Quando vi pela primeira vez a pintura
História de Coelhos de Aurélia de Souza, (1866-1922) lembrei-me imediatamente do
Peter Rabbit de Beatrix Potter (1866-1943). Tratam-se de duas artistas contemporâneas cuja obra tem bastantes diferenças, mas, neste caso, há grandes semelhanças.
A pintura de Aurélia é um biombo tríptico que ela compôs para as sobrinhas Ortigão Sampaio, cerca de 1909 (
Casa-Museu Marta Ortigão Sampaio).
The tale of Peter Rabbit foi publicado em 1901, a expensas da autora, sendo publicado novamente no ano seguinte, com grande sucesso, pela Frederick Warne & Co.
Não sei se Aurélia de Souza conhecia o Peter Rabbit. Adelaide Duarte, no seu liveo sobre Aurélia de Souza (Quidnovi, 2010) refere apenas influências das «históras que circulavam na época em vidros projectados por lanterna mágica». Mas, pessoalmente, ainda gostava de saber se Aurélia de Sousa conhecia a obra de Beatrix Potter.
De qualquer modo acho lindíssima e imaginativa a pintura de Aurélia. O facto de ser um tríptico cuja leitura pode ser feita em separado ou em conjunto é muito interessante e faz-me lembrar uma estrutura de vinhetas da banda desenhada. A naturalidade do comportamento da família de coelhos é admirável, sobretudo pelo pai coelho de perna cruzada a ler o jornal, enquanto a mãe coelho se atarefa a tentar apanhar um dos filhos, enquanto o outro se agarra à fita do avental.
E, independentemente de qualquer influência possível, o mundo da imaginação sempre me fascinou. Como escreveu
Beatrix Potter, em 1896: «I remember I used to half believe and wholly play with fairies when I was a child. What heaven can be more real than to retain the spirit-world of childhood, tempered and balanced by knowledge and common-sense...».