pudesse chamar qualquer cousa. 
Eu nem sequer sou poeta: vejo. 
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho: 
O valor está ali, nos meus versos. 
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade. 
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quinta-feira, 19 de julho de 2012

Para ver os campos e o rio

John Joseph Enneking, Moonrise at Sunset, Gloucester, Massachusetts (1890).
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Não basta abrir a janela 
Para ver os campos e o rio. 
Não é bastante não ser cego 
Para ver as árvores e as flores. 
É preciso também não ter filosofia nenhuma. 
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas. 
Há só cada um de nós, como uma cave. 
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora; 
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse, 
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela. 

(...)
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Alberto Caeiro,
citado por Manuela Gama Vieira.

domingo, 27 de março de 2011

Luz

José Malhoa, Retrato da minha mulher (1914).
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AH! QUEREM uma luz melhor que
a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas
que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol
que o Sol,
O que quero é prados mais prados
que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores
que estas flores -
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira! 
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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Não me importo com as rimas

Casa onde nasceu Fernando Pessoa, Largo de São Carlos - Chiado, Lisboa (Fotografia de Margarida Elias, 2009).
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Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior.

Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como o levantar-se o vento...
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Alberto Caeiro.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Chegou (verdadeiramente) o Outono

Pintura de Lenbach (Szepmuveszeti Muzeum, Budapest).
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«Um dia de chuva é tão bello como um dia de sol. Ambos existem; cada um como é».
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Alberto Caeiro (Fernando Pessoa).

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Da minha aldeia

Fotografia de Margarida Elias (Ameal).
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DA MINHA ALDEIA vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.

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Alberto Caeiro

sábado, 24 de maio de 2008

Pobres das flores dos canteiros

Fotografia de Margarida Elias, Ameal.
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Pobres das flores dos canteiros dos jardins regulares.
Parecem ter medo da polícia...
Mas tão boas que florescem do mesmo modo
E têm o mesmo sorriso antigo
Que tiveram para o primeiro olhar do primeiro homem
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
Para ver se elas falavam...
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