quarta-feira, 10 de junho de 2009

A Eucaristia

Pintura de Jan Davidz de Heem, Eucharist in a Fruit Wreath (1648, Kunsthistorisches Museum, Vienna).

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O que caracteriza as sociedades modernas é o facto de essas sociedades consumirem hoje imagens e já não crenças, como as de outrora. Elas são, pois, mais liberais, menos fanáticas, mas também mais "falsas" (menos autênticas).
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Roland Barthes (ed. 1981),
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Citado por Pedro Miguel Frade.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Columbano nas Comemorações do Centenário de Camões




Gravura de Columbano Bordalo Pinheiro, Luís de Camões (1880, Museu do Chiado).
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Em 10 de Junho de 1880, realizaram-se as celebrações do Tricentenário da morte de Camões. Para esse efeito foi reunida uma comissão da imprensa que organizou os festejos, composta por Teófilo Braga, Ramalho Ortigão, Eduardo Coelho, Luciano Cordeiro, Rodrigues da Costa, Pinheiro Chagas, Jaime Batalha Reis, Magalhães Lima e Rodrigo Pequito. Todos eles eram personagens importantes no campo da literatura e do jornalismo.
Para estas comemorações, foi organizada uma «manifestação cívica» e «não oficial», que pretendia reatar o «fio da solidariedade nacional», ensinando «ao povo como é que, pela eloquencia sublime dos “Lusíadas”, entramos hoje na corrente do espirito europeu» (Ocidente). Os festejos compunham-se de variadas iniciativas, entre as quais se contava a organização de um cortejo, onde participaram alguns artistas. Escreveu a este propósito Rangel de Lima, afirmando que as artes portuguesas não podiam deixar de tomar parte nestas «manifestações de admiração ao Poeta», pelo que alguns artistas prestaram-se a «dirigir os trabalhos», «para que os diversos carros que hão-de figurar no cortejo sáiam dignos de tão faustosa cerimonia».
Foi realizado um desfile de carros triunfais, com subsídio do governo e organizado sob a direcção dos artistas, formando um grande «préstito cívico e triunfal», que se reuniu no dia 10 de Junho na Praça do Comércio. O trabalho de concepção dos carros fora coordenado pelo arquitecto José Luís Monteiro. Columbano desenhou um carro das Colónias. Também participaram Silva Porto, José Luís Monteiro, Simões de Almeida, Pereira Júnior e Tomasini. Todos os artistas tiveram o seu retrato publicado no número do Ocidente de 1 de Agosto desse ano, homenagem feita em resultado do «esforço sincero que (...) empregaram para que as festas do centenario tivessem a feição que deviam ter quando se tratava de commemorar o artista supremo da literatura nacional».
Ainda dentro do espírito das comemorações, Columbano executou um desenho representando Luís de Camões (1880). O modelo era o poeta João de Deus e o retrato foi passado a gravura, de forma a ser publicado na edição de Os Lusíadas do Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro. É de mencionar que esta publicação continha um prefácio crítico da autoria de Ramalho Ortigão, escritor que considerava ser este um «retrato magnífico que lembra pelo estylo uma bella agua forte da Renascença e pela expressão intensa da figura revela do modo mais fiel a physionomia historica do personagem».
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Texto de Margarida Elias.

A Luz e a Sombra

Pintura de Ticiano, Madonna de Ca' Pesaro (1519-1526, Santa Maria Gloriosa dei Frari, Venice).
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A representação da imagem como movimento perene de luz e sombra, própria de Tiziano, de Rembrandt e de Daumier, tem o direito de ser incluída entre as perfeições da arte.
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Venturi.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A Arte e a Sociedade

Gravura de Emília Matos e Silva.
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«Ligada da maneira mais estreita ao destino das sociedades, a arte não se explica pela compreensão global dos seus mecanismos, mas permite reconstituir grandes planos do seu sistema de pensamentos tanto como dos seus rituais e das suas actividades técnicas. Estável numa sociedade estável, móvel numa sociedade em movimento, ela é, simultaneamente, produto e testemunho.»
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Pierre Francastel (ed. 1973).

domingo, 7 de junho de 2009

Flores I


Aguarela de Fernanda Matos e Silva (1947).
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Esta aguarela foi pintada pela minha avó materna (n. 1905). Ela não era pintora profissional mas aprendeu a pintar, como era costume na época entre as meninas de boas famílias. Poucas seguiam uma carreira profissional. A minha avó tinha desgosto nisso.
Escrevia contos infantis, que foram publicados em revistas como O Senhor Doutor.
Aprendeu pintura com Raquel Roque Gameiro, sendo, na minha opinião, uma boa aguarelista, dentro do género naturalista - aliás, estava no seguimento de sua mestra, a qual era filha de um grande aguarelista do Século XIX.
Um bom exemplo das qualidades da minha avó como pintora, sobretudo de aguarela, pode ser observado nesta pequena obra, agora na minha posse. Gosto muito dela, pela maneira como estão figuradas as flores cor de rosa na jarra. Acho que a minha avó pintou a mesma jarra, com violetas, a óleo.
O mais curioso nesta pintura é a data: 18 de Agosto de 1947, um dia antes de nascer a minha mãe.
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Texto de Margarida Elias.

sábado, 6 de junho de 2009

A Pintura Barroca

Pintura de William Hogarth, The Graham Children (1742, National Gallery, Londres).
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Gosto muito de pintura barroca e com o tempo fui aprendendo a admirá-la em todas as suas versatilidades, desde os caminhos iniciais mais tenebristas, até à linguagem final, rocaille, cheia de leveza e de efeitos decorativos. É o caso desta pintura de Hogarth (1697-1764) que sempre me apaixonou. Desde a naturalidade das figuras, os rostos alegres das crianças, passando pelos trajes (sou profundamente admiradora do trajo do século XVIII - mesmo se pensarmos que nesta época as crianças se vestiam como adultos, com roupas pouco próprias para brincar) - até ao jogo divertido que se pode ver entre as personagens: a menina mais velha olhando o espectador, dando a mão ao bebé, que largou um brinquedo no chão e olha para o pássaro na gaiola; o rapaz que toca a caixa de música e também observa o pássaro, como se este estivesse a cantar de acordo com a música da caixa. A outra menina faz uma pose para o retrato. E, no meio de tudo, um gato olha o pássaro, provavelmente interessado em caçá-lo. Os detalhes, os jogos, os coloridos, tudo contribui para o tom alegre da composição - apesar do perigo anunciado pelo gato, que faz pensar na Raia de Chardin. Outro pormenor é o das cerejas na mão da menina mais velha - o bebé estará a olhar para o pássaro, ou para elas? - remetendo a temporalidade desta composição festiva para os meses de verão. O próprio colorido, o fundo escuro de onde sobressaem os tons claros das vestes, em azuis, dourados, acobreados, as flores nas cabeças das meninas mais velhas, fazem pensar em música barroca, nomeadamente na «Sinfonia dos Brinquedos» de Leopold Mozart.
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Texto de Margarida Elias.
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sexta-feira, 5 de junho de 2009

Caminho da Verdade

Desenho de Rembrandt Harmensz van Rijn, Ein Elefant (1637, Albertina, Viena).
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Venho da rua. Um inebriamento
De formas e de cores abalou
Um momento o meu ser, onde pousou
Numa interrogação um desalento.
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No silêncio do lar as mãos ansiosas
Levanto, e cerro os olhos cismador.
Todas as sombras logo em derredor.
De mim vêm alinhar-se carinhosas...
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- Que tens, pobre ansioso? Duvidaste?
Viste só com os olhos, e cegaste...
Vê com a Alma, amigo. Põe constante
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O coração nas cousas. Ama, crê!
A verdade é em ti, amigo, sê
Tu mesmo, e achá-la-ás a todo o instante...
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António Carneiro.
Citado por José-Augusto França (1973).

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A Cultura


Ilustração Victoriana.
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«A cultura é um tesouro pacientemente acumulado».
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Pierre Francastel, in A Realidade Figurativa (ed. 1973).

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Os Passarinhos

Fotografia de Margarida Elias, um ninho de andorinhas na nossa varanda (Maio de 2009).
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Que bonitos, que engraçados,
que piquenos, coitadinhos,
os estouvados
dos passarinhos!
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A sua vida é cantar,
voar,
brincar pelo ar,
e alegrar
com seus chilreos
tão cheios
de graça e boa alegria,
a luz do dia!
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Que bonitos, que contentes,
e que espertos, coitadinhos,
os inocentes
dos passarinhos!
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A sua vida é voar,
cantar,
brincar pelo ar,
e alegrar
em ranchos alegres e mui divertidos,
e quando poisam nos ramos floridos
parece que as flores estão a gorgear!...
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Que bonitos, que engraçados,
os passarinhos,
se estão casados,
dentro dos ninhos,
e vão criando, com mil cuidados,
os seus meninos.
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E então quando os pequeninos,
já mais crescidos,
podem sair?...
Vêm com elles os seus paes,
e elles piam,
piam,
piam,
muito contentes, os atrevidos,
assim a modo que a rir
e aos ais...
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E os paes
estão mesmo a dizer: - «Vê lá se caes!
Por aqui, por aqui, por este lado,
devagarinho,
que tu és um passarinho
muito piqueno! Cuidado!...
Sim, quando fôres grande, então voarás;
serás capaz
de subir, de subir, de subir pelo ar,
e de ir subindo,
cantando e rindo,
sempre a voar,
lá tão alto, que o Sol fique pertinho
de ti, meu pobre e lindo passarinho!...»
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Afonso Lopes Vieira, in Animaes nossos Amigos (1911).

terça-feira, 2 de junho de 2009

Os Retratos

Fotografia de Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro (1875, Centro de Documentação do Museu da Cidade, Lisboa.).
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«(...) Em seis retratos meos que tenho mandado fazer por diversos artistas, para dar á minha noiva, uns em miniatura, outros em claro escuro, outros a oleo, tenho sido até hoje tão feliz, que se ella tivesse a indiscrição de os mostrar, daria a mais horrorosa idéa da sua constancia; julgal-a-hiam namorada de seis pessoas differentes, inclusivamente do meu avô, e d’outro individuo, que poderá vir a ser meu neto ainda antes de eu ser caduco».
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António Feliciano de Castilho (1800-1875), citado por Paulo Baptista.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

sábado, 30 de maio de 2009

A Cidade

Fotografia de Margarida Elias, Vista do Jardim de São Pedro de Alcântara (Lisboa, 2009).
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“La antíteses irregular es la ciudad inverosímil de Dinócrates, voluntario sueño irrealizable según la mensuración más escueta, pero hermosa idea según apreciación y palabras del proprio Alejandro Magno, tal como se nos narra en el «introducción» del Libro II del tratado de Vitruvio «De Architectura», ciudad que vuelve a querer ser un conjunto de hombres antes que de edificios, pero de hombres ciudadanos dueños de su destino, imagen de un orden social y de su belleza. (...)»
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Ramón Rodriguez Llera (2006).
«Paisajes Regulares y Irregulares» pp. 49-81.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Com o Tempo o Prado Seco Reverdece

Fotografia de Margarida Elias, Catefica (2009).
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Com o tempo o prado seco reverdece,
Com o tempo cai a folha ao bosque umbroso,
Com o tempo para o rio caudaloso,
Com o tempo o campo pobre se enriquece,
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Com o tempo um louro morre, outro floresce,
Com o tempo um é sereno, outro invernoso,
Com o tempo foge o mal duro e penoso,
Com o tempo torna o bem já quando esquece,
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Com o tempo faz mudança a sorte avara,
Com o tempo se aniquila um grande estado,
Com o tempo torna a ser mais eminente.
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Com o tempo tudo anda, e tudo pára,
Mas só aquele tempo que é passado
Com o tempo se não faz tempo presente.
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Luís de Camões.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

O cão

Ilustração de Raul Lino, O Cão (in Animais nossos Amigos, 1911).
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O cão
Que faz – ão, ão, ão
É bom amigo como os que o são!

É bom amigo, bom companheiro,
É valente, fiel, verdadeiro,
Leal, serviçal,
E tem bom coração.
Que o diga o dono, se elle o tem ou não!

Quando vem de fóra, a gente,
E chega a casa, é o cão
Quem diz primeiro, todo prazenteiro,
Saltando e rindo
Contente,
E com os olhos a brilhar de amor:
- «Ora seja bemvindo
O meu senhor!»

O cão
Que faz – ão, ão, ão
É bom amigo como os que o são!

Que o diga o ceguinho, se elle o é ou não!

Nunca viram passar, pelo caminho,
Um ceguinho
Levando pela mão
O seu cão?
Que seria do cego, coitadinho,
Sem o seu guia, sem o carinho
D’aquela dedicação?

E o ceguinho caminha, e não tropeça,
Porque os seus olhos vão
Abertos na cabeça
Do seu cão...

O cão
Que faz – ão, ão, ão
É bom amigo como os que o são!

O pastor que o diga, se elle o é ou não!

O pastor vai para a serra,
Vai para a serra sózinha,
Que, lá do céu tão vizinha,
Parece longe da Terra...

O pastor leva o rebanho,
As ovelhas e os carneiros,
E os meigos cordeirinhos,
As cabras e os cabritinhos
Que saltam muito ligeiros.

O pastor leva o rebanho,
E vai-se ouvindo
O som lindo
Dos chocalhos muito finos
No ar tinindo
Como pequeninos
Sinos...

O pastor leva o rebanho,
E quem guarda os cordeirinhos
E as mães
Dos lobos maus e vorazes?
- São os cães!

São os cães, guardas valentes,
Que aos lobos dizem assim:
- «Ó lobos maus e vorazes,
Sim,
Andem, toquem-lhe lá, se são capazes!...»

E, de longe, os lobos miram
Os cordeirinhos contentes,
Mas não se atiram,
Com medo dos cães valentes
E dos seus dentes!

O cão
Que faz – ão, ão, ão
É bom amigo como os que o são!

Os pobres que o digam, se elle o é ou não!

O cavador passou a trabalhar
O dia inteiro, a cavar,
A terra do seu patrão;
E cava, cava a terra alheia,
Que era brava e pedregosa,
E elle a semeia
E elle a põe florida
Para o dono, que enfim depois goza
Ao cabo d’aquela lida...

E o cavador, o bom trabalhador,
Tem um amigo só, cheio de amor!

Tem um amigo, tem,
Que o ama a elle como a mais ninguem!

E que enquanto elle cava
A terra brava
Que ha de ser florida,
Com seu olhar o segue, tão fiel,
Com seu olhar de amor,
Que está dizendo, com carinho e dôr:
- «Como o meu dono sofre nesta vida!
Pudesse eu antes trabalhar por elle!...
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Afonso Lopes Vieira.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Somos filhos da madrugada

Fotografia de Margarida Elias (Ameal, 2009).

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Não sei se é sempre assim, mas o que é verdade é que já vi muitas vezes o nascer do sol desde que tenho filhos. Não me importa e até acho alegre olhar pela janela a essa hora - quando está bom tempo. Muitas vezes digo, para comigo, que a Teresa é a minha estrela da Aurora. O Tiago, mais dorminhoco, é o meu Sol das 9 da manhã.
Por vezes, faz-me lembrar a música do Zeca Afonso, que acho lindíssima e que deixo aqui registada:

Canto Moço

Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de manhã clara.
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Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Mensageira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo de uma montanha.
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Onde o vento cortou amarras
Largaremos p'la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca.
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segunda-feira, 25 de maio de 2009

A Cerâmica de Manuel Cipriano Gomes Mafra

Peça cerâmica de Manuel Cipriano Gomes Mafra, Jarrão Cobras (Museu de Cerâmica, Caldas da Rainha).
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Manuel Cipriano Gomes (1829-1905) nasceu em Mafra e por isso ficou conhecido pelo nome de Manuel Mafra. Ainda jovem foi viver para as Caldas da Rainha, onde trabalhou numa fábrica de cerêmica de Maria dos Cacos. Mais tarde ficou com essa fábrica, a qual passou a gerir com a sua família. Desenvolveu um tipo de cerâmica muito característico, utilizando motivos vegetalistas e zoomórficos, dando um aspecto decorativo às suas peças. Vendendo inicialmente em feiras, D. Fernando II interessou-se pela sua obra e deu-lhe o estatuto de fornecedor da Casa Real. Por intermédio do rei, ou de outros interessados na arte cerâmica, tomou contacto com o estilo Palissy. Este fora um artista francês da Renascença que desenvolveu um tipo de cerâmica inspirado na natureza. A sua obra fora redescoberta no Seculo XIX e inspirou o desenvolvimento decorativo da cerâmica europeia. Manuel Mafra juntou o vocabulário tipo Palissy às suas peças cerâmicas criando um estilo único e de grande qualidade, que mereceu ser premiado em exposições internacionais.
No Museu de Cerâmica das Caldas da Rainha abriu agora uma exposição sobre o ceramista, tendo eu colaborado no catálogo e na realização de alguma pesquisa. A exposição era para ter inaugurado em Dezembro de 2005, no centenário da sua morte, mas só agora se conseguiu realizar.
Para quem gosta de cerâmica vale a pena o passeio. O próprio Museu vale a visita. Além da colecção que tem obras de Rafael Bordalo Pinheiro e Manuel Gustavo, entre outros, o espaço é muito agradável. O edifício principal é um palacete que pertenceu ao Visconde de Sacavém e tem um jardim bem arranjado, com azulejos, alguns deles decorados com poemas.
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Texto de Margarida Elias.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O Pátio do Martel

Fotografia de Margarida Elias, Vila Martel (Maio de 2009).
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Finalmente consegui visitar o Pátio do Martel, onde viveu Columbano. Tinha muita curiosidade devido às muitas descrições que lera sobre o local. É de facto um esaço curioso, que talvez merecesse maior atenção da parte de quem o pode fazer. Um edifício de entrada (em que há um café, onde trabalham as senhoras que me deram acesso ao pátio), com uma porta que dá para uma escadaria, que se bifurca. De cada lado um conjunto de pequenas casas, cada uma com um quintal. A vista é magnífica, vendo-se o centro histórico de Lisboa.
A respeito do que já foi este sítio, noutros tempos (final do Século XIX e início do Século XX), cito Rocha Martins, por intermédio de Fernando Madaíl.
«Cinquenta degraus até chegar à glória»
«O jornalista que os ardinas celebrizaram em pregões visitava o refúgio de artistas.
"Sobe-se ao encontro da glória por aqueles cinquenta degraus, íngremes e difíceis, mas merece bem a pena, porque não só a vista que se goza é admirável, mas porque nos pomos em contacto com as recordações de grandes mortos, da sua obra e dos ainda vivos que ali lidaram, sofreram, sonharam e realizaram parte dos sonhos - nunca os artistas estão satisfeitos - e lá mourejam e visionam quadros e estátuas." A caneta de Rocha Martins (1879-1952), jornalista e historiador, que se tornaria famoso na boca dos ardinas pelo pregão "fala o Rocha, o Salazar está à brocha", a 10 de Janeiro de 1944 descrevia assim, no Diário de Notícias, o Pátio do Martel.
Aquele local, "em frente da Conceição da Glória, à entrada das Taipas", tinha sido destinado por José Trigueiros de Martel - "homem de iniciativa, vindo do estrangeiro com ideias largas" e que seria um dos fundadores do jornal O Século - para "refúgio e mansões de trabalho de pintores e escultores" - o que, nesta altura, era continuado pelos seus sobrinhos.
"Lembremo-nos, porém, que as pedras da alta escadaria foram calcadas, como as do famoso pátio, não só pelos pés dos pintores e escultores consagrados, mas pelos das celebridades que o visitaram e algumas das quais ali foram retratadas", sugeria .
"Vemos, assim, Antero de Quental a caminho do atelier de Columbano, que trabalhou o belo quadro onde a fisionomia do poeta mira a posteridade. No mesmo lugar se dedica hoje José Campas, professor e pintor de arte, às restaurações, já notáveis, de muitos quadros; no atelier da outra ponta, na carreira das casinhas limpas e modestas, fez Francisco Franco a estátua [equestre] do Restaurador [D. João IV, que está em Vila Viçosa] e tantas outras obras-primas [toda a gente as conhece, do D. Dinis , em Coimbra, ao Cristo-Rei, em Almada]."
Arrumando os parágrafos como se fossem um puzzle, para o leitor moderno melhor entender a rubrica denominada Lisboa de Ontem e de Hoje, acompanhamos a visita ao atelier, onde o articulista relembra "Columbano, que, entre aquelas quatro paredes, tão animadas de arte, trabalhou o seu quadro Camões e as Tágides [actualmente no Museu Grão Vasco, em Viseu], painéis dos tectos do Palácio Foz e os do Museu de Artilharia, além do retrato de Antero [Museu do Chiado, em Lisboa]".
"Junto do atelier do Mestre (...) existia outro não menos celebrado: o de D. Maria Augusta Bordalo Pinheiro, irmã do grande pintor e de Rafael Bordalo, dama digna do máximo culto na dinastia bordalenga", que "ensinava a sua arte portentosa: a das rendas (...)".
Naquele pátio Carlos Reis "executou o seu quadro As Engomadeiras, que está no Museu Nacional de Belas Artes [agora, no Museu do Chiado]". Também ali trabalharam José Malhoa, "o mais português dos pintores"; Jorge Colaço, "que ensaiou, num pequeno forno, hoje soterrado, o esmalte dos seus famosos azulejos"; a lista continua numa frase longa. Noutros parágrafos, mais artistas que por ali passaram, com vultos menores a antecederem Eduardo Viana e Francisco Franco, "o escultor que domina com a sua arte e agrada com a sua modéstia".
E, a certa altura do texto, menos preocupado com o ordenamento das informações do que com as impressões de quem escreve, Rocha Martins, inspirado pelo sítio, parece querer fazer uma aguarela com palavras.
"Quando ali habitou Columbano o panorama seria diferente, com mais quintais e jardins e menos prédios." No tempo desta visita, além das "casinhas e jardinetes, todos de alegria", "depara-se-nos surpreendente panorama. No ar translúcido das manhãs, na doçura côr de pérola de certos dias, nos poentes maravilhosos de Lisboa, a parte superior do pátio do Martel, com o próprio recinto, e miradouro de poucos conhecido"».
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Rocha Martins, citado por Fernando Madaíl.

terça-feira, 19 de maio de 2009

A Hemeroteca de Lisboa

Fotografia de Margarida Elias, Hemeroteca Municipal de Lisboa (Maio de 2009).
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Fui ontem à Hemeroteca de Lisboa, onde já não ia há algum tempo. Senti que ainda está longe de ser uma biblioteca moderna e o seu espaço parece decadente, apesar das obras de preservação do edifício. Contudo, notei pela primeira vez na beleza do espaço, da escadaria e do salão nobre, sobretudo pelos estuques dos tectos.
Aindei à procura de informação e encontrei menos do que esperava.
No entanto, aqui vai algo que descobri:
«Localização: Rua São Pedro de Alcântara, n.ºs 1-3, Freguesia da Encarnação.
Este palácio era propriedade do conselheiro Bartolomeu dos Mártires Dias e Sousa, o qual (...) faleceu, em Lisboa, em 7 de Janeiro de 1882, efectuando-se a transmissão de título de propriedade deste prédio para sua filha Sofia Adelaide (...). Foi após esta herança que este edifício adquiriu a designação de Palácio dos Condes de Tomar, isto porque D. Sofia Adelaide era condessa de Tomar, tendo adquirido o título através do seu casamento com António Bernardo de Costa Cabral, 2.º conde de Tomar, o primogénito do ministro Costa Cabral. A decoração interior em estuque dos tectos, a escaiola de manufactura tradicional da escadaria e o revestimento a couro gravado a ouro brasonado da sala de jantar deste palácio, tal como o próprio nome de Palácio dos Condes de Tomar, são posteriores a 1882, e devem-se a estes condes de Tomar que passaram a habitar o palácio. A partir dos anos 20 do século XX, vemos o palácio alugado. Um dos seus inquilinos mais duradouros foi o The Royal British Club, que ocupou o espaço de 24 de Maio de 1926 a 21 de Janeiro de 1966.
Em 17 de Junho de 1969, a Câmara Municipal de Lisboa, por proposta do Presidente António Vitorino França Borges, adquiriu o palácio por escritura (...)
O palácio foi, depois, atribuído à Direcção dos Serviços Centrais e Culturais, para instalar em Outubro de 1973, a Hemeroteca Municipal de Lisboa, que é uma biblioteca camarária especializada em publicações periódicas, equipamento este que ainda se encontra em funcionamento no velho Palácio dos Condes de Tomar».
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segunda-feira, 18 de maio de 2009

Pelo Museu de Arte Popular


«Seguimos ao meio-dia para o Museu e começámos logo a trabalhar, primeiro a poucas mãos mas desde o início com a atenção dos turistas, a quem fomos contando o porquê do protesto. Alguns deles bordaram connosco e todos lamentaram encontrar o museu fechado. Aos poucos foram chegando amigos e desconhecidos, muitas figuras públicas e até bordadeiras chamadas pelas notícias nos jornais. À hora do almoço já não havia espaço em redor do lenço para todos os que queriam ajudar, e assim foi até às sete horas, quando o lenço foi finalmente pendurado na porta do Museu perante uma plateia visivelmente entusiasmada».
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sexta-feira, 15 de maio de 2009

A propósito de Sousa Pinto

Pintura de José Julio de Sousa Pinto, La récolte des Pommes de Terre (1898, Museu d'Orsay).
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Que eu saiba, existem duas obras de pintores portugueses no Museu d'Orsay, em Paris. Uma é esta de Sousa Pinto, a outra é uma natureza morta de Columbano. Sempre achei que eram boas pinturas do Naturalismo, sobretudo esta, que estava perfeitamente ao nível de outras que eram feitas na mesma época. Obra de grande qualidade pictórica, quer ao nível técnico quer ao nível de representação da realidade visível, quer em termos compositivos, lembra-me obras de Bastien-Lepage. Sempre achei errado que outros artistas estivessem expostos e os portugueses ficassem nas reservas. Fiquei feliz quando ontem me apercebi que esta obra de Sousa Pinto chamou a atenção de alguém que fez uma exposição sobre Bastien-Lepage, em Paris, e assim ganhou o direito de ter o reconhecimento que merece. É que, se o final do Século XIX e o início do Século XX, em Portugal, não trouxeram à arte europeia grande inovação - até à obra de Amadeu de Sousa Cardoso - existiram no nosso país bons pintores, que não ficavam atrás de outros artistas famosos na época e que têm sido agora mais respeitados. Além de Sousa Pinto, ou de Columbano, cito sobretudo Henrique Pousão.
Sendo amanhã o dia dos Museus, é bom lembrar a arte portuguesa. E é também importante lembrar o Museu de Arte Popular que está fechado, mas que se quer reaberto.
Como escreveu Joel Serrão:
«Em última instância, a política postula uma tomada de posição acerca dos fins da vida humana e acerca do que se deve entender por «homem» e pelo seu bem».
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Margarida Elias.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Um gatinho com algo para contar

Fotografia de Margarida Elias (2009).
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Este gatinho tem cerca de 1 mês. Quinze dias depois de ele nascer, a mãe dele desapareceu. Os donos tentaram dar-lhe leite normal, mas ficou doente. Chorava muito. Arranjou-se leite próprio para gatos bebés e deu-se-lhe leite com um biberão. Pouco tempo depois, a irmã dele, mais velha, que estava grávida (teve dois gatinhos) adoptou-o. E ele agora anda por aí cheio de energia!
É um sobrevivente.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Santuário de Fátima

Fotografia de Margarida Elias, Santuário de Fátima (2009).
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«Ergue-se no local onde, em 13 de Maio de 1917, os três pastorinhos brincavam "a fazer uma paredita", quando, de repente, viram um relâmpago que os assustou e fez com que juntassem o rebanho para regressarem a casa. O projecto foi concebido pelo arquitecto holandês Gerard Van Kriechen e continuado pelo arquitecto João Antunes. Em 13 de Maio de 1928 foi benzida a primeira pedra pelo arcebispo de Évora, D. Manuel da Conceição Santos. A sagração foi a 7 de Outubro de 1953. O título de "Basílica" foi-lhe concedido por Pio XII, no breve "Luce Superna", de Novembro de 1954».
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terça-feira, 12 de maio de 2009

Portal da Igreja de São Pedro

Fotografia de Margarida Elias, Pormenor do Portal da Igreja de São Pedro (Torres Vedras, 2009).
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Igreja de São Pedro: «Classificada monumento nacional, reconstruída no século XVI, fachada com um portal tipo manuelino com decoração de influência renascentista que é encimado pelas armas de D. João Ill e de D. Catarina de Áustria».
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Câmara Municipal de Torres Vedras.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A pedra

Fotografia de Margarida Elias, Castelo de Óbidos (Maio, 2009).
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«La piedra es, para Pikionis, un elemento metafísico en sí misma; más allá de la propria estructura formal y de la escala, la piedra contiene una gran lección: "Los bordes de tu perfil se convierten en laderas de una colina, en crestas de una montaña, en declives y precipicios abisales, tus huecos son grutas, y de las grietas de la roca rosácea fluye silente el agua. En la Parte se esconde el Todo. Y el Todo es la Parte. Tú, piedra, trazas el diagrama de un paisaje. Eres el paisaje mismo. Aún más, eres el Templo que coronorá los peñascos de tu Acrópolis" (...)».
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Pikionis (1935), citado por Darío Álvarez.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

A Lua e o Sol

Desenho de Margarida Elias.
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«Cést en corrélation avec celui du soleil que se manifeste le symbolisme de la lune. Ses deux caractères les plus fondamentaux dérivent, d'une part, de ce que la lune est privée de lumiére propre et n'est qu'un reflet du soleil, d'autre part, de ce qu'elle traverse des phases différentes et change de forme. (...) elle symbolise la dépendence et le principe féminin (...), ainsi que la périodicité et le renouvellement. A ce double titre, elle est symbole de transformation et de croissance (...)».
«Le soleil est la source de la lumière, de la chaleur et de la vie. Ses rayons figurent les influences célestes (...) reçues par la terre. (...)».
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Jean Chevalier e Alain Gheerbrant.
(1982, Dictionnaire des Symboles).

quinta-feira, 7 de maio de 2009

O branco

Ícone da Transfiguração (Século XVI, Museu do Hermitage, São Petersburgo).
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«Le blanc, couleur iniciatrice, devient, dans son acception diurne, la couleur de la révélation, de la grâce, de la transfiguration qui éblouit, éveillant l'entendement en même temps qu'il le dépasse: c'est la couleur de la théophanie dont un reste demeurera autour de la tête de tous ceux qui ont connu Dieu, sous la forme d'une auréole de lumière qui est bien la somme des couleurs».
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Jean Chevalier e Alain Gheerbrant.
1982, Dictionnaire des Symboles.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Arquitectura

Fotografia de Margarida Elias (Edifício Arte Nova, Aveiro).
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«(...) Mas as paisagens criadas pelos arquitectos não são meras ilustrações da realidade existente, mais ou menos idealizada. São, conceptualmente, paisagens ideológicas formadas a partir de modelos de compreensão da realidade e de convicções em relação ao papel do arquitecto (...)».
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Luís Santiago Baptista (2006)
in «Paisagem arquitectónica como ideologia: Rem Koolhaas e a Interiorização da Realidade Metropolitana».

terça-feira, 5 de maio de 2009

A Civilização

Fotografia de Paris, Abertura da Exposição Universal de 1900.
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Ao fundo, e como um altar-mor, era o gabinete de trabalho de Jacinto. A sua cadeira, grave e abacial, de couro, com brasões, datava do século XIV, e em torno dela pendiam numerosos tubos acústicos, que, sobre os panejamentos de seda cor de musgo e cor de hera, pareciam serpentes adormecidas e suspensas num velho muro de quinta. Nunca recordo sem assombro a sua mesa, recoberta toda de sagazes e subtis instrumentos para cortar papel, numerar páginas, colar estampilhas, aguçar lápis, raspar emendas, imprimir datas, derreter lacre, cintar documentos, carimbar contas! Uns de níquel, outros de aço, rebrilhantes e frios, todos eram de um manejo laborioso e lento: alguns, com as molas rígidas, as pontas vivas, brilhavam e feriam: e nas largas folhas de papel Whatman em que ele escrevia, e que custavam quinhentos réis, eu por vezes surpreendi gotas de sangue do meu amigo. Mas a todos ele considerava indispensáveis para compor as suas cartas (Jacinto não compunha obras), assim como os trinta e cinco dicionários, e os manuais, e as enciclopédias, e os guias, e os directórios, atulhando uma estante isolada, esguia, em forma de torre, que silenciosamente girava sobre o seu pedestal, e que eu denominara o Farol. O que, porém, mais completamente imprimia àquele gabinete um portentoso carácter de civilização eram, sobre as suas peanhas de carvalho, os grandes aparelhos, facilitadores do pensamento — a máquina de escrever, os autocopistas, o telégrafo Morse, o fonógrafo, o telefone, o teatrofone, outros ainda, todos com metais luzidios, todos com longos fios. Constantemente sons curtos e secos retiniam no ar morno daquele santuário. Tique, tique, tique! Dlim, dlim, dlim! Craque, craque, craque! Trrre, Trrre, Trrre!... Era o meu amigo comunicando. Todos esses fios mergulhados em forças universais transmitiam forças universais. E elas nem sempre, desgraçadamente, se conservavam domadas e disciplinadas! Jacinto recolhera no fonógrafo a voz do conselheiro Pinto Porto, uma voz oracular e rotunda, no momento de exclamar com respeito, com autoridade:
— Maravilhosa invenção! Quem não admirará os progressos deste século?
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Eça de Queirós (Civilização, 1892).
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segunda-feira, 4 de maio de 2009

Óbidos

Fotografia de Margarida Elias, Óbidos.
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«Óbidos visto da estrada é o cenário dum presépio, com as muralhas recortadas e moinhos de vento a trabalhar na encosta. (...) Pequena vila adormecida e quase intacta. Nunca passo por uma destas terrinhas que não me fique pena de lá não morar algum tempo, no silêncio recolhido (...)».
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Raul Brandão.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Christ Preaching At The Seaport

Pintura de Jan Bruegel, Christ Preaching At The Seaport (Colecção Privada).
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Jan Bruegel (1568-1625) sempre foi um dos meus pintores preferidos. Aliás, gosto muito de pintura flamenga e holandesa - sendo Bruegel um artista flamengo. Admiro as suas pinturas com miríades de pequenas figuras, onde muitas vezes o assunto principal surge tão escondido que só o identificamos pelo título. Neste caso, Jesus é uma minúscula personagem vestida de branco e com auréola, situado num dos barcos. A posição do espectador é a de alguém que está a assistir de longe, no cimo de um monte - podemos até confundir-nos com o homem de costas que desce a montanha em direcção a Jesus. Este tipo de construção das composições, permitiu ao pintor transformar as pinturas de história em pinturas de paisagem, tratando-se aqui de uma paisagem imaginada. Outro aspecto relevante é a utilização de uma perspectiva aérea e cromática - a profundidade é dada pelo colorido, nomeadamente pelo tom azulado das montanhas. Por fim, note-se, que as figuras vestem à época do pintor, o que torna o acontecimento bíblico contemporâneo das pessoas que primeiro poderem observar o quadro.
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Margarida Elias.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Nomes de Pessoas na Toponímia Lisboeta

Gravura de Espinho (1945).
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«Era antigamente o povo quem dava os nomes às ruas das povoações, e em Lisboa estavam sempre essas denominações ou relacionadas com os nomes, alcunhas ou profissões das pessoas ou entidades que nessas ruas moravam ou tinham propriedade, ou subordinadas a qualquer particularidade inerente ao local, ou a algum edifício profano ou religioso que nelas existia, ou nas vizinhanças».
(...)
«Só muito excepcionalmente eram atribuídos nomes às ruas para consagração de pessoas. (...)».
«Foi a primeira a Rua Nova de El-Rei, em honra de D. Afonso V, em cujo reinado ela foi aberta, cêrca do ano de 1466, sôbre a vala ou rêgo das imundícies, que, atravessando diagonalmente o vale da Baixa, ia lançar no Tejo os esgotos que vinham desde Andaluz e Arroios. Esta cobertura do rêgo representou um considerával melhoramento para a cidade, mas a denominação pouco tempo durou, até cerca de 1586, pois que foi substituída pela Rua dos Ourives do Ouro, artífices que nela se foram instalar».
«Foi a outra a Rua Nova do Almada, que o povo assim cognominou em reconhecimento ao presidente da Câmara Rui Fernandes de Almada, que em 1665 teve a iniciativa de a mandar abrir, demolindo prédios, e melhorando enormemente a circulação citadina no local».
(...)
«Logo no princípio do século XIX foram os nomes das artérias da cidade consignados ou fixados oficialmente na Regulação para o estabelecimento da pequena posta, caxas e portadores de cartas em Lisboa, a 7 de Maio de 1800».
«A atribuição de dar nomes às ruas deixou de ser privilégio do povo, e passou de facto para o Poder Central (...)».
(...)
«A atribuição de baptizar as vias públicas de Lisboa passou para a Câmara Municipal, pelo Código administrativo de 6 de Maio de 1878 (...). A Câmara, imitando o que se fazia no estrangeiro, começou, no último quartel do século XIX, logo em 1878 a dar às ruas os nomes próprios (...) de pessoas notáveis (...)».
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A. Vieira da Silva.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Um quadro inverosímil de Turner

Pintura de Joseph Mallord William Turner, The Lake, Petworth, Sunset (c. 1828, Tate Gallery, Londres).
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«(...) O poente avermelha as areias e acende na água um rastro de estrelas. (...) Como num quadro inverosímil de Turner as névoas esgarçadas embebem-se em reflexos vermelhos - cores delicadas de nácar, interiores de conchas, tons róseos bebidos pelas gotas de humidade. (...) Sinto que a tinta que envolve a paisagem morre a muito custo e que toda esta humidade se quer fartar de luz, transformando-se como numa mágica em explosões e cores desgrenhadas pelos ares e em cenários irreais na terra cheia de mistério, até que um único risco de oiro ao cimo da água, oscila, serpenteia e acaba por desaparecer num último arabesco...»
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Raul Brandão.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

As Bodas de Caná


Pintura de Paolo Caliari, dito Veronese, Les Noces de Cana (1562-1563, Museu do Louvre, Paris).
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«Appelé à Venise en 1553, Véronèse ne cessera d'exercer son talent de décorateur, apte à brosser d'immenses toiles où s'allient l'autorité scénographique, la somptuosité des costumes modernes et l'éclatante luminosité du coloris. Les Noces de Cana ornaient le réfectoire construit par Palladio pour les Bénédictins de l'île de San Giorgio Maggiore. L'épisode sacré est transposé, avec une liberté iconographique souveraine, dans le cadre fastueux d'une noce vénitienne».
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Aline François (Louvre).

A Primitiva casa de Joaquim Pires Mendes

Palacete no Campo Grande, n.º 101-103, Lisboa (fotografia de Margarida Elias, 2009).
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Aindei bastante para encontrar algo sobre este palacete, que é um dos meus preferidos da cidade de Lisboa.
Descobri na internet que foi o palacete de Joaquim Pires Mendes, sendo da autoria do Arquitecto José da Purificação Coelho e edificado em 1911.
Segundo o Lifecooler é um «edifício de planta rectangular coberta por telhado de 2 águas, onde se misturam elementos clássicos, barrocos, românticos e Arte Nova. Na fachada principal encontram-se registos de azulejos em que o motivo principal são as alegorias». Foi classificado como Imóvel de Interesse Público pelo Dec. nº 2/96, DR 56 de 6 Março 1996.
De acordo com o IPPAR:
«A primitiva casa de Joaquim Pires Mendes sofreu grandes obras de reedificação no início do século XX, segundo o risco do arquitecto José Coelho. Destas obras destacamos a reconstrução total dos espaços interiores com aplicação de cantarias, alvenaria rebocada e pintada e friso de azulejos (com motivos alegóricos: puttis, cisnes e flores) nos panos murários exteriores. A construção, de planta longitudinal e volumetria paralelipipédica, desenvolve-se em três registos - cave e dois andares. A fachada principal composta por um corpo central, é ladeada por dois corpos divididos em três partes por pilastras de cantaria com decoração vegetalista, encimadas por cornija e coroadas por jarrões. Da profusão de decoração arquitectónica salientamos a porta principal realizada em madeira almofadada, ladeada por duas janelas de fresta com vãos em ferro e com um arco abatido de cantaria talhado com folhas entrelaçadas, a partir do qual arrancam mísulas decoradas onde assenta a varanda do segundo piso. Este edifício traduz um gosto eclético aplicado à arquitectura civil residencial».
Concluindo, para meu espanto, que afinal não estou sozinha na minha admiração por este edifício, deixo aqui citado o texto de outro blogue:
«Em 1911 / 1913 foi reconstruído, segundo projecto do arquitecto José Coelho, do palacete unifamiliar ao Campo Grande, antiga casa de quinta, (completa reconstrução do interior, mantendo-se o perímetro murário externo, embora com aposição de cantarias e elementos decorativos, aproveitando-se o anexo destinado a celeiro e a adega).
Em 1937 deu-se a expropriação parcial da quinta para áreas afectas à futura Cidade.
Em 1990, uma parte do terreno foi vendida ao Colégio Moderno.
Trata-se de um edifício elegante e luxuoso onde se misturam elementos clássicos, barrocos, românticos e Arte Nova (porta principal emoldurada por folhas entrelaçadas, ladeada por janelas decoradas a ferro por motivos ondulantes). Na fachada principal acentuam-se 3 eixos de simetria, o corpo central e o pano central dos corpos flanqueantes. O registo de azulejos da fachada principal tem como motivo várias alegorias: o central representa o comércio e a indústria, os laterais, representam as 4 estações do ano».
Gostava agora de descobrir agora alguma informação sobre o arquitecto e, se possível, sobre o proprietário.

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Life Cooler

IPPAR

Esta Lisboa que eu amo

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A Terra

Pintura de Sir Edward Burne-Jones, Earth Mother (1882, Worcester Art Museum, Worcester).
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Avec ce caractère sacré, avec se rôle maternel, la terre intervient dans la société comme garant des serments. Si le serment est le lien vital du groupe, la terre est mère et nourrice de toute société.
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Jean Chevalier e Alain Gheerbrant.

terça-feira, 21 de abril de 2009

As papoilas

Pintura de Claude Monet, Campo de Papoilas num vale perto de Giverny (1885, Colecção Privada).
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A papoila é uma das flores que mais gosto.
Anima-me, na Primavera, ver campos de papoilas, ou, por vezes, apenas algumas espreitando entre as outras flores silvestres. Gosto do contraste que fazem, com a cor vermelha das suas pétalas, entre os tons verdes do campo. Como outras flores silvestres murcham logo se as arrancamos. Talvez sejam ainda mais frágeis que a maioria. Por isso, é raro ter a pretensão de arrancá-las da terra. Por isso, talvez, tenho a tentação de fotografá-las, para poder guardar a sua imagem. Alguns pintores, como Monet, captaram-nas nas suas telas, como nesta obra que aqui reproduzo.
As papoilas surgem apenas no início da Primavera. Pouco tempo depois desaparecem - até ao ano seguinte. Acho que quando vier o dia da Espiga, este ano, já não vão haver muitas.
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Texto de Margarida Elias.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Se eu fosse pintor I

Pintura de Claude Monet, La Porte D'Amount, Etretat (1868-1869, Colecção Privada).
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Se eu fosse pintor, passava a minha vida a pintar o pôr do Sol à beira-mar. fazia cem telas, todas variadas, com tintas novas e imprevistas. É um espectáculo extraordinário.
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Raul Brandão.

domingo, 19 de abril de 2009

Au clair de la lune

Desenho de Margarida Elias.
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Au clair de la lune
-Au clair de la lune
Mon ami Pierrot
Prête-moi ta plume
Pour écrire un mot
Ma chandelle est morte
Je n'ai plus de feu
Ouvre-moi ta porte
Pour l'amour de Dieu
-
Au clair de la lune
Pierrot répondit
Je n'ai pas de plume
Je suis dans mon lit
Va chez la voisine
Je crois qu'elle y est
Car dans sa cuisine
On bat le briquet
-
Au clair de la lune
L'aimable Lubin
Frappe chez la brune
Qui répond soudain
Qui frapp' de la sorte
Il dit à son tour
Ouvrez votre porte
Au dieu de l'amour
-
Au clair de la lune
On n'y voit qu'un peu
On chercha la plume
On chercha du feu
En cherchant d' la sorte
Je n' sais c' qu'on trouva
Mais je sais qu' la porte
Sur eux se ferma.
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Canção infantil francesa.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Ser feliz

Grafitti da Rua Diário de Notícias (Fotografia de Margarida Elias, 2009).
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Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...
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Fernando Pessoa.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Como faço para me tornar um sábio

Desenho de Margarida Elias.
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"- Mestre, como faço para me tornar um sábio?
- Boas escolhas.
- Mas como fazer boas escolhas?
- Experiência – diz o mestre.
- E como adquirir experiência, mestre?
- Más escolhas."
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O Voo do Pintarriscos.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O Gosto dos Gostos

Ilustração de Duarte de Almeida, O Gosto dos Gostos (In Histórias Maravilhosas da Tradição Popular Portuguesa, f. 12, p. 367).

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Havia num grande reino de outrora um velho Rei que tinha três filhas. Chegado a idade tão avançada que lhe era penoso tratar dos negócios públicos, mandou reunir a corte com todos os representantes do povo e deu-lhes parte que ia dividir o reino pelas suas três filhas, se elas mostrassem gostar do pai como lhe cumpria.
Foram pois chamadas as três princesas, e perguntou o Rei à mais velha:
- Filha, como gostais de mim?
- Senhor, eu vos quero como ao ver dos meus olhos.
- Muito amor me tens, filha, e eu te agradeço dando-te a parte oriental do meu reino. E vós, filha minha, como gostais de mim? - perguntou à segunda.
- Senhor, como de mim mesma.
- Muito me agrada esse dizer, e vos agradeço. Ficareis pois com os verdes prados e as altas montanhas da bela província do Norte. E vós, minha filha, a que comparais o vosso afecto? - perguntou à mais nova.
- Pai e Senhor meu, amo-vos como ao gosto dos gostos das pedrinhas de sal.
Quando a princesa acabou de falar, levantou o Rei os braços aos céu clamando que a filha mais nova o não amava. Mandou-a sair da sala (...). Depois, (...) expulsou a filha de casa e mandou-lhe dizer que nunca mais a queria ver.
A pobre princesa saiu do palácio chorando o seu desgosto e abandono, e (...) foi ter com sua madrinha, a fada melhor de quantas existiam nesses ditosos tempos em que as fadas acudiam aos homens em suas aflições (...).
(...)
(A fada) (...) prometeu-lhe que a não abandonaria nunca e lhe aconselhou o que devia fazer.
Partiu dali a menina, mais consolada, e para encobrir seus vestidos ricos de infanta pôs às costas uma feia pele de burro (...).
(...)
Chegou por fim ao palácio de campo do Rei de França, e apresentou-se à porta perguntando se queriam serviçal.
(...)
Como parecia feia (...) nenhum serviço lhe deram senão o de andar pelo campo a guardar os patos. (...)
A Princesa tudo levava com paciência, e, quando se via só (...) punha-se a fiar para distrair suas penas, pensando no formoso Rei, seu senhor, que porventura a poderia esposar se ela fosse ainda infanta real em casa da sua família.
...)
Às vezes impancientava-se (...) e quando via os patos correrem cada um para seu lado, batia-lhes com o queijado e dizia:
- Pata aqui, pata ali, filha de Rei a guardar patos é coisa que eu nunca vi!
(...)
Quando o Rei tal soube encheu-se de curiosidade e foi para o campo espionar a rapariga. (...)
Ficou intrigadíssimo (...). Soube que ela dormia num canto escuro (...) e foi espreitá-la pelo buraco da fechadura.
A Princesa entrou para o quarto, fechou a porta (...). Depois lavou-se, penteou-se, vestiu um dos seus bonitos fatos (...), mostrando ser a mais formosa dama que até aí ele tinha contemplado.
Por sua vontade teria entrado logo, mas teve medo de a assustar e retirou-se com o firme propósito de mandar ao outro dia chamar a Pele de burro. (...)
Quando tal disse toda a gente se riu, e tanto o magoaram esses risos que se envergonhou, quase convencido que fora um sonho que tivera.
Entrou depois numa tristeza tão grande, que nunca mais pôde dormir nem comer com descanso (...).
A mãe chorava muito e não se fartava de lhe perguntar o que lhe apetecia comer.
- Desejo um bolo amassado pela Pele de burro - disse por fim de muito instado.
(...)
A menina arranjou a melhor farinha (...). Quando já estava pronto e só lhe faltava entrar no forno, tirou do dedo o mais formoso dos seus anéis e meteu-o dentro.
Trouxeram o bolo ao Rei e ele comeu-o com tal sofreguidão que ia engolindo o anel.
Quando o encontrou deu um grito de alegria, arrecadou-o e disse à mãe que casava com a mulher a quem servisse aquela pequenina jóia.
Foram chamadas todas as princesas e damas da corte, mas nenhuma conseguia enfiá-lo no dedo. (...)
Veio a Princesa com o seu feio trajo mais debaixo dele surgiu a mais linda mão que até aí se tinha visto. O anel entrou com toda a facilidade, e ela, no meio da admiração de todos, sacudiu pele que a cobria e mostrou-se com o brilhante vestido da cor do sol (...).
O Rei melhorou imediatamente e marcaram logo o dia para o casamento.
A Princesa contou a sua vida ao Rei e perguntou logo notícias do pai, ficando muito triste quando soube que as irmãs o tratavam tão mal que ele errava de corte em corte, sem reino e sem família.
O Rei mandou-o convidar para assistir ao seu casamento, mas não lhe disse quem era a noiva, nem ela se deu a conhecer quando o pai chegou.
No dia do casamento houve um grande jantar e a Princesa ordenou que a comida do pai fosse toda feita à parte e sem nenhum sal.
O velho Rei via que todos comiam com gosto (...), mas não podia levar tal sensaboria de comer.
Até que no fim lhe perguntou a filha:
- Senhor Rei, porque não comeis?
- Porque não tenho vontade, real Senhora.
- Não é por isso, mas sim porque falta na vossa comida o gosto dos gostos das pedrinhas de sal. Já sabeis que sem ele se não pode comer com gosto.
O velho Rei tudo compreendeu, e, abraçando a filha, confessou o erro em que tinha caído (...).
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História recolhida e contada por D. Ana de Castro Osório.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Descida da Cruz

Pintura de Rubens, Descida da Cruz (1612-1614, O.L. Vrouwekathedraal, Antuérpia).
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É extraordinária esta obra de Peter Paul Rubens (1577-1640), um dos pintores mais importantes da época barroca. Quem me chamou primeira a atenção para este quadro foi um amigo da minha mãe que é professor de estética na Sociedade Nacional de Belas-Artes.
É uma pintura notável. A figura de Cristo insere-se na diagonal ascendente da composição, contudo ele desce da cruz, estando a sua cabeça virada para baixo. Essa diagonal é branca: branco o pano em que vão envolver Cristo, branco o corpo de Cristo morto. Esse branco está rodeado de uma escuridão onde se vislumbram as restantes personagens. Entre elas sobressai São João, trajado de vermelho, como é próprio da sua iconografia. E esse vermelho é uma cor quente e vibrante, característica da pintura flamenga. Li algures que Rubens foi dos últimos pintores a saber compôr esse tom de vermelho. Mais discreta é a figura de José de Arimatéia, ricamente trajado, o qual seria o dono do sepulcro onde iria enterrar Jesus. No canto superior direito, deve-se observar o pormenor naturalista do homem que para fazer força, para envolver Jesus no pano de linho enquanto segura o corpo, morde o pano. Maria surge na escuridão, vestida de escuro, de luto, tentando tocar no filho, numa pungente mágoa que se pode observar na expressão dolorosa do seu rosto. Madalena, em baixo, segura um pé de Cristo, para quem olha triste, mas serena. A brancura rosada do seu braço prolonga o branco do corpo de Cristo, dando-lhe continuidade. No canto inferior esquerdo, junto da escada que foi utilizada para subirem à cruz, está uma natureza-morta, constituída por objectos ligados à paixão, entre os quais se encontra a coroa de espinhos.
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Margarida Elias.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

A Última Ceia

Pintura de Andrea del Castagno, Última Ceia (1447, Sant'Apollonia, Florença).
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Este fresco de Andrea del Castagno (1423-1457) é uma representação da Última Ceia, anterior à mais conhecida obra de Leonardo da Vinci, que data de 1498. No entanto, há semelhanças, que se devem em parte ao facto de se tratarem ambas de pintura renascentistas italianas. Neste caso, devemos notar em alguns aspectos que dão a esta composição um grande interesse em termos de História da Arte. Em primeiro lugar, devemos observar a solenidade propiciada pela perspectiva rigorosa, com ponto de fuga, i.é, centralizada, entre a cabeça de Cristo e a de São João. Depois, é notável a frontalidade da mesa, que, respeitando as mesmas regras de perspectiva, se transforma numa faixa branca horizontal, em torno da qual se dispoem as treze figuras. Interessante ainda, é a posição de São João, dobrado sobre a mesa e encostando a cabeça a Jesus, num esquema iconográfico muito utilizado nesta época. Mas, mais curiosa é a única figura que fica em frente da mesa. Enquanto os outros doze apóstolos se organizam simetricamente atrás da mesa, um apóstolo, junto de Cristo, ao centro, está sentado do lado do espectador. Esta solução é pouco habitual e por isso se torna mais notável. Por fim, não devemos deixar de observar os seis blocos de mármore que decoram a parede do fundo da sala, que constituem, pelo seu valor decorativo, seis quadros abstractos, onde o artista pode dar liberdade à sua criatividade, embora procurando reproduzir os efeitos naturais da pedra. Entre esses blocos, note-se o que se situa sobre Cristo, o mais decorado, chamando a atenção para a figura principal da cena que está a ser narrada.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Caminho da Floresta

Gravura baseada numa pintura de Alfredo Keil, Caminho da Floresta (Exposição Universal de Paris, 1878).
Imagem digitalizada disponibilizada pela Hemeroteca Digital.
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«(...) Representa o quadro um Caminho da Floresta, uma d'essas florestas aonde o sol claro de julho rompe a custo atravez da espessa folhagem dos arvoredos, entre os vagos e festivos murmurios da natureza desperta. Á esquerda avista-se uma sébe; protegido pela sombra das grandes arvores da direita vê-se um pintor copiando um ponto pittoresco. (...)»
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O Occidente, n.º 17 (1878), p. 132.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A flor

Gravura baseada numa escultura de Soares dos Reis, A Infância do Artista (obra premiada na Exposição Universal de Paris, 1878).
Gravura de O Occidente, n.º 19 (1/10/1878), edição digitalizada disponibilizada pela Hemeroteca Digital.
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Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era de mais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas linhas as linhas com que Deus faz uma flor!
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Almada Negreiros.

domingo, 5 de abril de 2009

Surpresa

Fotografia de Margarida Elias, Termas dos Cucos (Torres Vedras, 2009).
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A realidade é apenas
uma luz por dentro das coisas. Teia
em que se enreda o olhar que traz
dentro de si o amor do mundo.
Vaso que dá forma à
toalha líquida dos instantes. Suspensa
ponte sobre as margens do tempo.
Baste
ao amor a adivinhação, ao sorriso
a presença de um sonho. A luz
floresce em qualquer parte.
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Adolfo Casais Monteiro.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A pintura de História

Pintura de Corot, O Baptismo de Cristo (1845-47, Igreja de Saint-Nicolas-du-Chardonnet).
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Desde a fundação das Academias, nomeadamente em França, no Século XVII, que foi definida uma hierarquia de géneros. Nessa hierarquia estava no topo a pintura de História, considerada a mais nobre, quer pelo grau de dificuldade da composição, exigindo mestria na representação de pessoas, objectos e paisagens, quer pela importância dos temas. A seguir estava o retrato e a pintura de género, depois a paisagem e, por fim, a natureza morta. O Século XIX veio subverter esta situação, pondo fim às regras académicas. Nessa subversão cabe a valorização da pintura de paisagem e de ar-livre, a qual esteve ligada aos movimentos que, em meados do século, iriam transformar os conceitos estéticos de beleza e de ordem clássicas. Entre esses movimentos contam-se a Escola de Barbizon, o Realismo e o Impressionismo.
Até à consagração da pintura de paisagem, muitos pintores compunham quadros onde a paisagem ocupava a maior parte do espaço, sendo as figuras bastante reduzidas. Por fim, davam a essas obras títulos evocadores de uma temática mais «nobre». Um dos pintores que mais utilizou este esquema foi precisamente Corot.
No entanto, nesta obra em particular, o artista respeita a valorização do tema histórico, de carácter religioso, dando importância compositiva ao assunto escolhido e mantendo um esquema tradicional da representação do Baptismo de Cristo. Esta opção está provavelmente ligada ao facto de se tratar de uma encomenda para uma igreja. No entanto, não deixa de ser notória a dimensão dada às árvores que se prolongam verticalmente ao longo do quadro, chegando ao Céu. As árvores funcionam como um factor de união entre o espaço terreno e o espaço Celeste, no qual surge um anjo, olhando para a cena que decorre em baixo - São João baptizando Jesus. Do mesmo modo, o Céu azul prolonga-se no azul do rio Jordão e termina no azul do manto de Cristo, estendido no chão.
Corot encontrava-se na transição do Romantismo para o Realismo, sendo por isso ainda sensível aos valores de espiritualidade defendidos pelos artistas românticos. Apesar disso, devemos notar no carácter clássico das figuras e na estabilidade da composição, que remetem para esquemas compositivos desenvolvidos desde o Século XVII, em França, nomeadamente por Nicolas Poussin.
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Texto de Margarida Elias.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Se eu fosse pintor

Pintura de António Carneiro, Porto Manso (O Rio Douro em Ancede) (1927, Museu do Chiado, Lisboa).
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«(...) Se eu fosse pintor, dava isto com três brochas cheias de tinta - uma pincelada, maior, para o mar azul que não tem fim, até à linha doirada do areal - outra para o mar verde e raso dos milharais (...) - outra enfim verde-escura para o biombo recortado que cinge esta faixa desde Caminha à foz do Lima. Por fim, dois ou três toques para os montes ensaboados, muito ao longe, e um outro, lilás, para um ponto que tremeluz e é talvez Esposende, ou talvez não exista... Fim de tarde. É a hora em que anda errática não sei que alma extasiada e os montes se tornam transparentes como nuvens. Até aquele morro espesso empalidece e desmaia... Mistura-se pó verde lá longe na água, e um vulcão de fogo entre nuvens torna o horizonte apoteótico».
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Raul Brandão.