terça-feira, 31 de março de 2009

O Caminho do Calvário


Gravura de Martin Schongauer, Christ Carrying the Cross (ca. 1475– 1480, Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque).
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Martin Schongauer (1435-1491) foi um excelente gravador, originário da Alsácia. As suas obras aliam o talento gráfico a um vivo sentimento dos ritmos da perspectiva e do espaço.
Nesta gravura sobressai a grande agitação provocada pelo grande friso de figuras, caminhando para a esquerda, acompanhando Jesus, enquanto este leva a cruz para o Calvário. No centro da composição está Cristo. O caminhar para a esquerda sublinha a lentidão, o esforço, da caminhada. A leve diagonal descendente, quase horizontal, sobre a qual está desenhada a enorme cruz, reforça a carga dramática do momento. Esta ganha ainda maior singularidade pela maneira como a cruz, grande e deitada, geométrica e racional, se destaca entre a miríade de personagens, pequenas, sinuosas e agindo de forma agressiva de acordo com a emoção do momento. Cristo, pacífico, quase vergado sob o peso da Cruz, caminha entre a multidão, e destaca-se também por ser o único que olha o espectador. Deste modo, esta composição insere-se no âmbito da Devotio Moderna, movimento religioso do final da Idade Média, que pretendia aproximar Jesus do crente.
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Texto de Margarida Elias.
Bibliografia: Sandro Sprocatti (dir.), Guia de História da Arte, Ed. Presença, 1997.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Esperando o sucesso



Pintura de Henrique Pousão, Esperando o Sucesso (1882, Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto).

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A verdadeira obra de arte nasce do «artista» - criação misteriosa, enigmática, mística. Separada dele, ela adquire uma vida própria, converte-se numa personalidade, num sujeito independente, animado por um sopro espiritual, um sujeito vivo com existência real - um ser...
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Kandinsky.
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Esta pintura sempre me fascinou - e me fez sorrir.
Jogando com o esquema clássico do quadro dentro de um quadro, tem um lado divertido, intrigante e interessante, pois há um evidente contraste entre o desenho infantil do garoto e a pintura naturalista com que Henrique Pousão retratou o rapaz que fez o desenho. A inocência opõe-se ao conhecimento, a infância à maturidade. O desenho à pintura.
Há uma narrativa: o menino estaria a pousar para Henrique Pousão e durante o tempo de espera terá feito o desenho, o qual mostrou ao pintor, e que este incluiu no seu quadro.
Aliás há ainda outro quadro dentro do quadro. O esboço que Pousão fez sobre a tela, retratando o mesmo menino, de perfil. Esse outro quadro também existe e intitula-se Cabeça de Rapaz Napolitano. Há ligeiras diferenças e a posição é simétrica.
O título traz-me ainda uma pergunta: quem espera o sucesso, o pintor ou o rapaz? Talvez ambos.
Henrique Pousão (1859-1884), nasceu em Vila Viçosa e foi um dos melhores pintores portugueses da geração naturalista, tendo alcançado níveis de grande modernidade. Aluno da Academia de Belas-Artes do Porto, partiu como bolseiro para Paris em 1880. Por motivos de saúde foi viver para a Itália, tendo sido nessa altura que pintou este quadro.
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Texto de Margarida Elias.

domingo, 29 de março de 2009

Imagens do Passado



Desenho de Margarida Elias, Ah! Maldito Giraldo Pérfido Cão (Os Primeiros Reis, Ed. Caminho, 1993).
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Cada um tem o seu passado fechado em si, tal como um livro que se conhece de cor, livro de que os amigos apenas levam o título.
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Virginia Woolf

sexta-feira, 27 de março de 2009

Ecce Homo

Pintura de Daumier, Ecce Homo (1851, Folkwang Museum, Essen).
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Il faut que la peinture se voie, l'acte de peindre subsiste, s'affirme sur le sujet, pas nécessairement à ses dépens ...
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Jean-Jacques Lévêque.

quinta-feira, 26 de março de 2009

A cor violeta

Pintura de António Carneiro, Contemplação (1911, Museu do Chiado, Lisboa).
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Olho... A Outra Banda, violeta, desapareceu na noite. O rio azul, depois diáfano e cor de cinza, desfez-se em violeta, um resto de poalha vai sumir-se na bruma, onde só a jóia do farolim cintila. Os tons violetas afogaram tudo e a paisagem desfalece. O mundo não existe - o mundo é a luz.
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Raul Brandão.

quarta-feira, 25 de março de 2009

As árvores I




Fotografias de Margarida Elias, algumas árvores feitas na Creche do Povo (Tree Parade, 2009, Torres Vedras).
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Era uma vez – em tempos muito antigos, no arquipélago do Japão – uma árvore enorme que crescia numa ilha muito pequenina.
Os japoneses têm um grande amor e um grande respeito pela Natureza e tratam todas as árvores, flores, arbustos e musgos com o maior cuidado e com um constante carinho.
Assim, o povo dessa ilha sentia-se feliz e orgulhoso por possuir uma árvore tão grande e tão bela: é que em nenhuma outra ilha do Japão, nem nas maiores, existia outra árvore igual. Até os viajantes que por ali passavam diziam que mesmo na Coreia e na China nunca tinham visto uma árvore tão alta, com a copa tão frondosa e bem formada.
E, nas tardes de Verão, as pessoas vinham sentar-se debaixo da larga sombra e admiravam a grossura rugosa e bela do tronco, maravilhavam-se com a leve frescura da sombra, o suspirar da brisa entre as folhagens perfumadas.
Assim foi durante várias gerações.
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terça-feira, 24 de março de 2009

As nuvens


Fotografia de Margarida Elias (Ameal).
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As nuvens são das principais responsáveis pela existência da Meteorologia. Sem elas, não existiriam fenómenos como a neve, trovões e relâmpagos, arco-íris ou halos. Seria imensamente monótono olhar para o céu: apenas existiria o céu azul. Uma nuvem consiste num agregado visível de pequenas gotas de água ou cristais de gelo suspensos no ar. Umas são encontradas a altitudes muito elevadas, outras quase tocam no chão.
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segunda-feira, 23 de março de 2009

Jesus entre os Doutores

Pintura de Albrecht Dürer, Jesus entre os Doutores (1506, Museu Thyssen-Bornemisza, Madrid).
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«(...) En la obra vemos cómo seis doctores forman un círculo de cuyo centro emerge la figura de Jesús. Las manos de uno de los rabinos y las del Niño constituyen, por su posición y expresividad, el foco de atención de la escena. (...) La belleza y la fealdad, la juventud y la vejez contrastan con singularidad. La obra, datada y firmada en el papel que sobresale en primer término, incorpora además una inscripción en latín que dice: "obra hecha en cinco días", tiempo éste en el que pudo ser pintada sin contar los estudios preparatorios de las manos, libros y rostro de Cristo que se guardan en la Albertina de Viena y en el Germanisches Nationalmuseum de Núremberg (...)».
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Mar Borobia

sábado, 21 de março de 2009

O tempo circular

Fotografia de Margarida Elias, Igreja da Graça (Torres Vedras, 2009).
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Com efeito, o universo não é estático. Move-se com o próprio movimento de Deus. Toda a experiência espiritual se vive como um avanço, como um progesso (...). Na verdade, este movimento é duplo. Por um lado, é circular. Os ritmos cósmicos, os percursos dos astros, o caminhar do dia e das estações, todos os crescimentos biológicos se ordenam em ciclos, e estes retornos periódicos devem ser interpretados como um dos sinais da eternidade.
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Georges Duby.

quarta-feira, 18 de março de 2009

O mar

Fotografia de Margarida Elias, Litoral Alentejano.

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Basta pegar num velho búzio para se perceber distintamente a grande voz do mar. Criou-se com ele e guardou-a para sempre. - Eu também nunca mais a esqueci...
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Raul Brandão.

terça-feira, 17 de março de 2009

A realidade

Pintura das Cavernas de Lascaux (15000 anos A.C., França).
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Reality is merely an illusion, albeit a very persistent one.

domingo, 15 de março de 2009

Livros de Horas

Iluminura de Jean Fouquet, A Coroação da Virgem (1452-60, Livro de Horas de Étienne Chevalier, Museu Condé, Chantilly).
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Um Livro de Horas é um livro de orações usado para devoção privada, que se tornou comum a partir do éculo XV. Os seus conteúdos e ilustrações variavam. Geralmente o Calendário é ilustrado pelas Ocupações dos Meses e as Horas do Ofício da Virgem por oito iluminuras, cada qual ligada a uma hora determinada: Matinas - Anunciação; Laudes - Visitação; Prima - Natividade; Tércia - Anunciação aos Pastores; Sexta - Adoração dos Magos; Noa - Apresentação no Templo; Vésperas - Fuga para o Egipto ou Massacre dos Inocentes; Completas - Coroação da Virgem ou Massacre dos Inocentes. A maioria destas imagens eram provavelmente derivadas do Pasaltério. As outras orações também eram ilustradas.
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Baseado em The Oxford Companion to Art.

sábado, 14 de março de 2009

O Princípio da Necessidade Interior

Fresco representando golfinhos (Idade do Bronze, Akrotiri - Santorini).
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«(...) a cor é um meio para exercer uma influência directa sobre a alma. A cor é a tecla; o olho, o martelo. A alma, o instrumento das mil cordas.

O artista é a mão que, ao tocar nesta ou naquela tecla, obtém da alma a vibração justa.
A harmonia das cores baseia-se exclusivamente no princípio do contacto eficaz. A alma humana, tocada no seu ponto mais sensível, responde.
A este fundamento, chamaremos o Princípio da Necessidade Interior
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Kandinsky.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Casal de São José




Fotografia de Margarida Elias, Vivenda S. José (Lisboa, 2009).
(Campo Grande 191, 1920, decoração interior do pintor Gabriel Constante).
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Em 1788, o Intendente Pina Manique manda elaborar o projecto do Passeio Público do Campo Grande, onde Alvalade mantém todas as características de “Campo”, constituindo uma das mais interessantes alamedas de Lisboa. Incluído na periferia do Lumiar até ao século XVII, e no Concelho de Loures até há pouco mais de cem anos, o Campo Grande – local de treino militar no século XVI… –, viu nascer em seu redor novos retiros e solares onde os lisboetas procuravam viver horas de folga ou noites de paródia, com fados, petiscos, esperas de touros ou saraus. Dos retiros, foi o Quebra-Bilhas, com grandes tradições gastronómicas, que chegou até aos nossos dias, mais propriamente até 2005 (...). Dos solares, o melhor exemplar é o Palácio Pimenta (Museu da Cidade), com os seus magníficos pátios e interiores. O aspecto actual do Campo Grande (Keil do Amaral, 1950), com os seus lagos e palmeiras, não difere muito do imaginado pelo Conde de Linhares há duzentos anos atrás. Ainda que a ideia de fazer do Campo Grande uma alameda remontasse aos finais do século XVII, apenas em 1801 é que o Príncipe Regente, D. João VI, dá ordens para reformular a área onde anualmente – nos meses de Outubro – era realizada a célebre feira de gado, de ourivesaria, panos e quinquilharias, junto da Igreja dos Santos Reis Magos.
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quarta-feira, 11 de março de 2009

A pirâmide espiritual


Pintura de Ticiano, Assunção da Virgem (1516-1518, Santa Maria Gloriosa dei Frari, Veneza).
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Todo aquele que mergulhar nas profundezas da sua arte, à procura de tesouros invisíveis, trabalha para elevar esta pirâmide espiritual, que alcançará o céu.
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Kandinsky.

terça-feira, 10 de março de 2009

Um quadro

Pintura de Giorgione, A Tempestade (c. 1505, Galeria dell'Accademia, Veneza).
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Cada quadro encerra misteriosamente toda uma vida, com muitos sofrimentos, dúvidas, horas de entusiasmo e de iluminação.
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Kandinsky.

A natureza

Pintura de Alda Silva.
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A Natureza não conclue. Essa faculdade pertence à Arte (...).
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Teixeira de Pascoaes (1924).

domingo, 8 de março de 2009

Pentecostes

Les Très Riches Heures du duc de Berry (Folio 186r, Museu Condé, Chantilly).
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«E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados.
E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles.
E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem».
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Actos dos Apóstolos (2, 2-4).

sexta-feira, 6 de março de 2009

O diálogo

Pintura de Georges de La Tour, Le Tricheur (Museu do Louvre, Paris).
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Dialogue should simply be a sound among other sounds, just something that comes out of the mouths of people whose eyes tell the story in visual terms.
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Alfred Hitchcock

quinta-feira, 5 de março de 2009

O azul I

Pintura de Cátia Mourão (2000, Colecção Particular).
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«Le bleu est la plus profonde des couleurs: le regard s'y enfonce sans rencontrer d'obstacle et s'y perd à l'infini, comme devant une perpétuelle dérobade de la couleur. Le bleu est la plus immatérielle des couleurs: la nature ne le présente généralement qui fait de transparence, c'est-à-dire de vide accumulé, vide de l'air, vide de l'eau, vide du cristal ou du diamant. Le vide est exact, pur est froid. Le bleu est la plus froid des couleurs, et dans sa valeur absolue la plus pure, hors le vide total du blanc neutre. De ces qualités fondamentales dépend l'ensemble de ses applications symboliques».
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Jean Chevalier e Alain Gheerbrant.

quarta-feira, 4 de março de 2009

O azul

Pintura de Giotto, Ascenção (c. 1305, Cappela Scrovegni, Pádua).
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«Durante séculos, a luz, cores e temas dos frescos de Giotto transmitiram uma mensagem de fraternidade universal e de paz. (...) A beleza de uma existência onde o cosmos não se revolta contra a violência de muitos, mas projecta na sossegada musicalidade do azul uma espiritualidade incorpórea que nos transporta a mundos interiores, a significados mais profundos da existência humana».
«(...) a mensagem de Giotto será mais uma vez proposta ao mundo. Aquele azul ainda invoca a origem comum da humanidade: diz certamente algo aos chineses, onde o azul é um símbolo de imortalidade; aos europeus, que o vêem como uma vitória do humanismo face ao racionalismo; aos árabes, para quem o azul é a cor da felicidade; aos povos nativos da América, que associam o azul a uma existência animada por valores morais. Azul céu que acompanha o brilho das mais impensáveis conquistas científicas».
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Claudio Bellinati.

terça-feira, 3 de março de 2009

Il nome della rosa

Escultura de Antonio Canova, Cupido e Psyche (detalhe, 1786-1793, Museu do Louvre, Paris).

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L'amore vero vuole il bene dell'amato.
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Umberto Eco.

segunda-feira, 2 de março de 2009

This land is a little land

Papel de parede de William Morris, Daysy Wallpaper (1864).
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"This land is a little land; too much shut up within the narrow seas, as it seems, to have much space for swelling into hugeness: there are no great wastes overwhelming in their dreariness, no great solitudes of forests, no terrible untrodden mountain-walls: all is measured, mingled, varied, gliding easily one thing into another: little rivers, little plains, swelling, speedily- changing uplands, all beset with handsome orderly trees; little hills, little mountains, netted over with the walls of sheep- walks: all is little; yet not foolish and blank, but serious rather, and abundant of meaning for such as choose to seek it: it is neither prison nor palace, but a decent home."
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William Morris (1882).

domingo, 1 de março de 2009

As flores

Pintura de Emília Mattos.
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Para São João da Cruz, as flores são imagem das virtudes da alma, sendo o bouquet que as une a imagem da perfeição espiritual. Para Nouvalis a flor é símbolo do amor e da harmonia, identificando-se com a infância. Entre outras aplicações alegóricas, as flores são atributos da Primavera, da aurora e da juventude.
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Baseado em Jean Chevalier e Alain Gheerbrant.