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Verdade seja dita que a história da Cinderela é muitas vezes visualizada cá em casa, sobretudo na forma do filme da Disney e em versão brasileira. De toda a história, o que eu acho mais graça é à canção dos ratinhos, a protestar contra as actividades incessantes da Cinderela, escravizada pela madrasta e pelas suas filhas:
Não querendo minimamente entrar em discussões feministas sobre a divisão do trabalho, na verdade por vezes sinto-me demasiado cheia de actividades, o que por sua vez me faz lembrar esta história que descobri quando estive a dar aulas de Língua Portuguesa ao 5.º ano:
Era uma vez uma mulher casada, mas que se dava muito mal com o marido, porque não trabalhava nem tinha ordem no governo da casa.
Começava uma coisa e logo passava para outra, tudo ficava a meio, de forma que quando o marido voltava para casa à noite nem tinha o jantar feito, nem água para os pés, nem a cama feita.
As coisas foram andando assim, até que o homem lhe começou a bater, e ela a passar muito má vida. A mulher andava triste por o homem lhe bater, e tinha uma vizinha a quem se foi queixar, a qual era velha e se dizia que as fadas a ajudavam. Chamavam-lhe a Tia Verde-Água.
– Ai, tia! Vocemecê é que me podia valer nesta aflição!
– Pois sim, filha. Eu tenho dez anõezinhos muito trabalhadores, e mando-tos para tua casa para te ajudarem...
A velha começou a explicar-lhe o que devia fazer para que os dez anõezinhos a ajudassem: que quando pela manhã se levantasse fizesse logo a cama, em seguida acendesse o lume, depois enchesse o cântaro de água, varresse a casa, arranjasse a roupa, e no intervalo em que cozinhasse o jantar fosse dobando as suas meadas, até o marido chegar.
Foi-lhe assim indicando o que havia de fazer, que em tudo isto seria ajudada sem ela o sentir pelos dez anõezinhos. A mulher assim fez, e se bem o fez melhor lhe saiu.
Foram-se assim passando os dias, e o marido estava tão pasmado por ver a mulher tornar-se tão arranjada e limpa que lhe disse que assim viveriam como Deus com os anjos.
A mulher contente por se ver agora feliz, foi a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o favor que lhe fez.
– Ai, minha Tia, os seus dez anõezinhos fizeram-me um grande serviço! Trago agora tudo arranjado, e o meu homem anda muito meu amigo. O que lhe eu pedia agora é que mos deixasse lá ficar.
A velha respondeu-lhe:
– Deixo, deixo. Pois tu ainda não viste os dez anõezinhos?
– Ainda não; o que eu queria era vê-los.
– Não sejas tola; se tu queres vê-los olha para as tuas mãos. Os teus dedos é que são os dez anõezinhos.
A mulher compreendeu o que tinha acontecido, e foi para casa satisfeita consigo mesma por ter aprendido a ter gosto pelo seu trabalho.
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Bem vistas as coisas, tanto a história da Cinderela como a dos Dez anõezinhos são discutíveis do ponto de vista da igualdade entre os sexos e da defesa dos direitos humanos, mas na verdade há duas boas lições a tirar delas: nunca perder a esperança e tentarmos ser mais organizados de maneira a conseguir fazer bem o que temos para fazer.