sábado, 30 de maio de 2009

A Cidade

Fotografia de Margarida Elias, Vista do Jardim de São Pedro de Alcântara (Lisboa, 2009).
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“La antíteses irregular es la ciudad inverosímil de Dinócrates, voluntario sueño irrealizable según la mensuración más escueta, pero hermosa idea según apreciación y palabras del proprio Alejandro Magno, tal como se nos narra en el «introducción» del Libro II del tratado de Vitruvio «De Architectura», ciudad que vuelve a querer ser un conjunto de hombres antes que de edificios, pero de hombres ciudadanos dueños de su destino, imagen de un orden social y de su belleza. (...)»
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Ramón Rodriguez Llera (2006).
«Paisajes Regulares y Irregulares» pp. 49-81.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Com o Tempo o Prado Seco Reverdece

Fotografia de Margarida Elias, Catefica (2009).
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Com o tempo o prado seco reverdece,
Com o tempo cai a folha ao bosque umbroso,
Com o tempo para o rio caudaloso,
Com o tempo o campo pobre se enriquece,
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Com o tempo um louro morre, outro floresce,
Com o tempo um é sereno, outro invernoso,
Com o tempo foge o mal duro e penoso,
Com o tempo torna o bem já quando esquece,
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Com o tempo faz mudança a sorte avara,
Com o tempo se aniquila um grande estado,
Com o tempo torna a ser mais eminente.
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Com o tempo tudo anda, e tudo pára,
Mas só aquele tempo que é passado
Com o tempo se não faz tempo presente.
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Luís de Camões.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

O cão

Ilustração de Raul Lino, O Cão (in Animais nossos Amigos, 1911).
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O cão
Que faz – ão, ão, ão
É bom amigo como os que o são!

É bom amigo, bom companheiro,
É valente, fiel, verdadeiro,
Leal, serviçal,
E tem bom coração.
Que o diga o dono, se elle o tem ou não!

Quando vem de fóra, a gente,
E chega a casa, é o cão
Quem diz primeiro, todo prazenteiro,
Saltando e rindo
Contente,
E com os olhos a brilhar de amor:
- «Ora seja bemvindo
O meu senhor!»

O cão
Que faz – ão, ão, ão
É bom amigo como os que o são!

Que o diga o ceguinho, se elle o é ou não!

Nunca viram passar, pelo caminho,
Um ceguinho
Levando pela mão
O seu cão?
Que seria do cego, coitadinho,
Sem o seu guia, sem o carinho
D’aquela dedicação?

E o ceguinho caminha, e não tropeça,
Porque os seus olhos vão
Abertos na cabeça
Do seu cão...

O cão
Que faz – ão, ão, ão
É bom amigo como os que o são!

O pastor que o diga, se elle o é ou não!

O pastor vai para a serra,
Vai para a serra sózinha,
Que, lá do céu tão vizinha,
Parece longe da Terra...

O pastor leva o rebanho,
As ovelhas e os carneiros,
E os meigos cordeirinhos,
As cabras e os cabritinhos
Que saltam muito ligeiros.

O pastor leva o rebanho,
E vai-se ouvindo
O som lindo
Dos chocalhos muito finos
No ar tinindo
Como pequeninos
Sinos...

O pastor leva o rebanho,
E quem guarda os cordeirinhos
E as mães
Dos lobos maus e vorazes?
- São os cães!

São os cães, guardas valentes,
Que aos lobos dizem assim:
- «Ó lobos maus e vorazes,
Sim,
Andem, toquem-lhe lá, se são capazes!...»

E, de longe, os lobos miram
Os cordeirinhos contentes,
Mas não se atiram,
Com medo dos cães valentes
E dos seus dentes!

O cão
Que faz – ão, ão, ão
É bom amigo como os que o são!

Os pobres que o digam, se elle o é ou não!

O cavador passou a trabalhar
O dia inteiro, a cavar,
A terra do seu patrão;
E cava, cava a terra alheia,
Que era brava e pedregosa,
E elle a semeia
E elle a põe florida
Para o dono, que enfim depois goza
Ao cabo d’aquela lida...

E o cavador, o bom trabalhador,
Tem um amigo só, cheio de amor!

Tem um amigo, tem,
Que o ama a elle como a mais ninguem!

E que enquanto elle cava
A terra brava
Que ha de ser florida,
Com seu olhar o segue, tão fiel,
Com seu olhar de amor,
Que está dizendo, com carinho e dôr:
- «Como o meu dono sofre nesta vida!
Pudesse eu antes trabalhar por elle!...
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Afonso Lopes Vieira.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Somos filhos da madrugada

Fotografia de Margarida Elias (Ameal, 2009).

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Não sei se é sempre assim, mas o que é verdade é que já vi muitas vezes o nascer do sol desde que tenho filhos. Não me importa e até acho alegre olhar pela janela a essa hora - quando está bom tempo. Muitas vezes digo, para comigo, que a Teresa é a minha estrela da Aurora. O Tiago, mais dorminhoco, é o meu Sol das 9 da manhã.
Por vezes, faz-me lembrar a música do Zeca Afonso, que acho lindíssima e que deixo aqui registada:

Canto Moço

Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de manhã clara.
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Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Mensageira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo de uma montanha.
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Onde o vento cortou amarras
Largaremos p'la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca.
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terça-feira, 26 de maio de 2009

O Tentilhão Dourado

Pintura de Carel Fabritius, The Goldfinch (1654, Mauritshuis Royal Picture Gallery, The Hague).
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É uma pequena pintura que representa um pássaro em tamanho natural. Foi pintada por Carel Fabritius, um artista holandês da época barroca. Nesta obra, o mais interessante, na minha opinião, é o seu naturalismo, que é acentuado pelo efeito de sombra projectada na parede. Este tipo de representação dá ao quadro o carácter de trompe l'oeil, ao gosto da cultura barroca, pelo prazer de desafiar os sentidos. Lembra a lenda grega da disputa entre Zeuxis e Parrasio:
«The contemporaries and rivals of Zeuxis were Timanthes, Androcydes, Eupompus, and Parrhasius. This last, it is said, entered into a pictorial contest with Zeuxis, who represented some grapes, painted so naturally that the birds flew towards the spot where the picture was exhibited. Parrhasius, on the other hand, exhibited a curtain, drawn with such singular truthfulness, that Zeuxis, elated with the judgment which had been passed upon his work by the birds, haughtily demanded that the curtain should be drawn aside to let the picture be seen. Upon finding his mistake, with a great degree of ingenuous candour he admitted that he had been surpassed, for that whereas he himself had only deceived the birds, Parrhasius had deceived him, an artist.»
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Texto de Margarida Elias; citação de Plínio, História Natural (77 d. C.).

segunda-feira, 25 de maio de 2009

A Cerâmica de Manuel Cipriano Gomes Mafra

Peça cerâmica de Manuel Cipriano Gomes Mafra, Jarrão Cobras (Museu de Cerâmica, Caldas da Rainha).
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Manuel Cipriano Gomes (1829-1905) nasceu em Mafra e por isso ficou conhecido pelo nome de Manuel Mafra. Ainda jovem foi viver para as Caldas da Rainha, onde trabalhou numa fábrica de cerêmica de Maria dos Cacos. Mais tarde ficou com essa fábrica, a qual passou a gerir com a sua família. Desenvolveu um tipo de cerâmica muito característico, utilizando motivos vegetalistas e zoomórficos, dando um aspecto decorativo às suas peças. Vendendo inicialmente em feiras, D. Fernando II interessou-se pela sua obra e deu-lhe o estatuto de fornecedor da Casa Real. Por intermédio do rei, ou de outros interessados na arte cerâmica, tomou contacto com o estilo Palissy. Este fora um artista francês da Renascença que desenvolveu um tipo de cerâmica inspirado na natureza. A sua obra fora redescoberta no Seculo XIX e inspirou o desenvolvimento decorativo da cerâmica europeia. Manuel Mafra juntou o vocabulário tipo Palissy às suas peças cerâmicas criando um estilo único e de grande qualidade, que mereceu ser premiado em exposições internacionais.
No Museu de Cerâmica das Caldas da Rainha abriu agora uma exposição sobre o ceramista, tendo eu colaborado no catálogo e na realização de alguma pesquisa. A exposição era para ter inaugurado em Dezembro de 2005, no centenário da sua morte, mas só agora se conseguiu realizar.
Para quem gosta de cerâmica vale a pena o passeio. O próprio Museu vale a visita. Além da colecção que tem obras de Rafael Bordalo Pinheiro e Manuel Gustavo, entre outros, o espaço é muito agradável. O edifício principal é um palacete que pertenceu ao Visconde de Sacavém e tem um jardim bem arranjado, com azulejos, alguns deles decorados com poemas.
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Texto de Margarida Elias.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O Pátio do Martel

Fotografia de Margarida Elias, Vila Martel (Maio de 2009).
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Finalmente consegui visitar o Pátio do Martel, onde viveu Columbano. Tinha muita curiosidade devido às muitas descrições que lera sobre o local. É de facto um esaço curioso, que talvez merecesse maior atenção da parte de quem o pode fazer. Um edifício de entrada (em que há um café, onde trabalham as senhoras que me deram acesso ao pátio), com uma porta que dá para uma escadaria, que se bifurca. De cada lado um conjunto de pequenas casas, cada uma com um quintal. A vista é magnífica, vendo-se o centro histórico de Lisboa.
A respeito do que já foi este sítio, noutros tempos (final do Século XIX e início do Século XX), cito Rocha Martins, por intermédio de Fernando Madaíl.
«Cinquenta degraus até chegar à glória»
«O jornalista que os ardinas celebrizaram em pregões visitava o refúgio de artistas.
"Sobe-se ao encontro da glória por aqueles cinquenta degraus, íngremes e difíceis, mas merece bem a pena, porque não só a vista que se goza é admirável, mas porque nos pomos em contacto com as recordações de grandes mortos, da sua obra e dos ainda vivos que ali lidaram, sofreram, sonharam e realizaram parte dos sonhos - nunca os artistas estão satisfeitos - e lá mourejam e visionam quadros e estátuas." A caneta de Rocha Martins (1879-1952), jornalista e historiador, que se tornaria famoso na boca dos ardinas pelo pregão "fala o Rocha, o Salazar está à brocha", a 10 de Janeiro de 1944 descrevia assim, no Diário de Notícias, o Pátio do Martel.
Aquele local, "em frente da Conceição da Glória, à entrada das Taipas", tinha sido destinado por José Trigueiros de Martel - "homem de iniciativa, vindo do estrangeiro com ideias largas" e que seria um dos fundadores do jornal O Século - para "refúgio e mansões de trabalho de pintores e escultores" - o que, nesta altura, era continuado pelos seus sobrinhos.
"Lembremo-nos, porém, que as pedras da alta escadaria foram calcadas, como as do famoso pátio, não só pelos pés dos pintores e escultores consagrados, mas pelos das celebridades que o visitaram e algumas das quais ali foram retratadas", sugeria .
"Vemos, assim, Antero de Quental a caminho do atelier de Columbano, que trabalhou o belo quadro onde a fisionomia do poeta mira a posteridade. No mesmo lugar se dedica hoje José Campas, professor e pintor de arte, às restaurações, já notáveis, de muitos quadros; no atelier da outra ponta, na carreira das casinhas limpas e modestas, fez Francisco Franco a estátua [equestre] do Restaurador [D. João IV, que está em Vila Viçosa] e tantas outras obras-primas [toda a gente as conhece, do D. Dinis , em Coimbra, ao Cristo-Rei, em Almada]."
Arrumando os parágrafos como se fossem um puzzle, para o leitor moderno melhor entender a rubrica denominada Lisboa de Ontem e de Hoje, acompanhamos a visita ao atelier, onde o articulista relembra "Columbano, que, entre aquelas quatro paredes, tão animadas de arte, trabalhou o seu quadro Camões e as Tágides [actualmente no Museu Grão Vasco, em Viseu], painéis dos tectos do Palácio Foz e os do Museu de Artilharia, além do retrato de Antero [Museu do Chiado, em Lisboa]".
"Junto do atelier do Mestre (...) existia outro não menos celebrado: o de D. Maria Augusta Bordalo Pinheiro, irmã do grande pintor e de Rafael Bordalo, dama digna do máximo culto na dinastia bordalenga", que "ensinava a sua arte portentosa: a das rendas (...)".
Naquele pátio Carlos Reis "executou o seu quadro As Engomadeiras, que está no Museu Nacional de Belas Artes [agora, no Museu do Chiado]". Também ali trabalharam José Malhoa, "o mais português dos pintores"; Jorge Colaço, "que ensaiou, num pequeno forno, hoje soterrado, o esmalte dos seus famosos azulejos"; a lista continua numa frase longa. Noutros parágrafos, mais artistas que por ali passaram, com vultos menores a antecederem Eduardo Viana e Francisco Franco, "o escultor que domina com a sua arte e agrada com a sua modéstia".
E, a certa altura do texto, menos preocupado com o ordenamento das informações do que com as impressões de quem escreve, Rocha Martins, inspirado pelo sítio, parece querer fazer uma aguarela com palavras.
"Quando ali habitou Columbano o panorama seria diferente, com mais quintais e jardins e menos prédios." No tempo desta visita, além das "casinhas e jardinetes, todos de alegria", "depara-se-nos surpreendente panorama. No ar translúcido das manhãs, na doçura côr de pérola de certos dias, nos poentes maravilhosos de Lisboa, a parte superior do pátio do Martel, com o próprio recinto, e miradouro de poucos conhecido"».
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Rocha Martins, citado por Fernando Madaíl.

terça-feira, 19 de maio de 2009

A Hemeroteca de Lisboa

Fotografia de Margarida Elias, Hemeroteca Municipal de Lisboa (Maio de 2009).
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Fui ontem à Hemeroteca de Lisboa, onde já não ia há algum tempo. Senti que ainda está longe de ser uma biblioteca moderna e o seu espaço parece decadente, apesar das obras de preservação do edifício. Contudo, notei pela primeira vez na beleza do espaço, da escadaria e do salão nobre, sobretudo pelos estuques dos tectos.
Aindei à procura de informação e encontrei menos do que esperava.
No entanto, aqui vai algo que descobri:
«Localização: Rua São Pedro de Alcântara, n.ºs 1-3, Freguesia da Encarnação.
Este palácio era propriedade do conselheiro Bartolomeu dos Mártires Dias e Sousa, o qual (...) faleceu, em Lisboa, em 7 de Janeiro de 1882, efectuando-se a transmissão de título de propriedade deste prédio para sua filha Sofia Adelaide (...). Foi após esta herança que este edifício adquiriu a designação de Palácio dos Condes de Tomar, isto porque D. Sofia Adelaide era condessa de Tomar, tendo adquirido o título através do seu casamento com António Bernardo de Costa Cabral, 2.º conde de Tomar, o primogénito do ministro Costa Cabral. A decoração interior em estuque dos tectos, a escaiola de manufactura tradicional da escadaria e o revestimento a couro gravado a ouro brasonado da sala de jantar deste palácio, tal como o próprio nome de Palácio dos Condes de Tomar, são posteriores a 1882, e devem-se a estes condes de Tomar que passaram a habitar o palácio. A partir dos anos 20 do século XX, vemos o palácio alugado. Um dos seus inquilinos mais duradouros foi o The Royal British Club, que ocupou o espaço de 24 de Maio de 1926 a 21 de Janeiro de 1966.
Em 17 de Junho de 1969, a Câmara Municipal de Lisboa, por proposta do Presidente António Vitorino França Borges, adquiriu o palácio por escritura (...)
O palácio foi, depois, atribuído à Direcção dos Serviços Centrais e Culturais, para instalar em Outubro de 1973, a Hemeroteca Municipal de Lisboa, que é uma biblioteca camarária especializada em publicações periódicas, equipamento este que ainda se encontra em funcionamento no velho Palácio dos Condes de Tomar».
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segunda-feira, 18 de maio de 2009

Pelo Museu de Arte Popular


«Seguimos ao meio-dia para o Museu e começámos logo a trabalhar, primeiro a poucas mãos mas desde o início com a atenção dos turistas, a quem fomos contando o porquê do protesto. Alguns deles bordaram connosco e todos lamentaram encontrar o museu fechado. Aos poucos foram chegando amigos e desconhecidos, muitas figuras públicas e até bordadeiras chamadas pelas notícias nos jornais. À hora do almoço já não havia espaço em redor do lenço para todos os que queriam ajudar, e assim foi até às sete horas, quando o lenço foi finalmente pendurado na porta do Museu perante uma plateia visivelmente entusiasmada».
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sexta-feira, 15 de maio de 2009

A propósito de Sousa Pinto

Pintura de José Julio de Sousa Pinto, La récolte des Pommes de Terre (1898, Museu d'Orsay).
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Que eu saiba, existem duas obras de pintores portugueses no Museu d'Orsay, em Paris. Uma é esta de Sousa Pinto, a outra é uma natureza morta de Columbano. Sempre achei que eram boas pinturas do Naturalismo, sobretudo esta, que estava perfeitamente ao nível de outras que eram feitas na mesma época. Obra de grande qualidade pictórica, quer ao nível técnico quer ao nível de representação da realidade visível, quer em termos compositivos, lembra-me obras de Bastien-Lepage. Sempre achei errado que outros artistas estivessem expostos e os portugueses ficassem nas reservas. Fiquei feliz quando ontem me apercebi que esta obra de Sousa Pinto chamou a atenção de alguém que fez uma exposição sobre Bastien-Lepage, em Paris, e assim ganhou o direito de ter o reconhecimento que merece. É que, se o final do Século XIX e o início do Século XX, em Portugal, não trouxeram à arte europeia grande inovação - até à obra de Amadeu de Sousa Cardoso - existiram no nosso país bons pintores, que não ficavam atrás de outros artistas famosos na época e que têm sido agora mais respeitados. Além de Sousa Pinto, ou de Columbano, cito sobretudo Henrique Pousão.
Sendo amanhã o dia dos Museus, é bom lembrar a arte portuguesa. E é também importante lembrar o Museu de Arte Popular que está fechado, mas que se quer reaberto.
Como escreveu Joel Serrão:
«Em última instância, a política postula uma tomada de posição acerca dos fins da vida humana e acerca do que se deve entender por «homem» e pelo seu bem».
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Margarida Elias.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Um gatinho com algo para contar

Fotografia de Margarida Elias (2009).
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Este gatinho tem cerca de 1 mês. Quinze dias depois de ele nascer, a mãe dele desapareceu. Os donos tentaram dar-lhe leite normal, mas ficou doente. Chorava muito. Arranjou-se leite próprio para gatos bebés e deu-se-lhe leite com um biberão. Pouco tempo depois, a irmã dele, mais velha, que estava grávida (teve dois gatinhos) adoptou-o. E ele agora anda por aí cheio de energia!
É um sobrevivente.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Santuário de Fátima

Fotografia de Margarida Elias, Santuário de Fátima (2009).
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«Ergue-se no local onde, em 13 de Maio de 1917, os três pastorinhos brincavam "a fazer uma paredita", quando, de repente, viram um relâmpago que os assustou e fez com que juntassem o rebanho para regressarem a casa. O projecto foi concebido pelo arquitecto holandês Gerard Van Kriechen e continuado pelo arquitecto João Antunes. Em 13 de Maio de 1928 foi benzida a primeira pedra pelo arcebispo de Évora, D. Manuel da Conceição Santos. A sagração foi a 7 de Outubro de 1953. O título de "Basílica" foi-lhe concedido por Pio XII, no breve "Luce Superna", de Novembro de 1954».
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terça-feira, 12 de maio de 2009

Portal da Igreja de São Pedro

Fotografia de Margarida Elias, Pormenor do Portal da Igreja de São Pedro (Torres Vedras, 2009).
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Igreja de São Pedro: «Classificada monumento nacional, reconstruída no século XVI, fachada com um portal tipo manuelino com decoração de influência renascentista que é encimado pelas armas de D. João Ill e de D. Catarina de Áustria».
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Câmara Municipal de Torres Vedras.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A pedra

Fotografia de Margarida Elias, Castelo de Óbidos (Maio, 2009).
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«La piedra es, para Pikionis, un elemento metafísico en sí misma; más allá de la propria estructura formal y de la escala, la piedra contiene una gran lección: "Los bordes de tu perfil se convierten en laderas de una colina, en crestas de una montaña, en declives y precipicios abisales, tus huecos son grutas, y de las grietas de la roca rosácea fluye silente el agua. En la Parte se esconde el Todo. Y el Todo es la Parte. Tú, piedra, trazas el diagrama de un paisaje. Eres el paisaje mismo. Aún más, eres el Templo que coronorá los peñascos de tu Acrópolis" (...)».
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Pikionis (1935), citado por Darío Álvarez.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

A Lua e o Sol

Desenho de Margarida Elias.
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«Cést en corrélation avec celui du soleil que se manifeste le symbolisme de la lune. Ses deux caractères les plus fondamentaux dérivent, d'une part, de ce que la lune est privée de lumiére propre et n'est qu'un reflet du soleil, d'autre part, de ce qu'elle traverse des phases différentes et change de forme. (...) elle symbolise la dépendence et le principe féminin (...), ainsi que la périodicité et le renouvellement. A ce double titre, elle est symbole de transformation et de croissance (...)».
«Le soleil est la source de la lumière, de la chaleur et de la vie. Ses rayons figurent les influences célestes (...) reçues par la terre. (...)».
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Jean Chevalier e Alain Gheerbrant.
(1982, Dictionnaire des Symboles).

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O branco

Ícone da Transfiguração (Século XVI, Museu do Hermitage, São Petersburgo).
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«Le blanc, couleur iniciatrice, devient, dans son acception diurne, la couleur de la révélation, de la grâce, de la transfiguration qui éblouit, éveillant l'entendement en même temps qu'il le dépasse: c'est la couleur de la théophanie dont un reste demeurera autour de la tête de tous ceux qui ont connu Dieu, sous la forme d'une auréole de lumière qui est bien la somme des couleurs».
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Jean Chevalier e Alain Gheerbrant.
1982, Dictionnaire des Symboles.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Arquitectura

Fotografia de Margarida Elias (Edifício Arte Nova, Aveiro).
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«(...) Mas as paisagens criadas pelos arquitectos não são meras ilustrações da realidade existente, mais ou menos idealizada. São, conceptualmente, paisagens ideológicas formadas a partir de modelos de compreensão da realidade e de convicções em relação ao papel do arquitecto (...)».
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Luís Santiago Baptista (2006)
in «Paisagem arquitectónica como ideologia: Rem Koolhaas e a Interiorização da Realidade Metropolitana».

terça-feira, 5 de maio de 2009

A Civilização

Fotografia de Paris, Abertura da Exposição Universal de 1900.
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Ao fundo, e como um altar-mor, era o gabinete de trabalho de Jacinto. A sua cadeira, grave e abacial, de couro, com brasões, datava do século XIV, e em torno dela pendiam numerosos tubos acústicos, que, sobre os panejamentos de seda cor de musgo e cor de hera, pareciam serpentes adormecidas e suspensas num velho muro de quinta. Nunca recordo sem assombro a sua mesa, recoberta toda de sagazes e subtis instrumentos para cortar papel, numerar páginas, colar estampilhas, aguçar lápis, raspar emendas, imprimir datas, derreter lacre, cintar documentos, carimbar contas! Uns de níquel, outros de aço, rebrilhantes e frios, todos eram de um manejo laborioso e lento: alguns, com as molas rígidas, as pontas vivas, brilhavam e feriam: e nas largas folhas de papel Whatman em que ele escrevia, e que custavam quinhentos réis, eu por vezes surpreendi gotas de sangue do meu amigo. Mas a todos ele considerava indispensáveis para compor as suas cartas (Jacinto não compunha obras), assim como os trinta e cinco dicionários, e os manuais, e as enciclopédias, e os guias, e os directórios, atulhando uma estante isolada, esguia, em forma de torre, que silenciosamente girava sobre o seu pedestal, e que eu denominara o Farol. O que, porém, mais completamente imprimia àquele gabinete um portentoso carácter de civilização eram, sobre as suas peanhas de carvalho, os grandes aparelhos, facilitadores do pensamento — a máquina de escrever, os autocopistas, o telégrafo Morse, o fonógrafo, o telefone, o teatrofone, outros ainda, todos com metais luzidios, todos com longos fios. Constantemente sons curtos e secos retiniam no ar morno daquele santuário. Tique, tique, tique! Dlim, dlim, dlim! Craque, craque, craque! Trrre, Trrre, Trrre!... Era o meu amigo comunicando. Todos esses fios mergulhados em forças universais transmitiam forças universais. E elas nem sempre, desgraçadamente, se conservavam domadas e disciplinadas! Jacinto recolhera no fonógrafo a voz do conselheiro Pinto Porto, uma voz oracular e rotunda, no momento de exclamar com respeito, com autoridade:
— Maravilhosa invenção! Quem não admirará os progressos deste século?
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Eça de Queirós (Civilização, 1892).
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segunda-feira, 4 de maio de 2009

Óbidos

Fotografia de Margarida Elias, Óbidos.
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«Óbidos visto da estrada é o cenário dum presépio, com as muralhas recortadas e moinhos de vento a trabalhar na encosta. (...) Pequena vila adormecida e quase intacta. Nunca passo por uma destas terrinhas que não me fique pena de lá não morar algum tempo, no silêncio recolhido (...)».
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Raul Brandão.