terça-feira, 17 de maio de 2016

Heterotipias: museus e bibliotecas

Antoon François Heijligers, Interior of the Rembrandt Room in the Mauritshuis in 1884  (1884, Mauritshuis, The Hague)
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«Heterotopias are most often linked to slices in time — which is to say that they open onto what might be termed, for the sake of symmetry, heterochronies. The heterotopia begins to function at full capacity when men arrive at a sort of absolute break with their traditional time. From a general standpoint, in a society like ours heterotopias and heterochronies are structured and distributed in a relatively complex fashion. First of all, there are heterotopias of indefinitely accumulating time, for example museums and libraries, Museums and libraries have become heterotopias in which time never stops building up and topping its own summit, whereas in the seventeenth century, even at the end of the century, museums and libraries were the expression of an individual choice. By contrast, the idea of accumulating everything, of establishing a sort of general archive, the will to enclose in one place all times, all epochs, all forms, all tastes, the idea of constituting a place of all times that is itself outside of time and inaccessible to its ravages, the project of organizing in this way a sort of perpetual and indefinite accumulation of time in an immobile place, this whole idea belongs to our modernity. The museum and the library are heterotopias that are proper to western culture of the nineteenth century.»
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Michel Foucault, «Of Other Spaces: Utopias and Heterotopias» (online) - os "bolds" são meus.

2 comentários:

LuisY disse...

É bem verdade o que escreve Michel Foucault neste texto. Nas bibliotecas, no final do século XIX, engendrou-se um sistema para classificar todos os assuntos da humanidade, a Classificação Decimal Universal, CDU, que ainda hoje é usada sobretudo para organizar os livros nas estantes. É um sistema quase perfeito e diabólico de catalogação de todo o conhecimento humano, que se divide 10 classes, em que uma está vazia. Depois cada uma das classes se vai dividindo e subdividindo quase até ao infinito, numa hierarquia que foi definida em congressos de bibliotecários e especialistas nas várias ordens do saber. Por exemplo, a religião é representada pelo nº "2", a história da religião pelo "27", ordens religiosas "271", mas um livro sobre a ordem de carmelita de santa Teresa de Jesus poderá já ser classificada em 271.971

O sistema hoje está um bocadinho fora de moda, pois todos sabemos que os assuntos não se podem compartimentar desta maneira, e que um tema tradicionalmente da teologia, pode ser estudado pela história da arte ou pela Antropologia, Sociologia e até pelo Direito. São os chamados assuntos transversais a várias ciências e que rebentam com a disciplina das classes da CDU. Apesar de o sistema ter sido abandonado para recuperar por assunto os livros numa biblioteca, a Classificação Decimal Universal continua a ser usada para arrumar por grandes temas os livros na estantes não só nas bibliotecas como nas livrarias. De tal forma, o sistema foi interiorizado por todos, que qualquer pessoa mais culta, se um dia tiver que organizar a sua biblioteca em casa tenderá a usar as classes da CDU, mesmo que não tenha ouvido nunca falar do sistema, ou seja, começará com as generalidades, passará para a filosofia, a religião, as ciências sociais, as ciências puras e exactas, a arte, a literatura e finalmente terminará com os livros de geografia e a história.

Bjos

Bjos

Margarida Elias disse...

LuisY - Interessantíssimo o seu comentário. Sabia que o tema existia mas nunca tinha percebido a regra exacta. Ainda sou do tempo das pesquisas manuais nas bibliotecas e lembro-me de ver a sigla CDU. Bom dia!