sábado, 27 de abril de 2013

Realismo e Naturalismo II

Pier Francesco Cittadini, Ghirlanda di fiori (Pinacoteca Nazionale di Bologna - Pittori Italiani - Italian Painters)
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Nas pesquisas que realizei acerca do Realismo e do Naturalismo, tive oportunidade de notar alguns aspectos que vou agora evocar. Em termos históricos, o aparecimento do Realismo ocorreu em França após as lutas sociais e políticas da Revolução de 1848, com o consequente desenvolvimento das várias tendências do Socialismo, que culminaram na Comuna de Paris. O propósito do realismo era construir uma «representação verídica, objectiva e imparcial do mundo real, baseada numa observação meticulosa da vida do momento». O exemplo paradigmático desta corrente estética encontrava-se na pintura de Gustave Courbet, bem como nas teorias de Pierre-Joseph Proudhon. Em 1865 foi publicado o livro Du Principe de l’ Art et de sa Destination Sociale, onde Proudhon expôs o seu pensamento estético, dando como modelo a obra do pintor Courbet. Em comunhão com estas ideias, no programa das Conferências do Casino, organizadas por Antero de Quental, afirmava-se que não «pode viver e desenvolver-se um povo, isolado das grandes preocupações intelectuais do seu tempo; o que todos os dias a humanidade vai trabalhando, deve também ser o assunto das nossas constantes meditações». A conferência de Eça de Queirós, sob o tema «Realismo como Nova Expressão da Arte», defendia a integração da arte na vida moderna e expunha o caso da obra de Courbet como protótipo para a arte actual. Eça apresentava a proposta de uma renovação literária, pela «arte moral», experimental e racional, em suma, pelo «Realismo na arte». Em 1878, numa carta, explicava: «O que queremos nós com o Realismo? Fazer o quadro do mundo moderno, nas feições em que ele é mau (...), queremos fazer a fotografia, ia quase dizer a caricatura, do velho mundo burguês, devoto, católico, explorador, aristocrático, etc.; e apontando-o ao escárnio, à gargalhada, ao desprezo do mundo moderno e democrático – preparar a sua ruína». Ao escrever o manuscrito da Tragédia da Rua das Flores (1878), Eça concebeu um pintor, que afirmava que a arte «devia educar pela representação das acções justas». A arte deveria «ser essencialmente revolucionária. Um quadro deve ser um livro; deve ser um panfleto; deve ser um artigo de jornal». O processo da pintura não deveria ser acabado, estudado, ou amaneirado. «A pintura não é nada – a ideia é tudo. Traços largos, sombras indicadas, tons sóbrios, que dêem a impressão exacta da realidade». Para Ramalho Ortigão,em 1875, a arte era uma interpretação «da natureza feita, como diz Proudhon, em vista do nosso aperfeiçoamento intelectual e moral». A missão da arte era crítica, não já uma crítica que nega, mas sim uma crítica que sistematiza. 
Um aspecto que tem sido notado em investigações recentes é que o realismo na arte deveu bastante à descoberta da pintura espanhola do século XVII, por parte dos artistas e historiadores. A liberdade dessa pintura, que tratava assuntos humildes e valorizava a cor mais do que o desenho, atraiu tanto os artistas românticos como os realistas. Tal como notou Lucília Verdelho da Costa, a «escola espanhola foi uma fonte de anticlassicismo que veio responder às aspirações da jovem pintura, que rejeitava o Belo ideal herdado de Rafael e a dramaturgia, o colorido e o dinamismo das composições românticas. (…) Courbet foi o primeiro a assumir a ruptura, ao introduzir, a par do realismo da representação, a técnica da pintura de Velásquez». 
Por outro lado, o realismo também estava associado à pintura holandesa, na medida em que esta reproduzia preferencialmente cenas da realidade quotidiana. No entanto, hoje devemos ter em consideração que o realismo holandês de seiscentos era um realismo aparente, pois as pinturas desse tempo celebravam as virtudes domésticas, sobretudo desempenhadas por mulheres, em espaços interiores. Apesar desse lado simbólico, como notou Tzevetan Todorov, nessas obras dava-se importância à realidade mais humilde e toda a representação pictural de um ser ou de um objecto significa que ele é digno de ser representado, que merece sobreviver ao instante da sua aparição: «a pintura é, intrisecamente, elogio do que é pintado». Todorov afiançava que através da representação do quotidiano, o pintor constatava que a beleza poderia estar nos objectos insignificantes e nos gestos comuns. Deste modo, descobria que «pela graça dos pincéis, ele pode mostrar que os objectos são dignos de uma admiração não somente ética mas estética». O mesmo historiador advertia ainda que a pintura do quotidiano, nos séculos XIX e XX, ligada ao realismo, continuava a «afirmar a beleza do que mostra; mas é muitas vezes uma beleza de abatimento, de desespero, de angústia; são as flores do mal (…)».
No que respeita ao Naturalismo, há outras questões que devem ser mencionadas. Para a pintura do século XVII, o naturalismo implicava o interesse pelas coisas naturais, a vontade de «imitare bene le cose naturali» - como foi verbalizado por Caravaggio. Por sua vez, o naturalismo do século XIX tem raízes no Positivismo e corresponde à crença filosófica de que o homem é uma criatura determinada pelas leis físicas e que pode ser assunto para investigação científica. Nesse sentido, o Naturalismo pretendia estudar os comportamentos, tendo como paradigma, em termos literários, os textos de Zola. Na pintura, ficou associado a John Constable, à Escola de Barbizon e ao gosto pela reprodução da natureza, o que se reflectiu sobretudo no interesse pela pintura de paisagem. 
Cerca de 1880, em Paris, entrou em voga na pintura um tipo de naturalismo, que herdava as aprendizagens da escola de Barbizon e do realismo, cruzadas com as descobertas do impressionismo e equilibradas pelo academismo, o qual tinha o seu expoente máximo na obra de Bastien-Lepage. Zola considerava que os naturalistas da década de 80 eram devedores do Impressionismo, que corrigiam de modo a ficar mais próximo do gosto do grande público. Uma das conquistas do Impressionismo, como notou Zola, foi o afastamento das tonalidades escuras e betuminosas: «peu à peu, on a vu les Salons s’éclaircir”. 
Nos textos do século XIX, os termos Realismo e Naturalismo confundiam-se, empregando-se indistintamente como sinónimo de representação fiel da realidade. Maria João Ortigão de Oliveira propôs que, atendendo «à fluidez e indefinição dos critérios esclarecedores», se considerasse «o naturalismo como herdeiro natural cronológica e historicamente do realismo». Contudo, não podemos esquecer que, em oitocentos, o Realismo e o Naturalismo distinguiam-se nos temas e na maneira de encarar a realidade. Enquanto o realismo adoptava uma conotação mais ideológica e crítica, o naturalismo tinha um carácter mais científico e atento aos valores da natureza:
«(…) há que referir também que a reivindicação do amor pelo campo, através de paisagens e gentes identificáveis, foi, no século XIX uma espécie de anti-cultura que se opunha ao crescimento imparável das cidades, com o seu cortejo de novas chagas sociais. Aquilo que, durante grande parte do século XX, foi considerado uma prática nostálgica e conservadora (porque se entendia que era nas cidades que o progresso se encontrava) pode hoje ser valorizado como uma ecologia, crítica da pujante economia capitalista para a qual a vida camponesa, bem como os seus valores, deveriam ser submetidos às exigências do mercado» (Raquel Henriques da Silva).
Ramalho Ortigão, um fervoroso adepto do naturalismo, dizia, em 1875, que a paisagem era «o género mais especialmente moderno». O pintor d’ «A Tragédia da Rua das Flores» afirmava: «O homem moderno vive longe da natureza, pela necessidade de profissão: uma arte que lhe reduz a natureza, que lha torna portátil, que lha introduz na sala de jantar, na alcova, interpretada, escolhida, - faz ao homem o maior serviço – pô-lo em comunicação permanente com a natureza. E a natureza é tudo: calma, consola, eleva, repousa e vivifica». 
No âmbito do Naturalismo, devemos ainda incluir a pintura de costumes populares, sendo em grande medida um assunto herdado do Romantismo. No contexto da valorização do mundo rural, Almeida Garrett afirmou: «Nenhuma coisa pode ser nacional se não é popular». Fora de Portugal, o tema foi desenvolvido pelos realistas e naturalistas, na medida em que a fórmula de Courbet «il faut être de son temps», também se aplicava a ser do seu lugar: consagrar-se ao seu país natal e à sua região, com o fim de captar os seus aspectos mais verdadeiros e singulares.
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Bibliografia:
Pierre-Joseph PROUDHON, 1865, Du Principe de l'Art et de sa Destination Sociale.
Diário de Notícias, 15/6/1871.
Antero de QUENTAL, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares.
As Farpas, Nov. 1871.
Ramalho ORTIGÃO, 1875, «O chic e os seus desastres».
Ramalho ORTIGÃO, 1875, «A restauração da arte portuguesa entregue pelo Govêrno aos cuidados de uma comissão».
Eça de QUEIRÓS, A Tragédia da Rua das Flores.
Émile ZOLA, 1880, «Le naturalisme au Salon».
Émile ZOLA, 1884, «Expositions des oeuvres d’Édouard Manet».
João MEDINA, 1980, Eça de Queiroz e a Geração de 70.
Maria João Ortigão de OLIVEIRA, 1988, O Pensamento Estético de Ramalho Ortigão.
Linda NOCHLIN, 1989, Les politiques de la vision.
Linda NOCHLIN, 1991, El Realismo.
Vítor SERRÃO, 1992, A Pintura Proto-Barroca em Portugal (1612-1657).
Tzvetan TODOROV, 1993, Éloge du quotidien. Essai sur la peinture hollandaise du XVII.e siècle.
Elisa Ribeiro SOARES, 1999, «O Romantismo e a Pintura Portuguesa».
A.A.V.V., 2002, Manet Velásquez. La manière espagnole au XIXe siècle.
Lucília Verdelho da COSTA, 2008, «Modernidade e Academismo. França, Espanha e Portugal: diálogos cruzados», in O Retrato, FCSH-UNL.
Raquel Henriques da SILVA, 2010, «Silva Porto e a pintura naturalista», in Catálogo do Museu do Chiado – século XIX.

8 comentários:

ana disse...

Uma bela postagem. Enriquece-nos, Margarida!
Obrigada.
Beijinho e excelente fim de semana!:)

Margarida Elias disse...

Obrigada Ana! Muitos beijinhos!

Luis Miguel Amaral Rodrigues disse...

A questão Naturalismo/ Realismo também já se me pôs varias vezes (principalmente na pintura) e penso que o seu texto merece um comentário, mesmo que de alguém, como eu, que não detém nenhuma autoridade ou conhecimento particular na matéria, assim feita a introdução, destacaria primeiro que, consoante o campo de actividade humana de que estejamos a falar, se podem encontrar ligeiras diferenças para o mesmo conceito, no entanto penso que é fulcral relacionar o realismo com a transição da idade média para o renascimento, ao melhor, com o aparecimento da burguesia, porque é esta classe essencialmente que deseja e ama os objectos do quotidiano, os pretende, porque vê neles a materialização da ascensão social, e assim, mais evidente na pintura, é essa realidade material que é pintada como celebração da ascensão, realização social, inicialmente estas representações eram realismo-naturalistas, porquanto embora realistas eram representações ingénuas e portanto também naturalistas, a fase seguinte levou ao período designado realismo racionalista em que a representação do realismo é mais artificial, planificada, racional, consequentemente perdendo o lado natural, assim o naturalismo é mais associado á temática Natureza e o realismo mais associado aos homens e objetos.
Muito haveria a dizer sobre a questão, não se pretendeu contestar nada, apenas participar com mais um ponto de vista.

Margarida Elias disse...

Concordo com a sua perspectiva e faz todo o sentido. A burguesia do final da Idade Média está muito ligada ao aparecimento do realismo e da atenção aos objectos do quotidiano. Além do mais, no século XVII, o realismo teve mais força na Holanda, um país que tinha na altura uma burguesia importante. É uma tema muito interessante e acho que todos os contributos são valiosos, até porque o conceito varia de conteúdo de acordo com as épocas e as áreas de conhecimento. Seria interessante que houvesse uma súmula que fosse mostrando como este conceito estético foi variando. Por exemplo, porque é que o Naturalismo na pintura se associa aos anos 1860 e à escola de Barbizon e na literatura a Zola, mais tardio? No século XVII, porque é que se diz que Caravaggio é naturalista e Vermeer é realista? Porque é que no século XIX o realismo tem a ver com Courbet e o socialismo? Porque é que no século XX o naturalismo torna-se no credo dos conservadores (exemplo pintores da SNBA) e o neo-realismo se liga novamente ao marxismo(exemplo Júlio Pomar)? Como se relaciona tudo isto com a filosofia, a literatura, entre outros campos da cultura? Obrigada! Bom dia!

Luis Miguel Amaral Rodrigues disse...


Na sequência das questões suscitadas, espero que não julgue impertinente a minha resposta, atrevo-me apenas a lançar hipóteses, que, a associação do Naturalismo aos meados do séc XIX e á Escola de Barbizon, se deva essencialmente a duas razões principais, (posso estar a dizer uma grande asneira) a 1.ª prende-se com uma razão técnica, que não é de desprezar, a invenção das bisnagas de Zinco que permitiu a portabilidade das tintas e a pintura da natureza ao ar livre e in loco; a 2.ª á própria dimensão do grupo e á notoriedade dos elementos do mesmo Théodore Rousseau, Daubigny entre outros.
A tardia adesão á corrente Naturalista que se verificou na Literatura, concretamente com Zola, é um fenómeno só por si digno de registo e de estudo, porquanto se verifica enumeras vezes, dando ideia que cada campo de actividade tem o seu tempo próprio, variando também conforme o território, não se sabendo muito bem onde está a vanguarda e a mimese.
Relativamente á questão Vermeer / Caravaggio, em minha opinião pessoal, que não terei com certeza o seu conhecimento nem nunca vi em loco nenhuma das obras, penso que a predominância dos temas, com objecto e pessoas nos afazeres do quotidiano, coloca Vermeer objectivamente no realismo, a reiterar esta afirmação, estão os quadros do exterior, onde mesmo ai é inserida a presença humana conferindo o toque realista, em Caravaggio embora haja um ou outro tema com cenas do quotidiano não são predominantes, não há a profusão de objectos, embora as personagens sejam naturais emanam um sensualismo demiúrgico, não estão inseridas em actividades do quotidiano, penso que reside ai a diferença, um cesto de frutas, num caso e noutro, não tem o mesmo tratamento e significado, leitura.
Courbet e a sua ligação ao realismo terá a ver principalmente com a temática? “os britadores” , “ As peneireiras”, ou seja mais uma vez o quotidiano de pessoas comuns; a ligação ao socialismo é mais difícil de avaliar , sabemos que Courbet estava ligado á comuna parisiense e tido como revolucionário o que per si pode justificar a associação, no entanto pode-se interpretar a sua pintura da realidade, como uma denuncia, ou uma subversão da corrente dominante á época e nesse sentido ser interpretado como socialista.
A sua referência aos pintores da SNBA , estará a referir-se ao grupo designado do Leão? , Se sim, como os meus conhecimentos são limitados neste campo, deixo-lhe apenas uma questão, teria sido Silva Porto e a sua passagem por Paris o veículo para a introdução do Naturalismo em Portugal, deixo-lhe a si considerar se pode ser uma hipótese, porque sinceramente não conheço o suficiente para lançar tal hipótese quanto mais uma afirmação.
Confesso que desconhecia a associação da pintura de Julio Pomar ao marxismo, nunca a tinha pensado nesses termos, mas agora que falou nisso, já intelectualizo de outra forma, as obras “o almoço do trolha” ou o “Gadanheiro” prova que para fruir ou pelo menos compreender certos fenómenos culturais é necessário aprendizagem, remeteu-me agora para Wittgentein e as suas teorias da linguagem.
Por último á questão como se relaciona tudo isto, eu diria que tudo está interligado e cabe, em tese, á Filosofia a tarefa de hierarquizar, sistematizar, explicar todas estas interdependência e ligações.
Continuação de bons textos
Boas festas


Margarida Elias disse...

Concordo completamente consigo. E sim, foi o Silva Porto, que conheceu Daubigny em Paris, que trouxe o Naturalismo para Portugal. Achei muito interessantes as suas análises. Eu sei que há discrepâncias cronológicas e espaciais nos movimentos, mas acho interessante a evolução dos conceitos. Por outro lado, acho curioso o cruzamento de áreas de conhecimento: literatura, artes visuais, música, dança, etc.. Ou mesmo a ligação entre a arte, a ciência e a filosofia em determinadas épocas. Há coincidências interessantes. Por exemplo, acho curioso o facto dos positivistas se ligarem geralmente ao naturalismo, o que julgo que faz todo o sentido. Obrigada pelo seu comentário e bom dia!

Luis Miguel Amaral Rodrigues disse...

Não posso deixar de acrescentar, ao seu, mais um raciocínio, que a ligação dos positivistas ao Naturalismo, faz todo o sentido, o naturalismo constrói-se principalmente em oposição ao sobrenaturalismo, sentimentalismo, subjetivismo, maior fidelidade possível ao real, toda a obra de Wittegentein ( Positivista) , é no sentido de eliminar da linguagem a subjetividade e metafisica , ou seja para wittgentein no processo criativo existe uma imagem lógica ( um pensamento uma conceptualização) ,que dá origem a uma imagem real ( a obra de arte per si), para ele a obra de arte, só será entendível , se o observador conseguir através da mesma remeter para a imagem lógica paradigma, ( pensamento), que deu origem á obra , este processo de compreensão, no seu entender só é possível através da aprendizagem e da experiência.

Votos de Boas Festas e Feliz Natal

Margarida Elias disse...

Muito obrigada pelos seus comentários. Aprendi muito! Boas festas, bom Natal e feliz Ano Novo!