quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Sacra Conversazione

Jan van Eyck, The Madonna with Canon van der Paele (1436, Museu Groeninge, Bruges)
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A pensar no dia de amanhã, lembrei-me deste tema da arte, desenvolvido no Renascimento Italiano, que apresenta a Virgem e o Menino juntamente com um grupo de santos, anjos e por vezes os doadores. Rona Goffen julga que a origem está no séc. XIV e muitos historiadores excluem obras não italianas, por exemplo a de Jan van Eyck (cf. Wikipédia). 
Eu, decidi não fazer exclusões e escolher algumas das Sacra Conversazioni de que mais gosto, incluindo algumas variações sobre o género.
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Fra Angelico, Sacra Conversazione (1443, Basilica di San Marco, Florence)
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Piero della Francesca, La Vergine con il Bambino e santi (c. 1472, Pinacoteca di Brera)
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Giovanni Bellini, Allegoria Sacra (c. 1490, Galeria dos Uffizi, Florença)
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Cima da Conegliano, Sacra Conversazione ou Descanso na Fuga para o Egipto (c. 1496-1498, Museu Calouste Gulbenkia, Lisboa)
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Gérard David, Vierge entre les Vierges (c. 1500, Musée des Beaux-Arts de Rouen)
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Vittore Carpaccio, Sacra Conversazione (c. 1505)
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Hans Holbein, o Velho, Virgem com o Menino e entre Santos e Anjos (1519, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa)

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Adenda

No Dictionnaire des Symboles, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, (Paris, Robert Laffont / Jupiter, 1982, p. 879), pode ler-se que na China, o sésamo é um fortificante tradicional que se julga que ajuda a alcançar a longevidade. 
A palavra ficou ligada à fórmula mágica "Abre-te Sésamo", mas não se sabe a origem exacta da relação entre a planta e a caverna, sendo possível a existência de uma ligação através da ideia de fertilidade, pois a vagem ao abrir dá as riquezas da terra. Poderá ainda ter uma leitura psicológica de acesso ao inconsciente:
«Le Sésame, ouvre-toi! est le cri d'appel, lancé à la richesse enfermée dans la caverne, que cette caverne soit celle de la graine nourrissante et fécondante, qu'elle soit le coffre des richesses matérielles, qu'elle soit le refuge de la révélation spirituelle ou le labyrinthe de l'inconscient».

Abre-te Sésamo

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«As sementes de sésamo estão protegidas por uma cápsula que só abre quando as sementes estão completamente maduras. Isso é chamado de deiscência .» - Wikipédia.
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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Ainda o tempo

Katie Paterson, Timepieces (Solar System) (2014)
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Esta obra de arte conceptual, apresenta, como diz a autora, uma série de nove relógios que mostram as horas nos planetas do sistema solar, incluindo também a Lua. A duração do dia varia de planeta para planeta, desde o mais pequeno em Júpiter até ao mais longo em Mercúrio:

Mercúrio 4223 horas
Vénus 2802 horas
Terra 24 horas
Lua 708 horas
Marte 24 horas 40 minutos
Júpiter 9 horas 56 minutos
Saturno 10 horas 39 minutos
Úrano 17 horas 14 minutos
Neptuno 16 horas 6 minutos

domingo, 28 de outubro de 2018

No dia de 25 horas

Gerald Murphy, Watch (1925, The Dallas Museum of Art)
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Com votos de bom Domingo!

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

E Tomás da Anunciação

Piquenique (1865, Museu Quinta das Cruzes, Funchal)
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Tomás da Anunciação nasceu a 26 de Outubro de 1818 (outro pintor do signo de escorpião), fazendo hoje o bicentenário do seu nascimento. No MNAC, às 17:00 (não posso ir, infelizmente) haverá uma apresentação do novo núcleo de obras, com destaque para a pintura Piquenique (1865). A apresentação será feita por Maria de Aires Silveira.

Portinari em Vila Franca

Café (1935, Museu Nacional De Belas Artes, Rio De Janeiro)
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Achei muito interessante a exposição sobre Candido Portinari (1903-1962), em Vila Franca de Xira, que apresenta a sua obra no contexto português e da cultura portuguesa. Com curadoria da directora científica do Museu do Neo-Realismo, Raquel Henriques da Silva, e de Luísa Duarte Santos, a exposição vai estar patente até 3 de Março de 2019. Como notas e curiosidades, chamou-me a atenção o facto de Portinari ter visto a obra de Picasso, em 1940, e parece-me haver relação sobretudo entre o Carnaval (1942) e a Guernica (1937). Por outro lado, fiquei com vontade de ler A Selva de Ferreira de Castro, na versão ilustrada por Portinari. 
Hoje haverá visitas guiadas à exposição, por Raquel Henriques da Silva.
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Café (estudo para mural) (1936, CAM-FCG)

Cacau (estudo para mural) (CAM-FCG)

Carnaval (1942, MNSR)

Chorinho (1942, MNAC)

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Adenda

Do mesmo livro, as palavras de Brassaï sobre o molde da mão de Picasso:

«I also see a cast of his right hand, executed, I think, by someone else. It stands alone and autonomous, a monument of supreme potency, equilibrium: fleshy palm. Mount Venus sensually jutting out, willful thumb, fingers pressed tight against one another, preventing any light from passing between them. And what clarity, what cleanness, in the deeply etched lines that furrow that large palm of a craftsman, dominated by the line of fate that rises straight as a rocket to the base of the middle finger».
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Brassaï, Conversations with Picasso, University of Chicago, 1999, p. 186.

A mão direita de Picasso

Brassaï, La main droite de Picasso (1943)
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«I say this because in some inexplicable way it seems to me that the spirit which animates Picasso can never be fully accounted for by his work, no matter how prodigious it may be. Not that I deny the greatness of his work, but that the man himself is and will remain far greater than anything or everything which he accomplishes with his hands. He is so much more than the painter, sculptor, or whatever he may choose to be while breath is in him. He is outsized, a human phenomenon».
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Henry Miller (prefácio), Brassaï, Conversations with Picasso, University of Chicago, 1999, p. x.
Nota: Picasso também era escorpião e nasceu a 25 de Outubro de 1881.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Mãos que criam

Aurélia de Sousa, Mãos da Artista (Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto)
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«A mão, o instrumento dos instrumentos».
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Aristóteles.
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Citação retirada do livro Dicionário de Citações e Provérbios, de Luis Señor González, publicado pelo Correio da Manhã, em 2004, p. 139.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Com o Sol em Escorpião

Federico Babina, Zodiac De Sign
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Os doze famosos escolhidos por mim, são:

Voltaire (filósofo, 21 de Novembro de 1694)
D. Fernando II (rei de Portugal, 29 de Outubro de 1816)
Ramalho Ortigão (escritor, 24 de Outubro de 1836)
Alfred Sisley (pintor, 30 de Outubro de 1839)
Auguste Rodin (escultor, 12 de Novembro de 1840)
Claude Monet (pintor, 14 de Novembro de 1840)
Silva Porto (pintor, 11 de Novembro de 1850)
Columbano Bordalo Pinheiro (pintor, 21 de Novembro de 1857)
Marie Curie (cientista, 7 de Novembro de 1867)
Raul Lino (arquitecto, 21 de Novembro de 1879)
Pablo Picasso (artista, 25 de Outubro de 1881)
Sophia de Mello Breyner Andresen (escritora, 6 de Novembro de 1919)
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A lista é longa (muitos faltam aqui), mas acrescento mais dois: o rei D. Fernando I (31 de Outubro de 1345) e o actor John Cleese (27 de Outubro de 1939).

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Com votos de boa semana!

Anthony Thieme, Fall Sunlight
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Em ligação com o post da Isabel, no blogue Palavras Daqui e Dali, sobre a «Luz de Outono» - e também porque gosto muito da luz do Sol (apesar da chuva ser obviamente necessária) - deixo aqui esta pintura e esta frase:

“Ô, Sunlight! The most precious gold to be found on Earth.”
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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Arte

Vincenzo Cabianca, Canale della Maremma toscana (1862)
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«The greatness of art is not to find what is common but what is unique». 
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terça-feira, 16 de outubro de 2018

Júlio Costa (com achegas à Figueira da Foz e ao seu Museu)

Júlio Costa, Romeira (c. 1883)
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Numa revista Branco e Negro, de 18 de Outubro de 1896, tecem-se elogios a Júlio Costa (1853-1923), que me parece que ficou esquecido para a história da arte. 
Na revista, diz-se que a Romeira, aqui reproduzida, foi o grande êxito da exposição de arte do Ateneu do Porto, em 1883 - pertencendo a pintura, em 1896, a Joaquim Sotto Maior (proprietário do Palácio da Figueira da Foz, que este ano visitei e que já aqui referi). Diz-se ainda que o artista foi um dos pintores portugueses mais notados na (então) recente exposição de Berlim.
Fiquei intrigada, porque nunca ouvira falar de Júlio Costa (pelo menos, que me lembre), o que só demonstra como a fama é uma coisa bem fugidia.
No entanto, na página da Universidade do Porto, há um artigo sobre ele, onde se pode ler que Júlio Costa era portuense e estudou na Academia dessa cidade, aluno de António José da Costa, tendo concluído o curso de Pintura de História, em 1881. «Participou nas exposições do Centro Artístico Portuense (1881 e 1882), de que era sócio. Expôs na trienal da Academia Portuense de 1884, nas Exposições d’Arte, entre 1887 e 1895, e no Ateneu Comercial do Porto. Associou-se às exposições do Grémio Artístico de Lisboa (de 1891 e seguintes) e concorreu à Exposição do Rio de Janeiro, de 1908». Ficou conhecido sobretudo como retratista, dentro do estilo realista, sendo autor do retrato do seu mestre António José da Costa, datado de 1921, propriedade do Museu Nacional de Soares dos Reis. Para saber mais sobre o artista, aconselho a página da Universidade.

Retrato de Senhora (1909, Leiloeira S. Domingos)
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Nota: No mesmo número da revista, há um artigo (de Vale Sousa) sobre o Museu Municipal da Figueira da Foz e António dos Santos Rocha, seu fundador.

Retrato de António dos Santos Rocha, Branco e Negro18 de Outubro de 1896.
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Vista da Secção de Arqueologia HistóricaBranco e Negro18 de Outubro de 1896.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

E o Outono, que chegou mesmo...

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Com esta chuva e tempo outonal, lembrei-me desta canção (que já fala do Inverno):



E na versão de 1966 (não sei qual prefiro):

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Com votos de bom fim-de-semana!

Outro dia, num calendário, descobri que hoje era dia de Nossa Senhora Aparecida, e lembrei-me desta canção, que marcou a minha infância:

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Carlos Relvas

Auto-Retrato (1868-1869)
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«Carlos Relvas é um dos fotógrafos amadores mais reconhecidos na história da fotografia portuguesa do século XIX. Esta exposição teve como ponto de partida um projeto de investigação (CICANT— Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias) dedicado ao estudo da fotografia estereoscópica de Carlos Relvas e à sua importância nos primeiros anos da atividade deste fotógrafo, entre 1862 e 1874. / (...)» - MNAC


«(...) / A exposição consagra ainda um importante destaque ao exímio fotógrafo retratista através de uma análise da evolução desta tipologia no seu percurso, desde o primeiro estúdio ainda improvisado até à sofisticação técnica e arquitetónica do segundo, um dos raros estúdios de fotografia do século XIX construído de raiz, e ainda preservado na sua terra natal da Golegã» - MNAC.
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Tomar. Portico da Igreja do Convento de Cristo (1870-1880, Arquivo de Documentação Fotográfica / DPIMI/DGPC)
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Guimarães. Bois do Barroso (1870-1880, Arquivo de Documentação Fotográfica / DPIMI/DGPC)
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Álbum "Photographias de C. Relvas" (Atelier fotográfico) (1880, Arquivo de Documentação Fotográfica / DPIMI/DGPC)

O Atelier fotográfico, inaugurado em 1876, foi um «autêntico templo dedicado à arte fotográfica», nas palavras de João Salgueiro da Mouta. Segundo este investigador, a «execução da obra foi entregue ao arquitecto Henrique Carlos Afonso, mas o rigor posto na sua construção sugere que terá sido Relvas o verdadeiro diretor do projecto». Curiosamente, este arquitecto, Henrique Carlos Afonso (f. 1884), anda a interessar-me, porque foi o autor do projecto do Palacete Ribeiro da Cunha, no Príncipe Real.
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Exposição: CARLOS RELVAS (1838-1894) - VISTAS INÉDITAS DE PORTUGAL. A FOTOGRAFIA NOS SALÕES EUROPEUS. MNAC - até 20 de Janeiro de 2019. Curadoria: Victor Flores, Ana David Mendes, Denis Pellerin e Emília Tavares.
Cf. Sérgio B. Gomes, «O que está por detrás das medalhas de Carlos Relvas», in Público, 5 de Outubro de 2018 (edição online); João Salgueiro da Mouta, «A Casa-Estúdio Carlos Relvas», in DP-Arte Fotográfica, N.º 42, janeiro 2012, Editora MindAffair, Estoril (Facebook).
Nota: As fotografias que aqui coloquei foram as que encontrei na internet e não necessariamente as que estão expostas no MNAC.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Exposições

«You have to understand what the curator does to understand in part what you are looking at in an exhibition».
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Há uma série de exposições que eu gostaria de me organizar para ir ver. Só a uma delas já fui, que foi a do Carlos Relvas, no MNAC (curadoria de Victor Flores, Ana David Mendes, Denis Pellerin e Emília Tavares) - até 20 de Janeiro de 2019.
À minha lista, acrescento ainda a Ver Tudo: Màmia Roque Gameiro (até 24 de Fevereiro de 2019), comissariada por Sandra Leandro (haverá visitas guiadas); e a Tempos Modernos (até 31 de Março de 2019), com curadoria de Rita Gomes Ferrão (será que consigo ir uma visita orientada?).

 


Quanto à exposição de Carlos Relvas, ainda queria lá voltar, nomeadamente para experimentar tirar uma fotografia em cenário oitocentista. Para quem conseguir, há ainda uma visita guiada, a 11 de Outubro, à exposição O Poder da Imagem, no MNAC, feita pela curadora Maria de Aires Silveira.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Brasaï e Bonnard

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Pierre Bonnard, Corbeille de fruits reflétant dans une glace de buffet (c. 1944-1946, The Museum of Modern Art, New York)
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Pierre Bonnard, L'amandier en fleurs (c. 1946)
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Pierre Bonnard, Interior: Dining Room (La Salle à manger) (1942-1946, Virginia Museum of Fine Arts, Richmond)

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Espelhos I

Fairfield Porter, The Mirror (1966)
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Alberti «aperçoit très bien comment le jeu diffus des couleurs et l'échelonnement même de la perspective se simplifient dans le miroir, comment ils gagnent en intelligibilité et en précision dans les "miracles de la peinture". Il donne donc le miroir pour un excellent juge du tableau lui-même: "Je ne sais comment les bons tableaux ont tant de grâce dans le miroir. Il est merveilleux de voir comme les faiblesses d'un tableaux s'y révèlent. Les objets peints d'après nature peuvent y êtres corrigés"».
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André Chastel, Art et Humanisme à Florence au Temps de Laurent le Magnifique, Paris, Presses Universitaires de France, 1982 (1.ª ed. 1959), p. 321.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Painel de São Francisco e pedras de armas de Leiria

Painel de São Francisco e Pedras de Armas (Séc. XVII, Rua de Alcobaça, Leiria)
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O painel será proveniente do Convento de São Francisco e as pedras de armas pertenceram à antiga Casa da Câmara, na actual Praça Rodrigues Lobo.
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«D. Afonso Henriques no ano de mil e cento e trinta e cinco, mostrou a estimação, que fazia da obediência, que [Leiria] lhe tributava, mandando para sua maior defesa fazer um Castelo com suas torres, e baluartes na eminencia de um monte, em que se levanta, e ainda hoje se admira; e elegeu por seu Governador ao valeroso Capitão Paio Guterres. Sentirão os Mouros a sua falta, e no ano de mil e cento e quarenta a vieram conquistar com um poderoso Exercito, a cujas forças não podendo já resistir os sitiados, pelejando até lhe faltarem as vidas, foi por eles entrada, e rendida. Não pode o nosso Rei socorrê-la no conflito; não se descuidou porém em vir restaurá-la, passado pouco mais de um ano. Notou-se, que acampado o Exército, e começando os nossos Soldados a combater o Castelo, começou hum Corvo, que se havia posto sobre um pinheiro, a bater as asas, e a dar gritos, que pareciam festivos, e os Soldados tendo-o por feliz prognostico, se alentaram a pelejar, e entraram com facilidade pela porta da traição, que acharam sem resistência. Perseverou nesta ditosa sujeição até o ano de mil e cento e noventa e cinco, no qual foi destruída pelos mesmos inimigos; mas no mesmo ano a restaurou, e reedificou El-Rei D. Sancho I, que lhe deu foral, e por Armas um Corvo sobre um pinheiro em memoria da primeira restauração».
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Cf. Frei José de Jesus Maria, Espelho de Penitentes e Chronica da Provincia de Santa Maria da Arrabida, da regular e mais estreita Observancia da Ordem do Serafico Patriarcha S. Francisco, no Instituto Capucho: Chronica da Provincia de Santa Maria da Arrabida, Lisboa Occidental, Officina de Joseph Antonio da Sylva, 1737, Vol. II, pp. 268-269.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Óbidos, segundo Raul Lino

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«(...) uma das terras do país que mais conservam o seu pitoresco medieval.
(...) D. Denis fêz doação da vila (...) a sua mulher a rainha S.ta Isabel (...). Desde então ficou sendo apanágio da casa das Rainhas até 1833 (...).
(...) Na quinta da Capeleira, próximo da vila, viveu Josefa d'Ayala y Cabrera, mais conhecida por Josefa de Óbidos, filha dum obidense e duma sevilhana.
O castelo de Óbidos (mon. nac.) é um dos exemplares mais perfeitos do tipo da nossa fortaleza medieval. (...) Coroando a crista calcárea do monte, as muralhas têm a planta de um ferro de engomar, com o bico virado ao S., terminado pela Tôrre Vedra ou do Facho. Na base dêste triângulo, ao N., fica o castelo própriamente dito, onde seria o paço do alcaide.
Lá dentro, envolvida quási completamente pelas muralhas, como nos séc. XIII e XIV, fica a vila (...).
Em dias de sol, a vila, cujo casario transborda a E. para fora das muralhas, apresenta um aspecto bem meridional e pitoresco. As velhas casas, muito caiadas e garridas, com os seus cunhais pintados a azul, vermelhão ou verde-cobre, perfilam-se sôbre as ruas turtuosas, umas baixas, outras altas, umas à frente, outras mais recuadas, parecendo jogar às escondidas com os transuentes (...). Um ou outro vão manuelino finamente recortado e o pelourinho joanino (mon. nac.), de granito, com o camaroeiro de D. Leonor (...). Tôda a vila é mesclada de parreiras e ciprestes, tendo sempre por fundo as vetustas muralhas ameadas, cuja côr naturalmente sugeriu o célebre dito de D. João V: "Eis aqui um vilão com uma cinta de oiro".
Dão acesso à vila quatro portas e dois postigos. (...) a S. e a E. ficam as da Vila e a do Vale, guarnecidas de pitorescos oratórios abertos para o interior das muralhas. O que fica junto à porta do Vale, dedicado à S.ª da Graça, tem a forma de capela, e foi mandado construir nos principios do séc. XVIII pelo magistrado da Índia Bernardo de Palma (...).
O castelo (...) encerra restos dum paço, que deve datar do princípios do séc. XVI. Á altura do andar nobre vêem-se duas janelas manuelinas ricamente lavradas e um portal do mesmo estilo, a que uma extensa escada exterior teria dado acesso. O portal é encimado por um brasão dos Noronhas e pelo escudo real (...). Na parede desta sala, oposta aos referidos vãos, encontra-se uma rica lareira, também manuelina, e na parte exterior do castelo, ao N., ainda se vêem, à altura do mesmo pavimento, restos dum janelão manuelino de vêrga trilobada.
"Da campina de extra-muros destacam-se para o S. algumas velhas aldeias: a Roliça (...)... No quadrante norte vêem-se S. Martinho do Pôrto, as Caldas, a freguesia de S. Gregório, a Fanadia, célebre pelo seu pão de ló, e enfim a Lagoa... (...)" (R. Ortigão).
(...)


Das igrejas da vila e redondezas, a mais notável é sua matriz, de St.ª Maria, cuja fundação é anterior à monarquia. Como hoje se encontra, é uma construção da Renascença (...). Do lado do Evangelho, está o túmulo de D. João de Noronha, alcaide-mor de Óbidos (m. 1575), obra prima da Renascença Coimbrã (...). Vêem-se neste templo mais de 20 pinturas de Josefa de Óbidos (...).


S. Martinho é uma linda capela ogival do séc. XIV, fundada no tempo de D. Afonso IV por um beneficiado da Sé de Lisboa.(...)
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Raul Lino, «Óbidos», Guia de Portugal, Biblioteca Nacional, 1927, pp. 587-592.