terça-feira, 30 de junho de 2009

A Arca de Noé


Fotografia de Margarida Elias, Pormenor de uma porta da capela da Quinta da Regaleira (Sintra, 2009).
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Sete em cores, de repente
O arco-íris se desata
Na água límpida e contente
Do ribeirinho da mata.
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O sol, ao véu transparente
Da chuva de ouro e de prata
Resplandece resplendente
No céu, no chão, na cascata.
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E abre-se a porta da Arca
De par em par: surgem francas
A alegria e as barbas brancas
Do prudente patriarca
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Noé, o inventor da uva
E que, por justo e temente
Jeová, clementemente
Salvou da praga da chuva.
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Tão verde se alteia a serra
Pelas planuras vizinhas
Que diz Noé: "Boa terra
Para plantar minhas vinhas!"
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E sai levando a família
A ver; enquanto, em bonança
Colorida maravilha
Brilha o arco da aliança.
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Ora vai, na porta aberta
De repente, vacilante
Surge lenta, longa e incerta
Uma tromba de elefante.
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E logo após, no buraco
De uma janela, aparece
Uma cara de macaco
Que espia e desaparece.
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Enquanto, entre as altas vigas
Das janelinhas do sótão
Duas girafas amigas
De fora as cabeças botam.
-
Grita uma arara, e se escuta
De dentro um miado e um zurro
Late um cachorro em disputa
Com um gato, escouceia um burro.
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A Arca desconjuntada
Parece que vai ruir
Aos pulos da bicharada
Toda querendo sair.
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Vai! Não vai! Quem vai primeiro?
As aves, por mais espertas
Saem voando ligeiro
Pelas janelas abertas.
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Enquanto, em grande atropelo
Junto à porta de saída
Lutam os bichos de pêlo
Pela terra prometida.
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"Os bosques são todos meus!"
Ruge soberbo o leão
"Também sou filho de Deus!"
Um protesta; e o tigre – "Não!"
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Afinal, e não sem custo
Em longa fila, aos casais
Uns com raiva, outros com susto
Vão saindo os animais.
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Os maiores vêm à frente
Trazendo a cabeça erguida
E os fracos, humildemente
Vêm atrás, como na vida.
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Conduzidos por Noé
Ei-los em terra benquista
Que passam, passam até
Onde a vista não avista.
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Na serra o arco-íris se esvai...
E... desde que houve essa história
Quando o véu da noite cai
Na terra, e os astros em glória
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Enchem o céu de seus caprichos
É doce ouvir na calada
A fala mansa dos bichos
Na terra repovoada.

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Vinicius de Morais.
in Poesia completa e prosa: "Poemas infantis"
in Poesia completa e prosa: "Cancioneiro"

segunda-feira, 29 de junho de 2009

O Espelho


Pintura de Parmigianino, Auto-retrato diante de um espelho convexo (c. 1524, Kunsthistorisches Museum, Viena).
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«Porque agora vemos por um espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido».
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Paulo de Tarso (São Paulo), 1 Coríntios 13 (12).

sábado, 27 de junho de 2009

Tocam os sinos da torre da igreja


Fotografia de Margarida Elias, Torre da Igreja do Ramalhal (2009).

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Procissão

Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passar a procissão.

Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.

Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!

Com o calor, o Prior vai aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.
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Letra: António Lopes Ribeiro.

Intérprete: João Villaret.

Um Arraial Infantil

video

Teve direito a sardinhada, salgados e doces; rancho folclórico; marchas populares; dança moderna/ginástica rítmica; manjericos e rifas para Quermese. Um arraial de São Pedro, que fechou o ano lectivo.
video

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Quo Vadis


Gravura de Carlos Traver, Quo Vadis, Estampa 78 (publicada em 1900).
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«A estrada estava deserta. Os camponezes que levavam os seus legumes para a cidade não tinham ainda atrellado as suas carretas. Sobre as lages, que calçavam a via até ás montanhas, ressoava fracamente a madeira das sandalias dos dois viajantes.
Em seguida o sol emergiu de sob o dorso das montanhas, e um espectaculo singular impressionou o olhar do Apostolo. Pareceu-lhe que a esphera loura, em logar de se elevar nos céos, deslisára do alto das montanhas e seguia horisontalmente a estrada.
Pedro parou e disse:
- Vês aquella claridade que avança para nós?
- Não vejo nada - disse Nazario.
Mas Pedro abrigou os olhos com a mão direita, e tornou, passado um momento:
-Vem ahi um homem, direito a nós, entre a irradiação do sol.
Comtudo, não chegava aos seus ouvidos nenhum som de passadas. Em torno, reinava o silencio absoluto. Nazario via apenas que ao longe estremeciam as arvores, como se as agitasse uma mão invisivel, e que pela planicie se espalhava, cada vez mais ampla, a claridade.
E olhou para o Apostolo com surpreza.
- Que tens, Rabbi? - exclamou elle com voz anciosa.
Das mãos de Pedro escorregára o bordão, e caira por terra. Tinha os olhos fitos em frente, a bôcca entreaberta e a sua physionomia reflectia o assombro, a alegria, o extase...
Prostrou-se no chão, com as mãos estendidas. E da sua bôcca sairam as palavras:
- Christo! Christo!
E o seu rosto collou-se á terra, como se beijasse pés invisiveis. Longo tempo o silencio reinou. Depois a voz do velho elevou-se, quebrada de soluços:
- Quo Vadis, Domine?...»

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Henrik Sienkiewicz, Quo Vadis, Versão de Mayer Garção, Biblioteca Popular, Lisboa, 1900.
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Este é um trecho de uma das obras literárias que mais marcou o meu imaginário, nomeadamente nesta edição ilustrada.

Captar pessoas

Pintura de Caillebotte, Retrato deMadame Martial Caillebotte - mãe do Artista (1877).
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«(...) Captar e coleccionar as pessoas que passam é reflexo de uma necessidade de conservar uma memória de uma paisagem que é a paisagem que também o coleccionador habita».
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Mariana Pinto dos Santos (2006).

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Ermida de São João Baptista






Fotografia de Margarida Elias, Ermida de São João Baptista (Serra de Montejunto, 2009).
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«A Serra de Montejunto, também localmente conhecida como Serra da Neve, desperta desde há muito um fascínio especial nas populações desta região. Outrora chamada de Monte Sacro, encerra em si mesmo, lendas, histórias e tradições, perpetuadas ao longo de sucessivas gerações, e que os mais velhos ainda contam, com um olhar de mistério e fantasia». 
A Ermida de S. João Baptista data «do séc. XIII. No seu interior podem-se observar painéis de azulejos alusivos à vida daquele santo.
 Após 500 anos de afastamento da serra de Montejunto, a Ordem dos Dominicanos volta para construir um novo convento, podemos encontrar as suas ruínas junto à Ermida de S. João. Tratava-se do Convento da Reforma de Montejunto e data de 1760. Este não foi concluído devido à reforma Dominicana não ter ido avante. A decisão da volta desta ordem religiosa àquele local coincide com um período tumultuoso da História de Portugal. Estávamos em guerra com os franceses e após a tentativa de assassinato de D. José, na qual o Marquês de Pombal desconfiava terem estado Jesuítas envolvidos, havia uma grande perseguição a todas as ordens religiosas. Poderiam ter sido estas as razões que levaram os Dominicanos a refugiarem-se novamente neste ermo local.»
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terça-feira, 23 de junho de 2009

Uma edificação de Catefica

Fototografia de Margarida Elias, Catefica (Torres Vedras, 2009).
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«(...) modificamos la naturaleza incluso al caminar sobre la hierba, mas aún con la arquitectura (...) Esto es una auténtica agresión, pero es a través de esta violencia como se evidencia la naturaleza, eso dibuja la separación, el movimiento, el contacto y el ritmo entre el hombre y la naturaleza».
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Sverre Fehn (1994), citado por Iván I. Rincón Borrego.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

A Arte e o Real

Sebastien Stoskopff, Summer or the Five Senses (1633).
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«A fotografia libertou a arte de certas funções de semelhança e por contraste demonstrou claramente que a arte não visa a reprodução da natureza, como sua cópia fiel, mas a transfiguração plástica do real».
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Paul Edvokimov (1970).

sábado, 20 de junho de 2009

Chegou o Verão


Fotografia de Margarida Elias, Praia de Santa Cruz (Junho de 2009).
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In winter I get up at night
And dress by yellow candle-light.
In summer quite the other way
I have to go to bed by day.
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Robert Louis Stevenson
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Nossa Senhora com o Menino Jesus


Registo: Gravura religiosa ou imagem de um santo, com que se assinala uma passagem num livro de devoção.
Imagem: Estampa que representa assunto religioso.
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Cândido de Figueiredo (imp. 1981).

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Sacré Coeur



Uma das minhas igrejas preferidas em Paris, por variadas razões. No interior encontra-se uma imagem de Santa Teresa, que me faz lembrar com saudade a Tia Alda.

Alguns dados sobre a igreja que tirei de outro site:

La construction est commencée en 1876 sur la Butte Montmartre, elle s'achève en 1910 et est consacrée en 1919.

Le Sacré-cœur long de 100m et large de 50m est surmontée d'un dôme haut de 83m.

Le campanile haut de 84 m abrite une cloche pesant 18.5 tonnes avec son battant de 850kg.

La construction de cette basilique de style romano-byzantin dédiée au Sacré-cœur fut déclarée d'utilité publique par l'Assemblée Nationale en 1873.

La construction est commencée en 1876 sur les plans d'Abadie largement inspirés de l'église St Front de Périgueux dont il fut le restaurateur.

L'intérieur renferme des trésors de décoration: sculptures en marbre, vitraux et mosaïques.

La colline de Montmartre est le point culminant de Paris avec ses 130 mètres de hauteur.

Du parvis de l'édifice on a une très belle vue panoramique de Paris.

On peut accéder à la Butte Montmartre grâce à un funiculaire original.

Juste à coté, l'Eglise Saint Pierre de Montmartre a été construite au milieu du XIIème siècle sur l'emplacement d'un édifice beaucoup plus ancien (sans doute remontant à l'époque Gallo-romaine).

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In Paris 1900.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A paisagem (segundo Eça de Queirós)

Fotografia de Margarida Elias, Quinta da Regaleira (2009).
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«O homem moderno vive longe da natureza, pela necessidade da profissão: uma arte que lhe reduz a natureza, que lha torna portátil, que lha introduz na sala de jantar, na alcova, interpretada, escolhida, - faz ao homem o maior serviço - pô-lo em comunicação permanente com a natureza. - E a natureza é tudo: calma, consola, eleva, repousa e vivifica».
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Eça de Queirós, A Tragédia da Rua das Flores, c. 1878 (ed. 1980).

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O Retrato (segundo Eça de Queirós)

Pintura de Albert Edelfelt, Louis Pasteur (1885, Museu de Orsay, Paris).
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«Um retrato decerto, pode ser uma obra de arte: mas é necessário um modelo: pinta-se quem tenha uma alma, uma ideia, uma acção grandiosa (...)».
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Eça de Queirós, A Tragédia da Rua das Flores, c. 1878 (ed. 1980).

terça-feira, 16 de junho de 2009

O Realismo (segundo Eça de Queirós)


Pintura de Honoré Daumier, Musicien des rues (Museu d'Orsay, Paris).
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«Mas Gorjão ultimamente desprezava todas essas ideias: achava-as imorais. A arte, segundo ele, devia educar pela representação das acções justas - e não pela exposição de luxos corruptores (...).
Vítor encontrou-o desenhando à luz de um candeeiro de petróleo, coberto com um abat-jour verde, que fazia cair uma luz crua sobre uma larga folha de papel, riscado de grossos traços confusos de craião (...).
A arte não era senão isto - uma força da natureza: e como tal devia ser aproveitada em proveito da civilização (...).
A arte deve ser essencialmente revolucionária. Um quadro deve ser um livro: deve ser um panfleto: deve ser um artigo de jornal.
E tudo isto meu amigo, num processo de pintura novo: nada do acabado, do estudado, do amaneirado, do trabalhado da pintura de luxo, da decoração. Não, não. A pintura não é nada - a ideia é tudo. Traços largos, sombras indicadas, tons sóbrios, que dêem a impressão exacta da realidade. Pif, paf - e dava grandes pinceladas no ar - a expressão! A expressão é tudo! Com três borrões de tinta pinto-te um agiota».
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Eça de Queirós, in Tragédia da Rua das Flores, c. 1878 (ed. 1980).

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O Pitoresco (segundo Eça de Queirós)

Pintura de Alfredo Keil, Ponte Rústica em Colares.
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«Depois apaixonou-se subitamene pelo Pitoresco: o que é a arte? exclamava: é simplesmente a idealização da vida: é o meio de pôr um interesse ideal na existência burguesa.
A arte portanto deve ser pitoresca: representar paisagens doces, suaves, onde se console o homem que é obrigado a viver constantemente na Baixa: onde se mostrem cenas grandiosas de galas, de cavalgadas triunfais, de festas (...)».
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Eça de Queirós, A Tragédia da Rua das Flores (ed. 1980).
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Sobre a pintura de Keil, na net:

sábado, 13 de junho de 2009

Olhai para as aves do céu


Fotografias de Margarida Elias, andorinhas do Ameal (2009).
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Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; o vosso Pai celestial as alimenta.
(...)
Olhai para os lírios do campo, como eles crescem: não trabalham nem fiam;
E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.
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Mateus 6:26 e 28.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Ó sino da minha aldeira

Fotografia de Margarida Elias, Capela de Santo António do Ameal (2009).
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Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.
E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.
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quinta-feira, 11 de junho de 2009

A natureza não faz nada incorrecto

Desenho de Albrecht Dürer, Veilchenstrauß (Museu Albertina, Viena).

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A natureza não faz nada incorrecto. Toda a forma, bela ou feia, tem sua causa, e, de todos os seres que existem, não há um que não seja como deve ser.
A razão ratifica, por vezes, o julgamento rápido da sensibilidade; ela recorre de sua sentença. Consequentemente, tantas obras esquecidas imediatamente depois de aplaudidas; tantas outras, quer despercebidas, quer desdenhadas, que recebem, ao mesmo tempo, do progresso do espírito e da arte, de uma atenção mais serena, o tributo que mereciam.
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Diderot, Ensaios sobre a Pintura.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A Eucaristia

Pintura de Jan Davidz de Heem, Eucharist in a Fruit Wreath (1648, Kunsthistorisches Museum, Vienna).

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O que caracteriza as sociedades modernas é o facto de essas sociedades consumirem hoje imagens e já não crenças, como as de outrora. Elas são, pois, mais liberais, menos fanáticas, mas também mais "falsas" (menos autênticas).
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Roland Barthes (ed. 1981),
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Citado por Pedro Miguel Frade.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Columbano nas Comemorações do Centenário de Camões




Gravura de Columbano Bordalo Pinheiro, Luís de Camões (1880, Museu do Chiado).
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Em 10 de Junho de 1880, realizaram-se as celebrações do Tricentenário da morte de Camões. Para esse efeito foi reunida uma comissão da imprensa que organizou os festejos, composta por Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Eduardo Coelho, Luciano Cordeiro, Rodrigues da Costa, Pinheiro Chagas, Jaime Batalha Reis, Magalhães Lima e Rodrigo Pequito. Todos eles eram personagens importantes no campo da literatura e do jornalismo.
Para estas comemorações, foi organizada uma «manifestação cívica» e «não oficial», que pretendia reatar o «fio da solidariedade nacional», ensinando «ao povo como é que, pela eloquencia sublime dos “Lusíadas”, entramos hoje na corrente do espirito europeu» (Ocidente). Os festejos compunham-se de variadas iniciativas, entre as quais se contava a organização de um cortejo, onde participaram alguns artistas. Escreveu a este propósito Rangel de Lima, afirmando que as artes portuguesas não podiam deixar de tomar parte nestas «manifestações de admiração ao Poeta», pelo que alguns artistas prestaram-se a «dirigir os trabalhos», «para que os diversos carros que hão-de figurar no cortejo sáiam dignos de tão faustosa cerimonia».
Foi realizado um desfile de carros triunfais, com subsídio do governo e organizado sob a direcção dos artistas, formando um grande «préstito cívico e triunfal», que se reuniu no dia 10 de Junho na Praça do Comércio. O trabalho de concepção dos carros fora coordenado pelo arquitecto José Luís Monteiro. Columbano desenhou um carro das Colónias. Também participaram Silva Porto, José Luís Monteiro, Simões de Almeida, Pereira Júnior e Tomasini. Todos os artistas tiveram o seu retrato publicado no número do Ocidente de 1 de Agosto desse ano, homenagem feita em resultado do «esforço sincero que (...) empregaram para que as festas do centenario tivessem a feição que deviam ter quando se tratava de commemorar o artista supremo da literatura nacional».
Ainda dentro do espírito das comemorações, Columbano executou um desenho representando Luís de Camões (1880). O modelo era o poeta João de Deus e o retrato foi passado a gravura, de forma a ser publicado na edição de Os Lusíadas do Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro. É de mencionar que esta publicação continha um prefácio crítico da autoria de Ramalho Ortigão, escritor que considerava ser este um «retrato magnífico que lembra pelo estylo uma bella agua forte da Renascença e pela expressão intensa da figura revela do modo mais fiel a physionomia historica do personagem».
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Texto de Margarida Elias.

A Luz e a Sombra

Pintura de Ticiano, Madonna de Ca' Pesaro (1519-1526, Santa Maria Gloriosa dei Frari, Venice).
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A representação da imagem como movimento perene de luz e sombra, própria de Tiziano, de Rembrandt e de Daumier, tem o direito de ser incluída entre as perfeições da arte.
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Venturi.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A Arte e a Sociedade

Gravura de Emília Matos e Silva.
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«Ligada da maneira mais estreita ao destino das sociedades, a arte não se explica pela compreensão global dos seus mecanismos, mas permite reconstituir grandes planos do seu sistema de pensamentos tanto como dos seus rituais e das suas actividades técnicas. Estável numa sociedade estável, móvel numa sociedade em movimento, ela é, simultaneamente, produto e testemunho.»
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Pierre Francastel (ed. 1973).

domingo, 7 de junho de 2009

Flores I


Aguarela de Fernanda Matos e Silva (1947).
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Esta aguarela foi pintada pela minha avó materna (n. 1905). Ela não era pintora profissional mas aprendeu a pintar, como era costume na época entre as meninas de boas famílias. Poucas seguiam uma carreira profissional. A minha avó tinha desgosto nisso.
Escrevia contos infantis, que foram publicados em revistas como O Senhor Doutor.
Aprendeu pintura com Raquel Roque Gameiro, sendo, na minha opinião, uma boa aguarelista, dentro do género naturalista - aliás, estava no seguimento de sua mestra, a qual era filha de um grande aguarelista do Século XIX.
Um bom exemplo das qualidades da minha avó como pintora, sobretudo de aguarela, pode ser observado nesta pequena obra, agora na minha posse. Gosto muito dela, pela maneira como estão figuradas as flores cor de rosa na jarra. Acho que a minha avó pintou a mesma jarra, com violetas, a óleo.
O mais curioso nesta pintura é a data: 18 de Agosto de 1947, um dia antes de nascer a minha mãe.
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Texto de Margarida Elias.

sábado, 6 de junho de 2009

A Pintura Barroca

Pintura de William Hogarth, The Graham Children (1742, National Gallery, Londres).
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Gosto muito de pintura barroca e com o tempo fui aprendendo a admirá-la em todas as suas versatilidades, desde os caminhos iniciais mais tenebristas, até à linguagem final, rocaille, cheia de leveza e de efeitos decorativos. É o caso desta pintura de Hogarth (1697-1764) que sempre me apaixonou. Desde a naturalidade das figuras, os rostos alegres das crianças, passando pelos trajes (sou profundamente admiradora do trajo do século XVIII - mesmo se pensarmos que nesta época as crianças se vestiam como adultos, com roupas pouco próprias para brincar) - até ao jogo divertido que se pode ver entre as personagens: a menina mais velha olhando o espectador, dando a mão ao bebé, que largou um brinquedo no chão e olha para o pássaro na gaiola; o rapaz que toca a caixa de música e também observa o pássaro, como se este estivesse a cantar de acordo com a música da caixa. A outra menina faz uma pose para o retrato. E, no meio de tudo, um gato olha o pássaro, provavelmente interessado em caçá-lo. Os detalhes, os jogos, os coloridos, tudo contribui para o tom alegre da composição - apesar do perigo anunciado pelo gato, que faz pensar na Raia de Chardin. Outro pormenor é o das cerejas na mão da menina mais velha - o bebé estará a olhar para o pássaro, ou para elas? - remetendo a temporalidade desta composição festiva para os meses de verão. O próprio colorido, o fundo escuro de onde sobressaem os tons claros das vestes, em azuis, dourados, acobreados, as flores nas cabeças das meninas mais velhas, fazem pensar em música barroca, nomeadamente na «Sinfonia dos Brinquedos» de Leopold Mozart.
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Texto de Margarida Elias.


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sexta-feira, 5 de junho de 2009

Caminho da Verdade

Desenho de Rembrandt Harmensz van Rijn, Ein Elefant (1637, Albertina, Viena).
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Venho da rua. Um inebriamento
De formas e de cores abalou
Um momento o meu ser, onde pousou
Numa interrogação um desalento.
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No silêncio do lar as mãos ansiosas
Levanto, e cerro os olhos cismador.
Todas as sombras logo em derredor.
De mim vêm alinhar-se carinhosas...
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- Que tens, pobre ansioso? Duvidaste?
Viste só com os olhos, e cegaste...
Vê com a Alma, amigo. Põe constante
-
O coração nas cousas. Ama, crê!
A verdade é em ti, amigo, sê
Tu mesmo, e achá-la-ás a todo o instante...
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António Carneiro.
Citado por José-Augusto França (1973).

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A Cultura


Ilustração Victoriana.
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«A cultura é um tesouro pacientemente acumulado».
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Pierre Francastel, in A Realidade Figurativa (ed. 1973).

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Os Passarinhos

Fotografia de Margarida Elias, um ninho de andorinhas na nossa varanda (Maio de 2009).
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Que bonitos, que engraçados,
que piquenos, coitadinhos,
os estouvados
dos passarinhos!
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A sua vida é cantar,
voar,
brincar pelo ar,
e alegrar
com seus chilreos
tão cheios
de graça e boa alegria,
a luz do dia!
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Que bonitos, que contentes,
e que espertos, coitadinhos,
os inocentes
dos passarinhos!
-
A sua vida é voar,
cantar,
brincar pelo ar,
e alegrar
em ranchos alegres e mui divertidos,
e quando poisam nos ramos floridos
parece que as flores estão a gorgear!...
-
Que bonitos, que engraçados,
os passarinhos,
se estão casados,
dentro dos ninhos,
e vão criando, com mil cuidados,
os seus meninos.
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E então quando os pequeninos,
já mais crescidos,
podem sair?...
Vêm com elles os seus paes,
e elles piam,
piam,
piam,
muito contentes, os atrevidos,
assim a modo que a rir
e aos ais...
-
E os paes
estão mesmo a dizer: - «Vê lá se caes!
Por aqui, por aqui, por este lado,
devagarinho,
que tu és um passarinho
muito piqueno! Cuidado!...
Sim, quando fôres grande, então voarás;
serás capaz
de subir, de subir, de subir pelo ar,
e de ir subindo,
cantando e rindo,
sempre a voar,
lá tão alto, que o Sol fique pertinho
de ti, meu pobre e lindo passarinho!...»
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Afonso Lopes Vieira, in Animaes nossos Amigos (1911).

terça-feira, 2 de junho de 2009

Os Retratos

Fotografia de Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro (1875, Centro de Documentação do Museu da Cidade, Lisboa.).
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«(...) Em seis retratos meos que tenho mandado fazer por diversos artistas, para dar á minha noiva, uns em miniatura, outros em claro escuro, outros a oleo, tenho sido até hoje tão feliz, que se ella tivesse a indiscrição de os mostrar, daria a mais horrorosa idéa da sua constancia; julgal-a-hiam namorada de seis pessoas differentes, inclusivamente do meu avô, e d’outro individuo, que poderá vir a ser meu neto ainda antes de eu ser caduco».
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António Feliciano de Castilho (1800-1875), citado por Paulo Baptista.