sexta-feira, 31 de julho de 2009

A cruz

Entrada para o Convento dos Capuchos (Fotografia de Margarida Elias, 2009).
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«Lo primero que hace un hombre es establecer lo ortogonal frente a sí, arreglar, poner en orden, ver claro frente a si (...) El hombre, afirmo, se manifiesta por el orden (...) lucha contra la naturaleza para dominarla (...) El hombre solo trabaja sobre geometria (...) Si me hubiesen dicho que trazase algo sobre una pared, me parece que habría trazado una cruz, que está hecha de cuatro ángulos rectos, que es una perfección que lleva en sí algo divino y que es, al mismo tiempo, una toma de posesión de mi universo, porque en los dos ejes, apoyo de las coordenadas con las que puedo representar el espacio y medirlo».
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Le Corbusier, «El espíritu nuevo en arquitectura» (1924), citado por Ramón Rodriguez Llera (2006).

quarta-feira, 29 de julho de 2009

A Grande Estrada da China

Pintura de Filipe Rocha da Silva, A Grande Estrada da China (1986, Reprodução de 100 Pintores Portugueses do Século XX - Alfa 1986)
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«Padrões-figuras de dimensões minúsculas cobrem áreas planas, como insectos ou flores em distante observação. O humor não está apenas nas figuras, mas no próprio peocesso de registo».
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Rui Mário Gonçalves.
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Sempre me fascinou esta pintura desde a primeira vez que a vi, que deve ter sido precisamente em 1986 ou 1987. Foi numa exposição da Gulbenkian, onde fui com a minha turma do 11.º ano, do Liceu Filipa de Lencastre. Acho que fomos ver uma exposição do Amadeu de Sousa Cardoso, estando também expostos outros artistas portugueses contemporâneos - e esta pintura.
Fiquei fascinada com as grandes dimensões do quadro cobertas por aquele padrão de estradas entrecruzadas, quase labirínticas, estando lá no muio uma pequena figura de bicicleta - talvez sem saber para onde ir. Sinto-me por vezes assim... O humor desta pintura é pela ironia da situação.
Também me fascinou o tipo de grafismo de Banda Desenhada - sempre admirei a BD - e o colorido.
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Faz-me lembrar um casamento onde fui com o Gonçalo, em que eu e ele nos perdemos no meio do bosque de Sintra. Encontrámos dois turistas e perguntámos-lhes se tinham visto uma igreja e dizendo-lhes que estávamos perdidos. Eles nos responderam: «But, what a beatiful place to be lost!». Tinham razão.
Também me faz lembrar a música dos Talking Heads: «We're on a road to nowhere...».
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Margarida Elias.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Com sapatos de veludo...

Pintura de Sargent, Garden, Study of the Vickers Children (c. 1884, Flint Institute of Art, Michigan)

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Com sapatos de veludo
Nesta sala eu vou entrar
É a hora da história
Vamos todos escutar.
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Todos, todos sentadinhos
Numa roda sem falar
Ficaremos bem quietinhos
Para a história começar.
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Com os olhinhos bem abertos,
De ouvidinhos à escuta,
E um grande fecho na boca!
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Canção que cantam na Creche do Tiago antes de começar uma história.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Nossa Senhora do Ameal

Ermida de Nossa Senhora do Ameal (Torres Vedras, Fotografia de Margarida Elias, 2009).
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A capela está fechada ao público, com muita pena minha, que gostava muito de a poder visitar.
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«Esta venerável capela, de remota fundação medieval, foi reconstruída por completo em meados do século XVI (...)».
«É tradição ter sido aqui instituída a primeira freguesia de Torres Vedras, (...) e foi seguramente em casas suas que se estabeleceu o mais antigo hospital da vila».
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In Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa - Torres Vedras, Lourinhã e Sobral de Monte Agraço (1963).

sábado, 25 de julho de 2009

Compreender a eternidade


Convento dos Capuchos (Fotografia de Margarida Elias, Julho de 2009).
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Se o nosso espírito pudesse compreender a eternidade ou o infinito, saberíamos tudo. Até podermos entender esse facto, não podemos saber nada.
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Fernando Pessoa,
in Constante Procura, 11 de Julho de 2009.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Sorolla no Prado


Pintura de Sorolla y Bastida, Regatas (1908, Museu Nacional de Cuba).
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Joaquín Sorolla y Bastida (1863-1923) foi um pintor espanhol, contemporâneo dos nossos pintores naturalistas (por exemplo, Malhoa). Um artista de grande qualidade, cujas obras, inundadas de luz e cor, representam sobretudo cenas da vida quotidiana e paisagens. Foi também um excelente pintor de retrato. Abriu uma exposição sobre ele no Museu do Prado, que eu gostava muito de visitar, que estará aberta até 6 de Setembro.

Esta reprodução é de uma obra que julgo que não está nesta exposição, mas esteve em Lisboa, numa exposição do Palácio Galveias sobre pinturas espanholas nos museus de Cuba.

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Para saber mais:
Museu Nacional do Prado
Alexandre Pomar: «Sorolla - O Verão no Prado»

Para conhecer mais obras deste pintor:

Ciudad de la Pintura

terça-feira, 21 de julho de 2009

A construção da paisagem



Caminho dos Capuchos (Fotografia de Margarida Elias, Julho de 2009).
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«(...) A paisagem pintada ou fotografada é uma construção, e o próprio acto de olhar a paisagem é também em si mesmo uma ficção – vemos o que queremos ver, vemos o que queremos reconhecer, isolamos nós próprios parcelas do espaço que temos diante de nós e a paisagem é sempre fruto de uma relação subjectiva que estabelecemos com o mundo externo. (...) Nela são projectados desejos, mitos, sonhos, traumas, memórias, que condicionam a recepção quer do espectador directo quer do espectador indirecto que olha uma paisagem representada, e que dão a ilusão de um todo. E portanto a ideia de que a paisagem, mesmo selvagem, pode ser pura, de que se pode fruir da visão de um espaço natural intocado pelo homem, e de que essa fruição será igual para todos os que o olharem, é apenas uma miragem. A posição do observador é, além disso, a de alguém que tem de se colocar de fora, é uma figura externa à paisagem, que no fundo tenta organizar e controlar o mundo que o envolve fixando-o na ideia de paisagem».
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Mariana Pinto dos Santos (2006).

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A Paisagem na actualidade


Caparica (Fotografia de Margarida Elias, 2009).
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«A paisagem é a expressão do lugar; lugar como espaço habitado, espaço feito cultura, espaço apropriado pela consciência. O género, como um todo, começa a desaparecer quando questionamos as condições políticas, culturais e estéticas que transformam o ambiente, com efeito, a paisagem.
A crise da paisagem, hoje, está ligada com o sentimento de perda do espaço natural»
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Palavras de Joan Fontcuberta, in Landscapes without memory (2005)
(Citado por Luís Henriques).

sábado, 18 de julho de 2009

Benção

Um caminho no Convento dos Capuchos (Fotografia de Margarida Elias, Julho de 2009)
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May the road rise up to meet you.
May the wind be always at your back.
May the sun shine warm upon your face;
the rains fall soft upon your fields and until we meet again,
may God hold you in the palm of His hand.
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Traditional Gaelic Blessing
Citado de Presépio com vista para o Canal
3 de Julho 2009

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Música Infantil - Ai meu burro…

Fotografia de Margarida Elias (Julho de 2009).
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Aqui fica a fotografia de um burro que anda no Mercado Medieval de Óbidos, para as crianças passearem. Veio de Castelo Branco e é muito mansinho...
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Ai meu burro ai meu burro que me doi a cabeça!

O médico me manda uma gorrinha preta, uma gorrinha preta, (batendo palmas) sapatos trolaró, sapatos trolaró.

Ai meu burro, ai meu burro que me doi os olhinhos!

O medico me manda um par de ocolinhos!

Um par de ocolinhos, uma gorrinha, sapatos trolaró, sapatos trolaró.

Ai meu burro, ai meu burro que me doi a garganta!

O médico me manda uma gravata branca, uma gravata branca, um par de ocolinhos, uma gorrinha preta, sapatos trolaró, sapatos trolaró.

Ai meu burro ai meu burro que me doi o coração!

O médico me manda pinguinhos de limão, pinguinhos de limão uma gravata branca,um par de ocolinhos ,uma gorrinha preta, sapatos trolaró, sapatos trolaró.

Ai meu burro,ai meu burro que me doi a barriga!

O médico me manda um chá de ortiga, um chá de ortiga, pinguinhos de limão, uma gravata branca, um par de ocolinhos, uma gorrinha preta, sapatos trolaró, sapatos trolaró.

Ai meu burro ai meu burro que me doi o corpo todo!

O médico me manda ir já, ir já pra cama, um chá de ortiga, pinguinhos de limão, uma gravata branca, um par de ocolinhos, uma gorrinha preta, sapatos trolaró, sapatos trolaró.

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Educação de Infância.

João e o Pé de Feijão...



Instalação de João Pedro Vale, O Feijoeiro (2004, em exposição no Museu do Chiado).
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«Imagination grows by exercise, and contrary to common belief, is more powerful in the mature than in the young.»
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William Somerset Maugham
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Citado por The Dutchess (17 de Julho de 2009).

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A Virgem e o Menino


Relevos escultóricos da entrada principal do Convento dos Capuchos (Fotografia de Margarida Elias, Julho de 2009).
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Estes dois baixos-relevos encontram-se frente a frente. O primeiro, do lado direito, está incompleto, mas nele se pode ver uma imagem da Virgem no trono, com o Menino ao colo e um anjo a seu lado, tendo, ao que parece, uma cruz por trás. Aparenta ser uma iconografia característica da arte bizantina, da Virgem em Majestade, tema que inspirou os pintores do Primeiro Renascimento italiano. A segunda imagem, do lado esquerdo de quem entra, mostra apenas a Virgem e o Menino. Tem um frontão triangular a enquadrar a moldura na parte superior e em baixo uma forma circular. O frontão, característico da arquitectura clássica, é também um indicador da Santíssima Trindade, o círculo é símbolo do mundo e da unidade. A figura imponente da Virgem, com o Menino sentado sobre os joelhos, é novamente uma uma imagem majestática. Ambas as obras são provavelmente de influência italiana, quer pela nobreza serena das figuras, quer pela imponência clássica das formas.
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Margarida Elias.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Convento dos Capuchos

Fui antes de ontem (dia 13) ao Convento dos Capuchos (Sintra) e fiquei simplesmente maravilhada. Aqui fica um pouco da sua história e algumas fotografias que tirei.
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«O Convento de Santa Cruz da Serra de Sintra, também conhecido como "Convento dos Capuchos" ou "Convento da Cortiça", foi edificado em 1560 (...)». Mandado construir por D. Álvaro de Castro, foi habitado até 1834, data da extinção das ordens religiosas em Portugal. O espaço encontra-se de acordo com «a filosofia de respeito pela harmonia entre a construção humana e a construção divina, razão pela qual o edifício se funde com a natureza, indissociável da vegetação e incorporando na construção enormes fragas de granito (...)». William Beckford designou-o como "Convento da Cortiça" (no diário de viagem de 1787) porque a «cortiça dos sobreiros existentes na cerca foi utilizada como material de isolamento».




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Citações do folheto informativo: Convento dos Capuchos.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Vandalismo

«A moradia n.º 28 da Rua de Alcolena, com painéis de azulejos de Almada Negreiros e esculturas de Amaral Paiva, está em processo de classificação patrimonial como imóvel de interesse municipal. Não obstante, foi hoje arrombada e encontra-se em risco de vandalismo. Aqui vão algumas fotografias tiradas a partir do exterior pela Arq. Rita Almada Negreiros, que mostram portas abertas e vidros partidos na zona da marquise (rés-do-chão, à esquerda)».
Informações: Museu de PJ (Projecto SOS Azulejo): museu.pj@pj.pt
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Rita Almada Negreiros.

Amoras

Fotografia de Margarida Elias (Ameal, Julho de 2009).
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Ó minha amora madura
quem foi que te amadurou?
Foi o sol e a geada
e o calor que ela apanhou.

E o calor que ela apanhou
debaixo da silveirinha;
Ó minha amora madura
minha amora madurinha.

Há silvas que dão amoras
há outras que as não dão
há amores que são leais
e há outros que o não são.
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Canção popular portuguesa.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Eros e Psique

Escultura de Auguste Rodin, Cupido e Psique (c. 1893, Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque).
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Amar-te não é muito.
A vida o mundo a cor
o riso o pranto o sonho
o dia a noite a luz
quisera eu dar-te.

Somente nada tenho.
Que mais posso fazer
senão amar-te?
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Poema de João Mattos e Silva (1972).

sábado, 11 de julho de 2009

«Noivado»

Pintura de Henri-Edmond Cross, Les Iles d'Or (c. 1891-1892, Museu d'Orsay).
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Estão de branco as salinas
e noivam assim puras
com a terra.
O mar na despedida
da emoção
tece de espuma grinaldas
deixadas por pudor
sobre as areias.
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João Mattos e Silva
in Itntempral (2003).

sexta-feira, 10 de julho de 2009

«Mar»

Pintura de Gustave Courbet, A Bay with Cliffs (c. 1869, Wadsworth Atheneum, Hartford).
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Há sempre mar
em cada sonho meu
e sempre um barco
que em teu olhar aporta.
Há sempre sal e espuma
e sempre ausência
e sempre uma chegada
e sempre a inconstância
do mar que vem e vai
em marés de desejo.
Há sempre mar
e sempre uma saudade
nos reflexos do sol
nos refluxos de um beijo.
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Poema de João Mattos e Silva
in Intemporal (2003).

... «Any road will get you there» ?

Litografia de M. C. Escher, Ascending and Descending (1960).
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«If you don't know where you are going, any road will get you there».
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Lewis Carroll
Citado por The Dutchess, 8 de Julho de 2009

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Exposição Fantin-Latour na Gulbenkian

Fui ontem à exposição de Fantin-Latour no Museu Calouste Gulbenkian. É lindissima e gosto muito da obra deste pintor. Foi um artista francês, contemporâneo dos pintores impressionistas e com eles se relacionou. Contudo, a sua obra diverge daquela que caracterizou o Impressionismo: cenas de interior (retratos e naturezas mortas) e composições históricas (influenciadas por Wagner e pela música em geral), em vez de paisagem.
Há muita sobriedade, nostalgia e silêncio nas suas obras, que, em alguns casos, fazem a ligação com o Simbolismo - pelo menos no sentido da intimidade e da introversão. O seu estilo caracteriza-se por uma grande leveza e transparência de pincelada, sendo ele um mestre na utilização dos esfumados. Algumas pinturas parecem ser minuciosas ao longe e, quando nos aproximamos, perdem o detalhe.
Fantin-Latour dedicou-se a fazer obras de homenagem aos artistas seus contemporâneos, nomeadamente a Delacroix, Manet e Berlioz, entre outros, destacando-se entre os retratos de grupo o quadro Le Coin de Table (presente na exposição), que homenageia os poetas franceses, entre eles Rimbaud e Verlaine. Muitos retratos eram de familiares, nomeadamente de mulheres, os quais deixam transparecer mais intimidade, mas também maior melancolia. Outro tema que o celebrizou foi a pintura de flores, exemplificada pela natureza-morta aqui reproduzida, presente na exposição.
Toda a sua obra é preenchida por uma quietude serena, apresentando-nos um mundo simultaneamento belo e melancólico, solitário mesmo nos retratos de grupo, silencioso mesmo nos temas musicais. Académico, mas moderno, ele foi um pintor do seu tempo, tal como pedia Baudelaire.
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Texto de Margarida Elias.
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Henri Fantin-Latour (1836-1904)
Museu Calouste Gulbenkian - 26 de Junho a 6 de Setembro de 2009.
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Outros links:
Corot em Madrid
Fantin-Latour
Art Renwal Center

terça-feira, 7 de julho de 2009

A paisagem como cenário


Pintura de Margarida Elias, baseada num quadro de Millet.
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«As paisagens podem ser enganadoras. Às vezes uma paisagem parece ser não tanto o cenário para a vida dos seus habitantes, mas antes uma cortina atrás da qual as suas lutas, sucessos e acidentes têm lugar. Para os que estão, como os habitantes, atrás das cortinas, os pontos de referência já não são só geográficos mas também biográficos e pessoais».
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John Berger (1976), citado por Mariana Pinto dos Santos (2006).

«Momento XV»


Pintura a pastel de Margarida Elias.
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Revejo-me num espelho sem contorno,
sem nada.
O mar silencioso dá-me sempre igual
uma alma inacabada.
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Poema de João Mattos e Silva (1968).

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A vida


Desenho de Margarida Elias, Desenho de Modelo (1988).
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Life is a compromise of what your ego wants to do, what experience tells you to do, and what your nerves let you do.
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Bruce Crampton.

sábado, 4 de julho de 2009

Trabalhar a pedra


Fotografia de Margarida Elias (Serra de Montejunto, 2009).
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«The finest workers in stone are not copper or steel tools, but the gentle touches of air and water working at their leisure with a liberal allowance of time».
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Henry David Thoreau

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O rosto I


Pintura de Miguel Ângelo Lupi, Retrato de D. Maria das Dores Martins (1878, Museu do Chiado, Lisboa).
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Le viel Hokusaï estimait qu’«il faudrait vivre jusqu’à cent trente ans pour pouvoir dessiner une branche», la durée de l’histoire peut être pour toucher à un visage?
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Paul Evdokimov, L’Art de l’Icône, Théologie de la Beauté (1970).

Encontrar a Beleza

Vihelm Hammershoi, Hvile - Repouso (1905, Museu d'Orsay, Paris)
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A minha última descoberta em pintores que aprecio é este artista dinamarquês, Vihelm Hammershoi (1864-1916). As suas obras são de uma beleza repousante e extraordinária, na minha opinião. O Museu de Orsay refere-o como um seguidor de Vermeer ou percursor de Hopper. Talvez...
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«O que os neurocientistas reconheceram é que, quando bem-sucedida, a arte intensifica ou aprofunda os conteúdos emocional, perceptual e cognitivo de experiências que ocorrem em muitos outros contextos não estéticos, incluindo a própria vida quotidiana. Não é propósito da arte (...) o retrato ou a representação fiel da realidade, mas sim ampliá-la, transcendê-la ou até mesmo distorcê-la. Esta é também a forma que a arte encontrou para conhecer a verdade e criar beleza e, embora a definição desta continue a iludir-nos, o conceito de beleza é ainda o valor estético mais seguro. Por seu lado, os neurocientistas continuam a busca incessante para lhe apreender o sentido e revelar a sua intimidade biológica. Mas não seria melhor preservar-lhe o mistério?».
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João Lobo Antunes (2008).

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A face humana

Pintura de Jean Auguste Dominique Ingres, Retrato de Louis-François Bertin (1832, Museu do Louvre, Paris).
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«A especialização do sistema visual é fascinante. Assim, há áreas que distinguem objectos, diferenças de luminosidade, movimento ou profundidade, e outras dedicadas especificamente ao reconhecimento da face humana, que (...) é um instrumento indispensável na nossa relação com os outros, pois permite distinguir amigo de inimigo e, numa infinita paleta de expressões, revelar os sentimentos mais variáveis e contraditórios (...)».
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João Lobo Antunes (2008).

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Seleccionar

Fotografia de Margarida Elias (Ramalhal, 2009).
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Sempre me fascinou a maneira como a minha visão consegue seleccionar o que vê e sempre me desapontou a maneira como a máquina fotográfica, mesmo que tenha a minha "visão" a comandá-la, capta mesmo o que eu não quero e, por vezes, não regista o que eu queria memorizar.
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«É claro que o sentido da visão e a apreciação plástica estão indissociavelmente ligados. Uma das funções do aparelho visual é seleccionar, de uma informação que é muito vasta e continuamente em mutação, as imagens que o nosso cérebro “requisita” como indispensáveis num dado momento. Igualmente, a representação pictórica obriga a “sacrificar uns milhares de verdades aparentes” escolhendo apenas “a verdade” da sua experiência visual própria (...)».
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Citação in João Lobo Antunes (2008).