quarta-feira, 30 de março de 2011

Flores III

Harold Harvey, Picking Daffodils.
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«Where flowers bloom so does hope».
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Lady Bird Johnson,
citado por The Dutchess.

terça-feira, 29 de março de 2011

O Jardim


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O Jardim 
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Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.

Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.

Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.
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António Ramos Rosa.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Ainda da Primavera que agora começa...


 Columbano Bordalo Pinheiro, Retrato de Helena Bordalo Pinheiro (21 de Março de 1886).
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«La fantaisie est un perpétuel printemps».
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domingo, 27 de março de 2011

Luz

José Malhoa, Retrato da minha mulher (1914).
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AH! QUEREM uma luz melhor que
a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas
que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol
que o Sol,
O que quero é prados mais prados
que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores
que estas flores -
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira! 
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sábado, 26 de março de 2011

Abstracção e Espiritualidade



Piet Mondrian:
Albero argentato (1911, Gemeentemuseum. L'Aia); Alberi in fiore (1912, Nieuwenhuizen. Seagar. L'Aia); Composizione in grigio e giallo (1914, Stedelijk Museum. Amsterdam); Composition with Red, Yellow and Blue (1921).
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Piet Mondrian (1872-1944) partiu das formas básicas da natureza, reduzindo-as a uma estrutura geométrica. De acordo com Argan (1997), Mondrian  realizou uma conquista progressiva da abstracção pura. O pintor considerava que o equilibro entre o individual e o universal criava o trágico, sendo o seu objectivo conseguir que a arte deixasse de ser dominada pelo trágico, concebendo-a em termos de abstracção sacralizada, por sua vez conectada com o misticismo teosófico.
Para ele havia um princípio unívoco de conhecimento que se baseava no encontro da vertical com a horizontal (a cruz). O seu abstraccionismo era filosófico, ligado a uma interpretação da imagem como evento simbólico e universal. As formas simples e as cores primárias evocavam as coordenadas basilares da experiência humana (Sandro Sproccati, 1997).
O próprio artista terá dito:
«To approach the spiritual in art, one will make as little use as possible of reality, because reality is opposed to the spiritual».

sexta-feira, 25 de março de 2011

Anunciação I

Brice Marden, Anunciação (1978).
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Brice Marden (n. 1938) é um pintor americano, geralmente associado ao Minimalismo. Numa entrevista (1988), em que se referiu às suas Anunciações dizia:
«I had these ideas about things moving through, moving across a plane—out, out, out. They were painted in such a way that the stroke on the right was echoed in the stroke on the left.  (...) In the Annunciations I put the paint on working from right to left, but the light moved from left to right».
Brice Marden joga com o ritmo e a cor, as quais mantêm o esquema aberto / fechado: preto é fechado; amarelo / vermelho é aberto. Parece-me que o amarelo é a luz, correspondendo ao anjo, que se move para a direita, em direcção à Virgem, que corresponde aqui à cor vermelha. Não sei, contudo, até que ponto esta pintura tem uma intenção espiritual que ultrapasse o jogo pictórico.
Uma questão que me anda a interessar ultimamente é a da relação entre a igreja e a arte desde o século XIX, pois os movimentos artísticos, tenderam a utilizar linguagens formais que a igreja rejeitou. Contudo, houve artistas que trabalharam para a igreja ou pintaram temas religiosos. Há pouco tempo descobri num livro sobre este assunto uma citação de João Paulo II (de 1980) que me parece verdadeira: 
«Na arte trata-se do homem, da verdade do homem (...). Uma colaboração no diálogo entre a Igreja e a arte, com os olhos postos no homem, consiste e se apoia em que ambos pretendem libertar o homem de escravaturas exteriores e conduzi-lo a si mesmo» (citado por Juan Plazaola, 2001).

quinta-feira, 24 de março de 2011

Anunciação

 Petrus Christus, Annunciation (1452, Groeninge Museum, Bruges).
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Provavelmente, quem segue este blogue sabe que a Anunciação é um dos meus temas preferidos da história da arte. As razões prendem-se não só com a beleza do episódio bíblico, mas também com outros factores: gosto de anjos, gosto das representações de cenas interiores e do quotidiano que geralmente estão associadas a este tema (sobretudo na pintura flamenga e holandesa), gosto dos símbolos mais ou menos escondidos e dos múltiplos detalhes. O meu interesse sobre o tema aumentou quando li o livro de Didi-Hubberman sobre Fra Angelico e quando fui a Florença e vi as Anunciações de Fra Angelico. Também aumentou quando descobri que a Anunciação se festejava no dia 25 de Março, sendo associada à chegada da Primavera, fazendo nove meses de antecedência até ao Natal - quando se festeja o nascimento de Jesus.
Esta Anunciação que escolhi para celebrar o dia 25 de Março de 2011 é de Petrus Christus, um pintor que nasceu em Baarle-Hertog, perto de Antuérpia, activo em meados do século XV. Interessou-me por vários motivos: a delicadeza do anjo Gabriel, anunciando a Maria que iria conceber Jesus, a figura também delicada de Maria, com as mãos em pose de aceitação, tendo sobre a sua cabeça a pomba do Espírito Santo. 
Depois atraem-me os detalhes habituais: a Virgem junto de uma mesa com livros, evocando a Bíblia, estando um fechado e outro aberto - referindo-se talvez ao Velho e ao Novo Testamento. Entre o anjo e a Virgem está uma jarra com lírios, lembrando a pureza de Maria.
A cena passa-se num interior, que parece ser o de uma igreja, com paredes rasgadas por grandes janelas com vitrais que permitem a iluminação do espaço. Entre os vários aspectos interessantes desta pintura, há alguns que vou destacar: a perspectiva centralizada que aponta para o grande vitral ao centro, em cima, onde num círculo está figurada uma imagem de Maria, ladeada por Deus e por Jesus.
Por outro lado, acho muito interessante (e bela) a paisagem que se vê pela porta aberta, do lado de Maria. Importa notar que, segundo Didi-Hubermann, as Anunciações jogam com a ideia de aberto e fechado, ficando a Virgem geralmente do lado da casa / fechado e o anjo do lado do jardim / aberto. No entanto, aqui a Virgem fica do lado do jardim, onde se vêm pavões, que são um símbolo cristão. O jardim simboliza o Paraíso perdido, que será retomado com Maria através de Jesus, a qual é associada à imagem de Hortus conclusus (do Cânticos dos Cânticos).
Creio que há outros detalhes importantes, entre os quais os dois profetas, um de cada lado do arco, que evocam certamente os profetas que anunciaram a vinda de Jesus. Esta pintura é muito rica de leituras e talvez um dia venha a descobrir mais sobre ela.

Uma prenda que recebi e vou redistribuir

Obrigada (In)Cultura pelo prémio!
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quarta-feira, 23 de março de 2011

Maria Guilhermina Silva Reis



Descobri há pouco tempo a obra da pintora portuguesa Maria Guilhermina Silva Reis. Sobre ela sei muito pouco, apenas o que vem no Dicionário de Fernando de Pamplona. Segundo este autor, ela foi uma pintora do século XIX, discípula de A. Monteiro da Cruz. Expôs na Academia de Belas-Artes (1861 e ss.), na Exposição do Porto (1861), na Sociedade Promotora das Belas-Artes (1863 e ss.) e na Exposição de Madrid de 1871. No Porto, em 1861, obteve uma medalha de prata. Ficou conhecida por pintar trechos de Sintra, mas, como vemos aqui, também representou paisagens de outros locais, nomeadamente da Torre de Belém. Diogo de Macedo considera que ela fez a transição da pintura do romantismo para a do realismo.
A obra desta artista interessa-me por ser pintura de paisagem, um género que só começou a ser reconhecido pelas Academias depois do romantismo e sobretudo depois do naturalismo da Escola de Barbizon. Acho também interessante o tipo de paisagens, de grande planos, na horizontal, procurando captar a realidade observada, que me faz lembrar pinturas de Alfredo Keil e de Alfredo de Andrade. O mundo que ela representa, pacifico e belo, tem para mim ainda o interesse de representar Sintra, uma das terras de que mais gosto em Portugal. A primeira obra aqui reproduzida intitula-se Vista de Sintra; a segunda é uma Vista do Palácio da Pena, do Castelo dos Mouros e do Vale de Colares e a terceira é uma Vista de Lisboa com a Torre de Belém.
Do que consegui ver dos trabalhos de Maria Reis (apenas reproduções na internet), parece-me que por vezes não eram tão bons como aqueles que aqui coloquei. Ainda assim, fiquei bastante interessada na obra desta artista, que não se conformou em fazer pinturas de flores e de naturezas mortas, que eram os temas geralmente tratados pelas mulheres.
Luciano Cordeiro escreveu sobre ela  num artigo que foi publicado no Segundo livro de crítica : arte e litteratura portugueza d'hoje (livros, quadros e palcos) (1871). Nele dizia que esta artista manifestava um «pincel firme e estudioso, e fecunda esthesia». Elogiava os seus «magnificos longes», mas queixava-se que ela era melhor a pintar os segundos planos do que os primeiros. Ora esta censura não é possível de aferir pelas reproduções. No entanto, daquilo que pude ver, confirmo que os "longes" são "magníficos".

terça-feira, 22 de março de 2011

Dia Mundial da Água

John Brett, Britannia's Realm  (1880, Tate Gallery, Londres).
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«(...) A água, matando a sede e satisfazendo as muitas necessidades quotidianas, apresenta gratas utilidades porque é gratuita.
Por este motivo, os que exercem sacerdócios segundo os ritos dos egípcios mostram que todas as coisas se baseiam no poder do elemento líquido. Daí que, quando a água é levada numa hydria ao templo e ao santuário com puro sentimento religioso, eles se prostrem em terra e, erguidas as mãos para o céu, dêem graças à liberalidade divina por esta acção criadora.
Como, pois, foi considerado, quer pelo físicos, quer pelos filósofos, quer pelos sacerdotes que todas as coisas subsistem pela força da água, (...) julguei que seria oportuno (aqui) tratar (...) da água».
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Vitrúvio,
citado por Cátia Mourão (2008).

segunda-feira, 21 de março de 2011

Dia Mundial da Poesia

John Brett, Mount's Bay (1872).
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 Coral VII
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Em si o verso mudo se corrompe.
Nada é amanhã
que hoje não desperta.
Viva a imensidão se decompõe.
Lutando como o vento num deserto
- miragem, água, palmeiral disperso -
esvoaça, derruba, desfaz-se sobre o mar.
Em si o verso mudo se transforma.
Verso mudo que foi
é verso vivo,
flor de manhã, sol de meio-dia,
comunhão,
Vaga lacustre, calma e silenciosa,
manhã de primavera
possuída de verão.
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João Mattos e Silva (1972).

domingo, 20 de março de 2011

Dando as boas vindas à Primavera II



Isa (Mrs. Robert Jobling) Thompson, Girl in Blossom - Elizabeth Adela Stanhope Forbes, The Orchard - Thomas Cooper Gotch, The Orchard (1887).
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«A seed hidden in the heart of an apple is an orchard invisible».
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Provérbio.

sábado, 19 de março de 2011

sexta-feira, 18 de março de 2011

Para o Dia do Pai

Albrecht Durer, Portrait of Dürer's Father at 70 (1497, National Gallery, Londres)
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Rembrandt van Rijn, Portrait of Rembrandt's Father (1631).
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Pierre-Auguste Renoir, Leonard Renoir, the Artist's Father (1869, St. Louis Art Museu).
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Edgar Degas, Lorenzo Pagans et Auguste de Gas (c. 1871-1872, Musée d'Orsay, Paris).
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 Paul Cézanne, The Artist's Father, Reading "L'Événement," (1866, National Gallery of Art Washington).
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«A truly rich man is one whose children run into his arms when his hands are empty».
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quinta-feira, 17 de março de 2011

Ler III

Károly Ferenczy, Man Sitting on a Log (1895, Hungarian National Gallery, Budapeste).
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De acordo com William Styron (1958), «a good book should leave you... slightly exhausted at the end. You live several lives while reading it». Creio que a frase é verdadeira, sobretudo quando os livros são bons. Ultimamente ando a ler o livro de Mario Vargas Llosa, A Tia Julia e o Escrevedor. É um livro sobre dois escritores, com muitas histórias e muitas vidas, muita ironia e muito bem escrito. Estou a gostar imenso e estou quase a terminá-lo.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Mulheres vistas de costas I

Aqui se apresentam mais senhoras vistas de costas, todas do século XVII. De Gerard ter Borch (1617-1681) fica uma Woman at a Mirror.

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O outro exemplo é o Perfume de Francesco Furini (1603-1646).

O enigma da mulher vista de costas, sem rosto, é no primeiro caso contrabalançado pelo facto de se ver o seu rosto reflectido no espelho, o que também acontece na Vénus ao espelho (The toilet of Venus) de Velásquez (1599-1660), pertencente à National Gallery de Londres.

Nesse sentido, estas imagens (incluindo o Perfume) estão conectadas com a vaidade feminina.
No entanto, o quadro de Velásquez levanta-me outra questão: enquanto a pintura de nu explorou a forma sensual da mulher vista de costas, a pintura holandesa vestiu a mulher, retratando-a no seu quotidiano. Na primeira pintura, de Ter Borch, vemos a senhora no espelho, mas noutros exemplos, do mesmo artista, ela apenas esconde o rosto do espectador, como por exemplo em The Concert (Staatliche Museen, Berlinm).


Na realidade, estas mulheres vestidas também mostram sensualidade pela maneira como expõem o pescoço e os ombros ao olhar do espectador. Esta tipologia, da mulher vista de costas, vestida e numa situação quotidiana (mais ou menos recatada), terá sido aquela que foi seguida pelos pintores do século XIX, provavelmente quando a pintura holandesa do século XVII começou a ser alvo de atenção dos artistas, críticos e historiadores de arte. No entanto, para os pintores do século XIX, estas figuras femininas, muitas vezes isoladas, figuradas em espaços fechados e sombrios, são uma imagem melancólica, sobretudo se pensarmos nas obras de Vihelm Hammershoi (1864-1916). Tal como escreveu Tzvetan Todorov (1993): «(…) La peinture realiste, comme toute peinture représentative, continue d’affirmer la beauté de ce qu’elle montre; mais c’est souvent une beauté de l’accablement, du désespoir, de la détresse: ce sont dês fleurs du mal (…)».

terça-feira, 15 de março de 2011

Janelas

Círculo de Carl Spitzweg, A man watering flowers in a window box
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 Mariano Fortuny y Marsal, Las Ventanas (Museo Goya, Castres).
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«This is what I think art is and what I demand of it: that it pull everyone in, that it show one person another's most intimate thoughts and feelings, that it throw open the window of the soul». 
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segunda-feira, 14 de março de 2011

Flores II

Josefa Greno, Natureza morta.
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«Il y a des fleurs partout pour qui veut bien les voir».
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Pensando na minha avó Matilde

Hoje, no meu calendário, reparei que era dia de Santa Matilde, o que me fez lembrar a minha avó Matilde, que morreu no dia 19 de Março de 2004.

 Lembrei-me dela, do Alentejo, da Quinta de Santana no Redondo.
Lembrei-me das rosas lindíssimas que existiam na Quinta.
 E lembrei-me que, entre as suas muitas qualidades, a minha avó bordava.